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Luiz Henrique Lima

Centenário de um líder

Luiz Henrique Lima

Divulgação

Luiz Henrique Lima - conselheiro TCE

Luiz Henrique Lima

22 de janeiro marca o centenário de nascimento de Leonel Brizola, um dos maiores líderes políticos brasileiros do século XX. No campo das ideias progressistas, o maior.

Brizola merece a homenagem dos que o conheceram e a gratidão dos milhões de brasileiros que de algum modo foram beneficiados por suas iniciativas executivas ou defendidos por suas lutas políticas. Merece também a saudade dos que com ele conviveram e trabalharam.

Como tive esse privilégio, não posso sonegar o meu testemunho, inclusive porque a sua história e o seu exemplo devem ser divulgados para inspirar as novas gerações.

Impossível em poucas linhas resumir tão grandiosa trajetória.

Brizola teve origem muito humilde. Órfão de pai, estudou como bolsista com auxílio de um pastor metodista. Trabalhou desde os dez anos, como maleiro, engraxate e jardineiro. Estudante em Porto Alegre, destacou-se como líder da juventude trabalhista, elegendo-se deputado estadual, federal, prefeito e governador do Rio Grande do Sul, onde implantou um extraordinário programa educacional.

Despontou para o cenário nacional ao liderar a histórica Campanha da Legalidade, primeira e única vez em que um movimento popular impediu e derrotou a tentativa de um golpe militar contra a posse de João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros. Aviões militares receberam a ordem de bombardear o Palácio Piratini, protegido por milhares de cidadãos, mas foram impedidos de decolar pela mobilização de sargentos e soldados. Ao deixar o governo gaúcho, tornou-se o deputado mais votado proporcionalmente da história, ao receber 25% dos votos da Guanabara.

“Brizola merece a homenagem dos que o conheceram e a gratidão dos milhões de brasileiros que de algum modo foram beneficiados por suas iniciativas executivas ou defendidos por suas lutas políticas.”

Conheci Brizola logo após o seu retorno do exílio com a anistia de 1979. À época, eu liderava uma tendência do movimento estudantil na Faculdade de Economia da UFRJ, denominada Esquerda Democrática e ele lutava para reorganizar o trabalhismo, com um programa atualizado sob a influência de líderes da Internacional Socialista, como Mário Soares e Willy Brandt. Terminamos nos encontrando no então PDT, com figuras notáveis como Darcy Ribeiro, Neiva Moreira, Doutel de Andrade, Abdias do Nascimento, Teotonio dos Santos, Bayard Boiteux, Francisco Julião e tantos mais. Em pouco tempo, numa disputa acirrada, fui eleito secretário-geral nacional da Juventude Socialista.

Participamos juntos, ainda sob as regras ditatoriais, da memorável campanha de 1982na qual Brizola derrotou as oligarquias e as máquinas políticas elegendo-se governador do Rio de Janeiro. Na ocasião, fui eleito vereador na capital carioca, o mais jovem da história, até então.

Tenho grande orgulho de ter ajudado e participado dos governos de Brizola no Rio. Foram governos profundamente democratizantes, inovadores e visceralmente comprometidos com o povo trabalhador. Dois aspectos merecem destaque: a política de direitos humanos na segurança pública e a revolução na área educacional com as escolas de tempo integral, os CIEPs. Por essas realizações em prol dos mais humildes, sofridos e necessitados, Brizola sofreu implacável oposição e infâmias que perduram até os dias atuais, o que demonstra o seu acerto e a sua grandeza.

É próprio dos autênticos líderes populares não provocar indiferença nas classes dominantes. Não conheço um homem público que tenha sido tão atacado, acusado e difamado, e com tanta raiva, como o velho Briza. E não conheci nenhum com tamanha coragem e autenticidade.

Bem mais, poderia relatar, se houvesse maior espaço, como episódios de que participei quando fui o líder na Assembleia do seu segundo governo e que revelam a grandiosidade do ser humano, além do homem público. Por isso, Brizola era respeitado e querido, tanto por grandes líderes como Nelson Mandela, como pela gente simples das comunidades pobres.

Ao longo de sua trajetória, cometeu diversos erros estratégicos e táticos. Tive a oportunidade de alertá-lo para alguns. Em outros, ajudei-o a errar. Mas nunca traiu o povo ou o país e nunca participou de negociatas. Seu nome é limpo e sua vida é exemplo.

Obrigado Brizola! Viva Brizola!

 Luiz Henrique Lima é professor e Auditor Substituto de Conselheiro do TCE-MT.

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