A queda de parte da estrutura da Casa de Nhonhô Manduca (tornada mais famosa como de Bembem) na semana passada, um dos últimos casarões históricos do século 19 remanescentes em Cuiabá, localizado na Rua Barão de Melgaço, foi classificada como absurda pela doutora em história Luiza Rios Ricci Volpato, além de um erro primário, pois “qualquer pedreiro bem intencionado sabe que não se destelha casas em períodos de chuva”. Especialmente as de adobe, porque mesmo as de tijolo cozido não resistiriam a um volume líquido característico do período chuvoso daqui, seguiu a professora da UFMT.
Gilberto Leite
Reforma da casa de Nhonhô Manduca/Dona Bembem tomou contornos kafkianos. Nos vários jogos de empurra e vaivém, o desfecho foi a queda. Tragicomédia começou em 2012
Erigida em 1850, o casarão abrigou a família Palma durante décadas e tornou-se ponto de encontro dos cuiabanos a partir dos anos 1960, época na qual dona Constança Figueiredo, dona Bembem, começou a sediar celebrações de São Benedito. Essas festas foram feitas regularmente até os anos 1980. Com a chegada dos novos tempos, familiares dos Palma continuaram morando por ali.
“A casa permaneceu habitada, enquanto sob tutela da família, até pelo menos 2008”, lembra Volpato.
Na manhã do dia 26 de março de 2012, a família Palma doou formalmente, em regime de comodato, a casa tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional à Secretaria de Estado de Cultura (SEC) para esta passar a realizar reformas e reforço estrutural para abrigar músicos da Orquestra do Estado e do Instituto Ciranda.
Quem assinou o termo pela família na ocasião foi o ex-prefeito de Cuiabá e ex-deputado federal Rodrigues Palma. Era o governo de Silval Barbosa, mas quem o representou foi sua esposa, Roseli.
Gilberto Leite
Doutora Luiza Volpato: "falei pessoalmente com o prefeito Emanuel da minha preocupação"
Como era comum até o início do século 20 nos casarões construídos pelos mais abastados desse tempo, a casa de Nhonhô Manduca foi construída em um terreno gigantesco para os padrões de hoje: 75 metros de frente e inacreditáveis 116 de fundo. Lá ainda há um quintal extenso, com mangueiras. Dentro, antes da queda, havia um pé-direito alto, piso xadrez, grandes portas e janelas de madeira e as paredes grossas como exigem ser as de adobe. O nome do prometido espaço revitalizado também era portentoso: Centro Cultural Casa de Nhonhô Manduca (Casa de Bembem). Mas a coisa não andou nas mãos do Estado.
“Ficou sem que se fosse feito nada durante muito tempo e o governo do Estado ainda passou a responsabilidade para a prefeitura. Este ano, eu pessoalmente conversei com o prefeito sobre minha preocupação e interesse com e pela casa de Bembem e ele falou: ‘ano que vem estamos retomando a reforma’. Demoraram demais”, argumenta doutora Luiza Volpato. E há agravantes, pois a pesquisadora da UFMT afirma com todas as letras que enquanto a casa estava sob tutela dos Palma, permaneceu em uso, por parentes mais distantes, e em boas condições até há bem pouco tempo.
A família, numa espécie de ato premonitório, organizou um protesto à situação classificada por eles como de abandono. Um abraço coletivo e simbólico foi realizado ao fim da tarde do dia 29 de novembro passado, uma quarta-feira.
Era a madrugada do domingo passado, dia 10 de dezembro, quando um temporal desceu sobre Cuiabá e as lonas de contenção foram insuficientes para manter o barro nas formas de adobe. Este voltou ao seu estado natural e boa parte da história retesada por ele veio abaixo.
Procurado, o atual secretário de Cultura do município, Vicente Vuolo, informou por telefone ao
não ter como confirmar a informação de que a casa estava habitada até pouco tempo atrás, mas admite não ter o poder público feito absolutamente nada desde o termo de comodato de 2012. “À época o secretário de Cultura era o ex-deputado João Malheiros. Durante todo esse período não houve intervenção alguma lá, a não ser a destinação ao Instituto Ciranda. No final de 2015 a casa foi incluída no programa PAC Cidades Históricas, para receber recursos públicos na ordem de R$ 2,1 milhões”.
