Polícia

Segunda-Feira, 26 de Outubro de 2020, 07h:00 | Atualizado: 26/10/2020, 15h:32

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

MT é o mais perigoso para mulheres no Centro-Oeste durante atual pandemia

Mato Grosso foi o mais perigoso para mulheres entre os Estados da região Centro-Oeste durante o primeiro semestre deste ano. A unidade federativa explodiu em casos de feminicídio, que são os assassinatos de mulheres por serem mulheres e em contexto de violência doméstica, com uma alta de 68,4%. O crescimento de casos preocupa tendo em vista que elas estavam em isolamento social por conta do coronavírus, ou seja, dentro de casa com seus maridos e parceiros.

Os dados constam da 14ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançada na semana passada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e que contém varios levantamentos sobre a violência no país.

Segundo o Anuário, Mato Grosso disparou em casos de feminicídio. De 19 ocorrências registradas no primeiro semestre de 2019, as mortes saltaram para 32. Passou Goiás, o segundo Estado da região Centro-Oeste com mais casos de mortes mulheres por questões de gênero, com alta de 42,9%. Já Mato Grosso do Sul teve uma alta de 2,2%, com mais 6 casos, e o Distrito Federal, o único com taxas negativas, que reduziu as mortes em 42,9% - veja quadro.

No final de semana, a secretaria estadual de Segurança de Mato Grosso atualizou os dados até setembro. Segundo a SESP, o número de feminicídios chegou a Mato Grosso 45 feminicídios (entre janeiro e setembro). Num comparativo com o mesmo período do ano passado, quando 33 mulheres foram assassinadas, o crescimento do número de mortes cai para 36%. Os dados foram emitidos pela Superintendência do Observatório de Segurança Pública - veja mais detalhes aqui.

Dayanne Dallicani

Casos de Feminic�dio_especial

Doloso

O Anuário mostra também que, enquanto as vítimas mulheres por homicídio doloso (quando há intenção de matar) aumentou em apenas um caso do primeiro semestre de um ano para outro, o feminicídio teve um salto de 13 ocorrências no mesmo período.

Considerando os homicídios dolosos e os feminicídios, foram 78 mulheres mortas no total.

De acordo com os pesquisadores David Marques e Betina Warmling Barros, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o crescimento destes dois tipos de mortes no país, nos primeiros seis meses deste ano, foi classificado como leve. Mas que, assim como os demais crimes contra as mulheres, podem ter havido subnotificação. "Tendo em vista a maior dificuldade de registros por parte das mulheres em situação de violência doméstica durante a vigência das medidas de distanciamento social", escrevem.

Subnotificação é realidade, diz defensora do Núcleo de Defesa da Mulher

Para a defensora pública Rosana Leite, do Núcleo de Defesa da Mulher em Cuiabá, a subnotificação é uma realidade. As estatísticas de violência doméstica e familiar, para crimes como ameaça ou lesão corporal, diminuíram durante o começo do isolamento social para prevenir o contágio do coronavírus. Enquanto isso, os feminicídios aumentaram, segundo estatísticas da Polícia Civil. “Se houve aumento do feminicídio, houve aumento da violência dentro de casa. As mulheres estão sendo vítimas dentro de casa e se calando por algum motivo”, diz.

Um desses motivos é o maior convívio com o agressor. Assim, muitas mulheres deixaram de procurar ajuda do poder público. Além das estatísticas da Polícia Civil, que são inclusive a base para o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a queda nos números de atendimentos no Núcleo de Defesa da Mulher, na Defensoria Pública, corrobora o crescimento da violência doméstica, de acordo com Rosana.

Foi grande a diminuição pela procura no início do isolamento social. "Muitas deixaram de procurar", diz a defensora. Ela cita números do Instituto Data Senado, do Senado Federal, que aponta em relatório, divulgado em 2019, que 78% das mulheres tem medo de denunciar o agressor. O acesso a canais de atendimento, por estarem próximos de seus parceiros, também é um motivo para a baixa procura.

Atualmente, após o afrouxamento das medidas de isolamento social, a situação começa a regularizar e o número de atendimentos no Núcleo da Mulher já começa a ser o mesmo de antes da pandemia, segundo Rosana.

