Acervo pessoal
Vento Bom é composto por 11 canções entre a mais romântica fossa e o partido alto e afoxé
A cantora de samba Dora Rosa é cuiabana, mas sua arte e gosto foram moldados e desenvolvidos com e pelo samba de raiz. Essas escolhas a levaram para o Rio de Janeiro, onde gravou seu primeiro disco, Vento Bom, com o produtor e maestro Wanderson Martins, que produz, acompanha e toca com bambas do estilo, como Martinho da Vila.
Dora escolheu lançar seu primeiro CD em Cuiabá, num sábado (19 de agosto), no espaço Papo de Samba, localizado no velho CPA III. Antes da Capital, seu disco foi lançado em Aragarças, divisa de Goiás e Mato Grosso. Foi gravado num período de cerca de seis meses, a partir de julho do ano passado.
Vento Bom é composto por onze canções que transitam entre a mais romântica fossa e o partido alto e afoxé. Tem até mesmo uma música dedicada às mulheres sambistas, composta por Alexandre Chacrinha, Junior Dom e Wallace Porto.
Na Capital, o lançamento foi de gala, com a presença de expoentes da nova geração do samba carioca, como João Martins, filho do produtor Wanderson Martins, que, por ter o samba em seu corpo ainda antes de nascer, é multiinstrumentista, cantor, compositor e coprodutor de Vento Bom.
São dele os sambas Lendas da Mata e Boas Novas do Jardim, que já faziam parte do repertório das rodas cuiabanas. Além disso, outra composição dele, Levanta, foi tema da novela A Lei do Amor, da Rede Globo.
Outro participante do show e do disco é Juninho Thybau, compositor de uma das canções gravadas no disco recém lançado. Ele é sobrinho de Zeca Pagodinho, amigo de Dora (apresentou nada menos que o marido da cantora) e tem na conta músicas como A Vitória Demora Mas Vem, gravada por Diogo Nogueira. Thybau também participou do disco Ser Humano, do Zeca Pagodinho, com a canção Tempo de Menino. Aqui, apresentou um novo hit, Tem Quem Queira. Quem também participa do disco e das rodas de Dora é Renato Milagres, outro sobrinho de Zeca Pagodinho.
Participações não faltaram também no primeiro trabalho gravado por Dora. Tem Xande de Pilares, Marquinhos Diniz, Fred Camacho, Leandro Fregonesi e Raul Di Caprio, entre outros poetas, sendo duas autorais em parceria com Erielson Marques, Rogerio Feitosa e Mardem Bento, sambistas destacados de Cuiabá.
Dado interessante quanto à estrada de Dora Rosa é o fato de ela ser bióloga de formação, “fiz especialização e tudo, menino”, ter trabalhado por 11 anos em uma multinacional do setor, mas ainda assim decidir, há exatos quatro anos, chutar o balde e dedicar-se somente aos palcos.
“Comecei a cantar bem antes, na adolescência, depois de um período de cinco anos em quimioterapia, para tratar de um câncer generalizado. Minha mãe havia feito um compromisso com Deus que, se eu me curasse, iria cantar na igreja. Deu certo e eu passei a cantar lá, durante vários anos”, conta, por telefone, ao
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Mas, como diz a letra de outra música famosa e de um curta-metragem (de 1998), a maldição do samba é mais forte que qualquer coisa. Já adulta, foi viver por um tempo em Salvador, Bahia. De férias, ainda lá morando, foi visitar o Rio de Janeiro. Ficou 30 dias, mas a experiência tomou-lhe o resto da vida, pois “o samba arrebatou o coração”, como ela mesma descreve. Começou a frequentar a Cidade Maravilhosa habitualmente. Daí para as rodas de samba, foi um pulo.
Com sua voz grave e cheia, carregada de suingue e um timbre de beleza inegável, esta cuiabana, neta de índios, conquistou rapidamente o respeito de seus pares de samba.
Sua voz começou a circular entre os compositores e músicos cariocas, em lugares como o Renascença, Tia Doca, Beco do Rato, Samba de Buteco, Samba na Rua, Samba no Quintal, Quintal do Bezerra, Casa dos Partideiros, Sarau do Escritório, Beco das Garrafas, Teatro Baden-Powell, Terreiro de Eva, Pagodinho da Lú (na Rocinha), Na Porta de Casa, em Irajá, no samba de seu compadre e amigo Juninho Thybau, enfim, em diversos lugares-referência de samba e terreiros fluminenses.
“Cantora de samba Dora Rosa é cuiabana, mas sua arte e gosto foram moldados e desenvolvidos com e pelo samba de raiz”
Novos desafios
Com disco gravado, fazendo-o circular e nome respeitado, Dora Rosa ampliou o alcance de sua carreira. Ela está em cartaz com o musical Toque de Negro e se prepara para estrear Lapa de Todos os Tempos, no qual será protagonista de um espetáculo que vai contar a história de um dos mais antigos templos da boemia e da cultura brasileira.
Criação de Caetano do Engenho, dirigido por Márcio Vasconcelos, “o musical conta a história da Lapa nos anos 30. Eu vou fazer a dona de um cabaré muito frequentado por músicos e outros artistas, além de políticos. Um lugar por onde passava figuras como Noel Rosa, Cartola e Madame Satã”, explica Dora.














