A Casa Transitória Irmã Dulce é uma antiga e importante entidade de ajuda às pessoas convalescentes de câncer carentes de outros municípios e até dos estados vizinhos. Vive integralmente de doações, sempre insuficientes para manutenção do atendimento e da estrutura na qual estão abrigados os 52 leitos existentes na sede própria, inaugurada em 2000, no bairro Jardim Califórnia.
Gilberto Leite
Casa Transitória Irmã Dulce hoje tem sede própria, mas já funcionou em outros dois locais: centro e até no CPA 4
Há quase 18 anos a entidade ocupa um terreno de 1.632 metros, doado pela Prefeitura de Cuiabá, e com prédio construído por empresários da construção civil, com o proprietário da Plaenge à frente (responsável por erigir os 676 metros de área coberta, onde estão abrigados os quartos, refeitório, enfermaria, setor de administração e sala de atividades de recreação e lazer). Mas foi fundada há 27 anos na parte dos fundos da antiga creche São Francisco, na rua Pedro Celestino, centro; local este hoje inabitado devido ao desabamento de boa parte do antigo casarão. Com todos os percalços enfrentados nessas quase três décadas, a recepção em sistema de pensão jamais foi interrompida, entretanto, pois nesse curto período de alguns meses pós-desabamento, seguiu funcionando provisoriamente no bairro CPA IV, bem no início do século 21.
“Desde o começo vivemos somente de doações. Até tivemos alguma ajuda pública nos tempos do governo Dante, mas depois disso nunca mais, nem estado, nem município, nada”, explica um dos diretores da entidade, Getúlio Dornellas, 65 anos. Ele não consegue explicar bem como conseguem manter os cinco funcionários fixos (todos com carteira assinada), mas tem na ponta da língua como faz para alimentar todos: “o povo cuiabano é muito generoso com todas entidades sérias. Comida, roupa e produtos de limpeza nunca faltaram”, diz, fazendo questão de agradecer.
O problema são os salários dos funcionários e custos como luz, água, telefone e gás, combustível para a van, pois, com a ajuda de voluntários, os cinco funcionários mais os diretores proporcionam às pessoas em tratamento (adultos na maioria, mas recebem crianças também), além da cama e roupa lavada, cinco refeições diárias (café da manhã, ceia, almoço, lanche e jantar) e transporte (em uma van recebida em doação) até o hospital de tratamento, geralmente o Hospital do Câncer de Cuiabá. Tudo gratuitamente não só ao paciente, mas também a seu acompanhante.
Gilberto Leite
Diretor Getúlio Dornelas conta segredo pra manter casa há 27 anos: solidariedade de todos
A solução é, conforme doações acumulam coisas como brinquedos, roupas e outros objetos, vender alguns por meio de um bazar, além de esperar pela boa vontade (que sempre vem, faz questão de lembrar seu Getúlio) de empresários, profissionais liberais e até mesmo assalariados cuja generosidade leva alguns a doar os R$ 25 mil mensais de custos de manutenção.
“O único critério que utilizamos para recepção é ser carente, estar em tratamento em hospitais públicos e nada mais. Alguns ficam três meses, outros três dias, mas também já aconteceu de pessoas precisarem ficar por três anos. Tudo depende do tempo de tratamento”, explica seu Dornelles, cuja dificuldade neste mês está sendo conseguir elementos para compor a festa de Natal deste ano. Entretanto, esta já está garantida, mais ou menos simples, sempre com solidariedade à flor da pele especialmente neste período mais difícil para quem está doente. “São as piores datas aqui, sábados, domingos e feriados”.
Gilberto Leite
Dona Maria e seu Edison. Ele trata tumor que impede a fala e causa muita dor de cabeça
Dias não só piores do que aqueles nos quais alguém acaba falecendo. Além da burocracia (informar órgãos oficiais, pedir uma ambulância estatal para confirmar o óbito e enfim conseguir lavrar o atestado deste), há um desafio adicional: não deixar os demais sofrerem um impacto além do necessário no ato de retirar dali e entregar à família um ente que se foi. "Procuramos tomar todo o cuidado possível com isso, pois sabemos bem como eles estão com a cabeça cheia de incertezas, se sentindo às vezes amedrontados, entre aqui e lá". Sendo aqui este mundo e lá o eterno desconhecido e ainda assim destino comum de todos nós.
Esperança
“Se não existisse esta casa, não teria como manter o tratamento do meu marido aqui em Cuiabá”
“Se não existisse esta casa, não teria como manter o tratamento do meu marido aqui em Cuiabá”, conta dona Maria da Silva, 45, moradora de Pontes e Lacerda, acompanhante do marido, Edison da Silva, 46 anos, com um câncer na língua e garganta que o impede de falar devido às dores fortes causadas pela lesão de um tumor.
"Ele já melhorou bastante, agora até consegue falar alguma coisa. Antes, não conseguia nem ficar sentado, de tanta dor". Os dois estão abrigados na casa Irmã Dulce há 46 dias (quando do fechamento desta matéria). Como ele não consegue mais comer alimentos sólidos, se alimenta de um suplemento hospitalar doado por um dos amigos da casa. Ela explica que o início da luta do marido se deu há cerca de três meses, quando uma biopsia no que eles achavam ser um abscesso no queixo determinou a procura pelo tratamento no Hospital do Câncer.
Serviço
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Quem quiser doar à Casa Transitória Irmã Dulce pode se dirigir diretamente até lá (Rua Pacífico, 305 - Jardim Califórnia, Cuiabá-MT, CEP 78025-190 – a menos de 10 metros da avenida Beira Rio, logo após a rotatória da ponte Sérgio Motta, sentido bairro-centro). O telefone de lá é o (65) 3634-5948. Há vagas para voluntários.




