Feminicídios em 2019

De acordo com os dados consolidados de feminicídios de 2019, houve queda de 8,2% dos casos de mortes de mulheres por serem mulheres, quando comparado com as ocorrências de 2018. Mato Grosso foi então o segundo estado da Região Centro-Oeste com uma taxa negativa. O vizinho Goiás reduziu em 19,9% as ocorrências de mortes. Já Distrito Federal tiveram aumento de 15,5% e 9,8%, respectivamente.

Já para os casos de homicídio doloso, onde as mulheres foram as vítimas, Mato Grosso registrou aumento de 10,5%, com mais 8 casos. Novamente, ficou atrás do Distrito Federal que teve mais 13 ocorrências de assassinato, uma taxa de 25,1%. Goiás e Mato Grosso do Sul registram quedas de 25,1% e 14,7%, com menos 47 e 8 casos, respectivamente.

Segundo o Anuário, há uma piora significativa em todos os crimes de violência contra a mulher, com 1.326 vítimas de feminicídio, um aumento de 7,1% na comparação com 2018, no Brasil.

A análise dos registros policiais revela que a grande maioria dessas mulheres foi morta por seus próprios companheiros (89,9%), são negras (66,6%) e jovens (56,2% na faixa entre 20 e 39 anos).

Outro dado que chama a atenção é a maneira como essas mulheres foram mortas: 53,6% das vítimas de feminicídio foram vítimas de arma branca, 26,9% de armas de fogo e 19,5% por outros meios (como agressão física e asfixia mecânica).

Dayanne Dallicani

Casos de Feminic�dio_especial
 

Canais de atendimento

As mulheres vítimas de violência doméstica podem procurar o Núcleo da Defesa da Mulher, da Defensoria Pública, através dos números (65) 3613-8200, (65) 3613-8204, (65) 9 9304-9945 e (65) 9 8463-6782.

A Delegacia da Mulher também continua com atendimento presencial normal, tanto na unidade da rua Joaquim Murtinho, no Centro, quanto na avenida dos Trabalhadores, no bairro Planalto, em Cuiabá.

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Deputado ajudou a enterrar Binotti

neri 400 curtinha   O deputado federal Neri Geller (foto), que se acha um grande líder político, ajudou a enterrar nas urnas o projeto de reeleição do prefeito Luiz Binotti (PSD), derrotado à reeleição. Perdeu para o ex-vice-prefeito Miguel Vaz (Cidadania), que contou com apoio do ex-prefeito e atual...

Euclides "torra" R$ 8 mi na campanha

euclides ribeiro 400 curtinha   O advogado milionário Euclides Ribeiro (foto), que tem na carteira de clientes grandes produtores rurais, registra R$ 8,2 milhões de receitas e despesas de campanha ao Senado. Concorrendo pelo Avante, Euclides só chegou a 58.455 votos. Ficou em nono lugar, à frente apenas de Reinaldo...

Fávaro é quem mais gastou ao Senado

carlos favaro 400 curtinha   O senador reeleito Carlos Fávaro (foto) foi o que mais gastou na campanha. Oficialmente, arrecadou R$ 11,7 milhões. As maiores contribuições financeiras vieram de empresários do agronegócio. Orcival Guimarães, dono de rede de empresas de implementos agrícolas, doou...

Beto deve repensar projeto a federal

beto farias 400 curtinha   A derrota nas urnas do seu afilhado político, vice-prefeito Wellington Marcos (DEM), que tentou o Executivo de Barra do Garças e ficou em segundo lugar, obtendo somente metade dos votos em relação aos atribuídos ao eleito Adilson Gonçalves, pode levar o prefeito Beto Farias (foto)...

Erros estratégicos e fim de mandato

niuan ribeiro 400   Niuan Ribeiro (foto) termina melancolicamente o mandato de vice-prefeito da Capital, marcado pela ambiguidade, erros estratégicos e vacilações. Logo no início da gestão, resolveu romper politicamente com o prefeito Emanuel, a quem passou a criticar, achando que se consolidaria como...

Retorno ao TCE ou cargo no governo

marcelo bussiki 400 curtinha   A partir de 1º de janeiro, com o fim do mandato de vereador pela Capital, Marcelo Bussiki (foto) retorna ao cargo efetivo de auditor do TCE-MT. Mas é possível que ele seja convidado por Mauro Mendes para compor o quadro de principais assessores do chefe do Executivo estadual. Bussiki foi...