A partir daí, disputas judiciais em torno do processo licitatório (vencido pela X Nova Fronteira) realizado pela prefeitura de Cuiabá no último ano do mandato de Mauro Mendes atravancaram o andamento da reforma já no primeiro ano de Emanuel Pinheiro. Vuolo segue a afirmar, porém: a casa já estava em estado de desgaste. “A contratação da empresa também foi feita pela gestão anterior. Somente em abril deste ano, nesta gestão, foi expedida a ordem de serviço”. E aí, novo porém, pois a segunda convocada entrou com um processo judicial questionando o resultado do certame.
Isso levou a um período sub-judice de dois meses. Somente em julho deste ano saiu enfim a autorização para seguimento da obra. Tudo certo? Não, pois a empresa vencedora (e que toca efetivamente a obra hoje, com desmoronamento incluso) ainda não tinha apresentado “algumas documentações, como o projeto arqueológico. Depois a mesma empresa fez o destelhamento e este acabou sendo feito num período próximo ao de chuva”, segue Vuolo.
Mais ou menos como em O Processo, do tcheco-alemão Franz Kafka, sucessão de vaivéns continuou quando a empresa alegou questões de medição e pagamento -- “que não procedem”, nas palavras do secretário -- para abandonar a obra durante o período agora chuvoso da capital.
“Fizemos as notificações junto com o Iphan, questionamos a empresa, que estava agindo de forma errada, e, junto com a procuradoria, a fizemos retomar as obras duas ou três semanas atrás”. Mas a velocidade dos homens não acompanhou a da natureza e o narrado e repetido linhas acima acabou por acontecer.
O secretário de Cultura também diz ter apresentado, junto com o Iphan, projeto para escoramento e cobertura da casa desde a semana passada e que a empresa está trabalhando com recursos próprios. Todo material objeto do desmoronamento, sempre de acordo com o secretário, vai ser remanejado e armazenado em ambiente específico para ser utilizado na restauração.
E os responsáveis pela queda, quando serão apontados e enfim punidos? Só depois da reforma, afirma Vuolo. O foco do momento é “evitar mais danos aos imóveis”. Ele encerra afirmando cientificação da família quanto a todas as etapas daqui em diante.
Sobre o centro histórico
Luiza Volpato é autora de vários livros, dentre os quais há volumes sobre história de Mato Grosso desde o período colonial. Ela lembra a riqueza de alguns dos casarões do século 19 ainda em pé na capital e lembra que entre estes há vários realmente muito importantes por terem abrigado personalidades históricas como o primeiro presidente da República do Brasil, o marechal Manuel Deodoro da Fonseca (este fica ali na rua Cândido Mariano, quase chegando na Igreja da Boa Morte).
Nascida aqui, ela mesma frequentou muito o centro da capital e a casa de Nhonhô Manduca. No tempo dela já havia ocorrido a primeira mudança nas características originais do centro colonial. Do século 18 mesmo, só as igrejas e a Casa Cuiabana permaneceram de pé (esta última quase sem alterações), e o traçado das ruas centrais, todas estreitas, algo tortas e com destino ao Porto.
Mudança significativa mesmo começou no final do século 19, depois da Guerra do Paraguai, quando vieram para Mato Grosso muitos engenheiros italianos, já a utilizar técnicas mais modernas de construção e materiais como, por exemplo, o vidro. Esses novos prédios se mantiveram em pleno uso até o começo do século 20.
“Nem todos caíram, muitos foram vendidos e derrubados conscientemente em busca de uma modernização. Eram só casarões por ali”, na região do centro. Se não se tratou de crime do ponto de vista jurídico, certamente foi no mínimo desrespeito com a memória da cidade e do país.











Marcio Almeida 08/06/2025
Eu peguei manga no quintal de D. Bembem. Comi bolo de arroz e de quijo em seu quintal. Estudei no Leovegildo de Melo, morei na Comandante Csta e Rui Barbosa. Assisti filme no Cine Teatro Cuiaba e fiz compra no Morita. Ainda sou jovem , mas Cuiabá ousou me fazer viver desde cedo.
Albino Pfeifer Neto 17/12/2017
Sinceramente não sei por que temos governos! Irresponsáveis, ineficientes e sem compromisso com a população!
Leo 17/12/2017
Nossa cultura e história está acabando!
Maria 17/12/2017
A REALIDADE É UMA SÓ, IRRESPONSABILIDADE DO PODER PUBLICO.
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