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Prata da casa

Quadrinista criado em MT, Wander é o autor de Cidade Proibida, série da Globo

Rodivaldo Ribeiro

O goiano de Jataí Wander Antunes tem 51 anos, dos quais pelo menos 35, inclusos infância e adolescência, foram passados aqui em Cuiabá. Também foi aqui que ele descobriu, desenvolveu e se profissionalizou em sua arte: a de escrever histórias, especialmente para quadrinhos. Recentemente, seu maior nível de reconhecimento nacional até agora chegou -- uma de suas séries de HQs foi adaptada como série audiovisual pela Rede Globo.

Acervo pessoal

Wander Antunes 9

Em Cuiabá, onde viveu a maior parte da vida, nos bairros Santa Isabel e Boa Esperança

Composta de nove capítulos (nesta temporada), passa às 22h30 das terças, foi rebatizada de Cidade Proibida (o nome original do gibi é As Aventuras de Zózimo Barbosa: O Corno Que Sabia Demais) e, de quebra, acabou de lançar uma nova edição desse mesmo gibi, no fim de novembro, pela Editora Noir, em São Paulo, onde Wander reside atualmente.

Ambas séries, tanto a original quanto a adaptada, tratam do modo de ser brasileiro nos grandes aglomerados urbanos nos idos dos anos 1950. As relações humanas – amorosas, sexuais, profissionais e de amizade – são desveladas pelo texto ambidestro, cômico às vezes, trágico volta e meia, um tanto quanto violento sempre. Há uma espécie de violino tocado por Nelson Rodrigues ao fundo de cada história, e o criador de Zózimo nunca escondeu isso.

“Penso que Nelson foi quem conseguiu determinar com exatidão o que somos nós brasileiros. É como se ele, ao escrever, nos dissesse: todos nós somos isto”, contou-me certa vez em uma conversa pré-entrevista por ocasião do lançamento de um de seus muitos projetos desenvolvidos por aqui.

Naqueles tempos de desventuras em série, fins dos anos 90 e início do século 21, Wander Antunes mantinha, ao lado de outro escritor, Juliano Moreno, a inglória batalha por apresentar ao público a produção local de criadores independentes. São dessa época as revistas Vôte! e Estação Leitura. As duas reuniam histórias em quadrinhos, crônicas, poesias e contos de autores mato-grossenses e eram distribuídas gratuitamente. Curiosidade: o detetive Zózimo foi criado nesse período, para essas revistinhas entregues pelas ruas e pontos de ônibus de Cuiabá e da qual há raríssimos exemplares remanescentes.

Divulgação

Wander Antunes 8

Com o elenco de Cidade Proibida, adaptação da obra Zózimo, O Corno Que Sabia Demais, criada para um zine distribuído gratuitamente pelas ruas e pontos de ônibus da capital

Em 1999, criou a sua primeira graphic novel, em parceria com o desenhista Mozart Couto. Crônicas da Província, histórias que, como o título já deixa antever, tratavam de um Mato Grosso dos fins do século 19 e início do 20, entre a Guerra do Paraguai e o auge da República Velha. E essa é uma das marcas do trabalho do autor -- ele sempre pontua períodos históricos em suas ficções. 

Veio então uma curva exponencial de ascensão. Foi tempo de Wander editar a revista Canalha (com desenhos de Gustavo Machado e Paulo Borges), da editora Brainstore, na qual retomou o personagem Zózimo Barbosa. Nunca mais parou. No ano de 2002, publicou uma edição especial da Canalha pela editora Opera Graphica. Dois anos depois, estreou no mercado europeu de histórias em quadrinhos com Gilda, primeiro volume da série Ernie Adams, publicada pela editora suíça Paquet.

Pela mesma Paquet, vieram Big Bill Est Mort (2005) e Un Paradis Distant (2006), na parceria com o artista argentino Walther Taborda. Nesse mesmo período, publicou Vieille Amérique (2005), com outro desenhista latino, o mexicano Tony Sandoval, mais uma forte aventura de piratas L´Oeil Du Diable, desenhada pelo espanhol Tirso.

