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 Luiz Henrique Lima

Masha e Ruslan, amor e guerra

 Luiz Henrique Lima

Divulgação

Luiz Henrique Lima - conselheiro TCE

Luiz Henrique Lima

Quem os conheceu, testemunhou um lindo caso de amor. Desde que se viram, por acaso, num festival de verão, Masha e Ruslan souberam que estariam juntos para sempre.

Para sempre, nem sempre o destino e a humanidade ajudam. Mas, no que dependesse deles, era amor e união para sempre.

Eram felizes juntos. Masha fazia Ruslan um melhor ser humano. Sorria mais, tinha mais disposição para tudo. Ruslan provocou em Masha a rápida transformação de adolescente conflituosa em mulher determinada. Desabrochou em todos os aspectos e tornou-se ainda mais bela.

Quem os conheceu, nunca duvidou que em breve casariam e que esse seria um enlace duradouro e abençoado.

Após dois anos e poucos meses de namoro, superando as dificuldades e restrições da pandemia, Ruslan e Masha marcaram a cerimônia de bodas para a última semana de fevereiro. De origens culturais distintas, as respectivas famílias conheciam-se pouco, mas acreditaram no amor sincero e profundo que viam brilhar nos olhos de seus filhos e é isso o que de melhor podem os pais desejar. Ambas aprovaram e celebraram a decisão dos jovens.

“Masha e Ruslan sonharam juntos o futuro que construiriam. Iriam morar em outra cidade, onde vislumbravam melhores oportunidades. Ele, evoluindo na sua carreira; ela, concluindo seus estudos e trabalhando em tempo parcial. Como em todo início, sabiam que enfrentariam percalços, mas estavam determinados a enfrentá-los unidos. Acima de tudo, amavam-se e queriam viver juntos.”

Masha e Ruslan sonharam juntos o futuro que construiriam. Iriam morar em outra cidade, onde vislumbravam melhores oportunidades. Ele, evoluindo na sua carreira; ela, concluindo seus estudos e trabalhando em tempo parcial. Como em todo início, sabiam que enfrentariam percalços, mas estavam determinados a enfrentá-los unidos. Acima de tudo, amavam-se e queriam viver juntos.

Na semana do casamento, o líder do país de origem da família de Masha determinou uma brutal invasão militar no país em que ela e Ruslan viviam. Sua cidade, próxima à fronteira entre as duas nações, foi um dos primeiros alvos dos bombardeios aéreos e logo a seguir do avanço das tropas terrestres.

Ruslan e Masha não se casaram. A guerra não permitiu.

A casa da família de Masha foi atingida no início dos combates e hoje os sobreviventes estão refugiados em um abrigo num terceiro país para o qual conseguiram escapar, percorrendo dezenas de quilômetros a pé, acossados pelas intempéries do inverno e da guerra.

Ruslan foi convocado para resistir à invasão e, mesmo sem experiência ou aptidão com armas, designado para a linha de frente. O jovem, que planejava plantar um jardim diante da pequena casa que iriam alugar, está nesse momento entre rajadas de metralhadoras e morteiros disparados por rapazes ainda mais jovens que ele, muitos dos quais não terão a oportunidade de viver um namoro ou noivado.

Essa guerra um dia acabará. Os tiranos que a promovem em breve sucumbirão e a suja memória de seus nomes estará eternamente associada à de seus crimes, como, aliás, também acontecerá por aqui e alhures, onde há outras guerras, bombardeios, massacres e chacinas, inspiradas pelo racismo, pela xenofobia, pela intolerância religiosa ou por ganância de riqueza e poder.

Todavia, o rastro de destruição e morte irá perdurar por décadas, assim como a semente do mal.

Reconstruir escolas, igrejas, pontes e sistemas de abastecimento de água demanda tempo e dinheiro. Recuperar lavouras e rebanhos, desinfectar nascentes e repovoar a fauna e a flora, igualmente.

Mas é muito mais difícil e doloroso reconstruir famílias partidas, esfaceladas, dizimadas pela estupidez e crueldade da violência absurda que as guerras trazem. Há feridas de quase impossível cicatrização.

A pior herança das guerras é o multiplicar de ódios e ressentimentos nas vítimas de todos os lados e que se perpetuarão por gerações. A guerra, além de tudo, envenena os sonhos que o amor dos jovens criou. Mia Couto, o grande escritor moçambicano, uma vez disse: “a guerra é uma espécie de serpente que matamos sem pisar a cabeça. Um pequeno descuido e eis que ela ressurge no escondido do capinzal”.

Masha e Ruslan conseguirão sobreviver e se reencontrar?

Não sei. Torço por eles e por seu amor.

 Luiz Henrique Lima é professor e Auditor Substituto de Conselheiro do TCE-MT.

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