E aí veio sua obra mais comentada pelos críticos e conhecedores de quadrinhos mais puristas, o álbum Toute la Poussière du Chemin, editado e lançado em 2010 pela editora franco-belga Dupuis. A história é a de um desempregado vagando pela aridez dos Estados Unidos em plena Grande Depressão. Produziu e lançou também A Boa Sorte de Solano Dominguez (Editora Desiderata) em 2007.

Um longo caminho

A adaptação do universo de Zózimo pela Globo como série foi anunciada em 2015, mas a compra dos direitos de adaptação para tornar, originalmente, os gibis um quadro dominical no Fantástico aconteceu muito, mas muito antes.

Divulgação

Wander Antunes Zozimo 2

Trecho do Zózimo, hoje nacionalmente conhecido, foi concebido enquanto o escritor morava e produzia na periferia de Cuiabá

“Cidade Proibida foi concebida, há dez anos, como um quadro do Fantástico”, explica Mauro Wilson, criador e redator final do programa na Rede Globo. “Mas era muito caro para os padrões da época, e as séries ainda não tinham essa popularidade de hoje. Quando o Guel Arraes assumiu o núcleo de séries, ele logo se lembrou desse projeto. A gente retrabalhou tudo, criou a Marli, que não existia nos quadrinhos, e inventou um passado de policial para o Zózimo, em que ele trabalhou com o Paranhos. O que mais aproveitamos dos quadrinhos foi o tom meio amoral dos personagens, esse código ético entre eles que é maior do que tudo”, continuou Wilson.

Inicialmente, o título original Zózimo seria mantido, mas em março deste ano a direção da tevê alterou o nome da série para Cidade Proibida. Também houve mudança no protagonista, no lugar de um anunciado Marcelo Serrado, entrou Vladimir Brichta. A estreia veio somente em setembro passado.

“Venho de Jataí, em Goiás, depois fui para Cuiabá, em Mato Grosso. São histórias desses lugares que me interessam. Sou um cara do Brasil profundo”, diz.

E o fazer audiovisual da Globo para televisão se apresenta com a excelência técnica costumeira. Aos heróis, antiheróis, vilões, mulheres fatais, fanfarrões e outros típicos personagens rodrigueanos cínicos, se aliaram os contrastes de luz e flashbacks, tudo para dar voz às tramas habituais e clássicas de Wander, com suas reviravoltas e amarramentos enxutos entre os personagens e referência ao cinema noir.

A opção, disse o diretor da série, foi para impedir que as coisas parecessem “uma paródia do noir americano”, por isso a opção por modernizar a maneira como o gênero é retratado classicamente. Isso levou a uma considerável diminuição as locações em estúdios e abuso de externas, reais, sem cidades cenográficas. “Foi um trabalho gigante para a cenografia e o figurino”.

Vladimir Brichta andou dizendo por aí que Zózimo foi um dos personagens mais difíceis já feitos por ele. “Assisti a muitos filmes, mas principalmente Los Angeles — Cidade Proibida, que tem elementos muito parecidos. O Zózimo tem elementos dramáticos, mas também de humor, combinando ironia e sarcasmo. E o desafio foi fazer isso sem ficar caricato”, afirmou.

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Trecho de Toute la Poussière Du Chemin, pela belga Dupois

Futuro

Para o futuro, o goiano-mato-grossense pretende relançar – agora com desenhos dele (a primeira edição ficou a cargo de Mozart Couto) – A Boa Sorte de Solano Dominguez, além de um novo trabalho: Depois Que o Diabo Foi Embora e Outros Contos Violentos e Vulgares, cujas histórias versam sobre morte e misticismos.

Dos tempos em que conversávamos por aqui, lembro do quadrinista fazer questão de não diminuir as histórias em quadrinhos em oposição à literatura enquanto forma de expressão artística, erro comum ainda hoje a alguns poucos, como se a última fosse muito maior que a primeira. “Histórias em quadrinhos não devem ser vistas apenas como porta de entrada para experiências mais nobres, como a literatura. Há histórias em quadrinhos com uma qualidade literária que não está presente em qualquer livro”.

Em tempo: a segunda temporada da série foi confirmada pela Rede Globo, que já iniciou a pré-produção. Em conversa com a reportagem pelo Facebook, a resposta a essa pergunta havia sido apenas um "salve, Rodivaldo. Puxa, eu não sei te responder, a verdade é que eu não sou informado dos bastidores do seriado". Tá esclarecido então, Wander.

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