Os jogos da internet iniciaram com desafios para mostrar a zoação de galeras em momento de descontração - Harlem Shake e Mannequin Challenge, por exemplo. Mas, a brincadeira perdeu a graça recentemente e começou a mostrar os riscos do acesso irrestrito à internet e os distúrbios que o excesso causa.
Desafios de consumo máximo de bebida alcoólica e codimentos com alto risco de intoxicação, uso errado de aerosol e sufocamentos se alastram entre internautas e as consequências são físicas e psicológicas. Além disso, existe a possibildade de o problema estar bem mais profundo.
Atualmente, ao menos 20 tipos de disputa circulam em redes sociais com desafio aos participantes de se expor a situações ao limite da resistência corporal. Eles vão de consumo de canela em pó em grande quantidade a pré-estrangulamento, passando por inalação de perfume em aerosol. A pediatra Alda Elizabeth Iglesias Azevedo, professora da UFMT e chefe do departamento de adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, diz que os efeitos menos agressivos destes desafios são semelhantes aos de um AVC e a lesões por isquimia – diminuição da circulação de sangue em parte do corpo por obstrução de artérias.
“Quando não há morte, há sequelas graves para as pessoas que se propõem a isso. É o caso do desafio de estrangulamento, que pode deixar o desafiante em estado de semiconsciência. A falta de oxigenação no cérebro pode provocar sequelas comparadas ao AVC em idosos”, explica ao
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O desafio neste tipo de jogo é levar a pessoa ao estágio de perda quase completa dos sentidos. O desafiante é sufocado por outra pessoa, geralmente o desafiador, em chave de braço até chegar a situação erroneamente considerada reversível. Também se faz autossufocamento com amarra em volta do pescoço de cordas ou coisa semelhante.
Numa variação deste jogo, o desafiante se oferece a um soco no estômago para perder o fôlego, e terá status de vencedor se conseguir não desmaiar. “Dependendo da força que o soco é dado, pode danificar o baço, o fígado que são órgãos mais maciços e mais exposto a danos em situação de pancada, como em um acidente de carro”, diz a pediatra.
O perigo dos jogos chamou a atenção no Brasil com a morte de uma menina de 7 anos em 3 de fevereiro em São Bernardo do Campo (SP). Para cumprir um desafio da internet, ela inalou desodorante aerosol. Houve desmaio e, em seguida, parada cardíaca. O objetivo era aguentar a inalação o máximo de tempo possível.
Alda Elizabeth ressalta já ter tratado em Cuiabá um garoto de 14 anos que teve infecção secundária em uma panturrilha. Também para cumprir o desafio do aerosol, o adolescente queimou a carne até próximo ao tecido ósseo com aplicação da substância pelo tempo máximo de sua resistência.
“Achamos que fosse alguma infecção de furúnculo, mas durante o tratamento garoto contou que tinha aceitado fazer o desafio da internet com uso do aerosol”.
Filhos da Baleia Azul
A médica diz que os casos de automutilação são cada dia mais frequentes em consultórios. São cortes de espessuras variadas sempre cometidos por pesssoas que entraram em desafio de alcançar gradualmente a morte.
“Os casos de cutting (cortar, mutilar, em inglês) são cada vez mais frequentes. Eu diria que são até mais comuns que outros tipos de desafios. E estão expostos ao perigo tanto criança quanto adolescente. Eles se cortam em jogo e estão acompanhados por alguém que também está no jogo ou está filmando o desafio”.
Alda explica que na grande maioria a busca pelo suicídio é explícita e faz parte do jogo. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), 10% de crianças e adolescentes no Brasil, entre 9 e 17 anos, procuram na internet modos para se machucar (automutilação), 8% procuram maneiras de experimentar drogas e 7%, por maneiras de sucídio.
Os dados são de pesquisa do Comitê Gestor de Internet (CGI) e o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação (Cetic.br) colhidos em entrevista de 3.068 famílias em 350 municípios. A pesquisa aponta que existe no Brasil um universo de 29,7 milhões de jovens na faixa etária considerada: 80% são usuárias da internet; 66% acessam ao menos uma vez ao dia à rede; 97% estão nas classes sociais A e B, 85% na classe C e 51% nas classes D e E.
Os jogos de automutilação começaram a ter repercussão no país no começo de 2017, quando o Baleia Azul se espalhou rapidamente por redes sociais. O jogo coordenado por um curador é feito em 50 desafios diários que vão de simples desenhar uma baleia em folha de papel até furar os lábios e a palma mão, por várias vezes, chegando ao suicídio no desafio final.
Internet e modernidade
A psicóloga Daniela Freire, professora da UFMT e coordenadora do grupo de Pesquisa de Psicologia Infantil, diz que os desafios da internet se fundamentam na disposição humana para autoafirmação e reconhecimento social. Um estímulo sensível na fase de desenvolvimento da personalidade.
“Os casos de desafio da internet são motivados pela mesma necessidade que os adolescentes de antes da internet tinham. Quando falavam mal da mãe de um para outro e ou excitavam para a briga. É necessidade de autoafirmação do eu e da aceitação social”, explica.
O paralelo, no entanto, acaba por aqui. A psicóloga afirma que antes da internet o que se poderia chamar de desafio era limitado a grupos e só alcançavam amplitude com passar de meses e, não raramente ano. Nos dias de hoje, o conteúdo de rede virtual sem barreiras flui à situação de descontrole de seus efeitos.
“Se algo acontece em qualquer lugar, isso chega rapidamente do outro lado da distância. Não existe controle do que circula pelas redes sociais, pela internet em geral. O pior que pessoas em idade cada vez mais tenra são expostas ao conteúdo da rede pouca restrição. O que vemos hoje, no caso dos desafios, é um descontrole do que é acessado”, comenta.
O efeito mais drástico é visto pela psicológa no ambiente fora do mundo virtual. Ela diz que a fragmentação social e a desestruturação da família são questões centrais para o desequilíbrio dos indivíduos. “Algo muito forte que se percebe nestes jovens dos desafios é perda da realidade, é se propor a algo sem saber o realmente é, sem saber seus efeitos. Isso aponta para desestruturação da sociedade, da família. Eles procuram modos de cortar a carne para aliviar a dor da alma”.
O problema passa pela incapacidade de autorreflexão do indivíduo sobre o meio em que vive e ele é arrastado por ondas de “realização” sem fundamento. “A consciência não surge naturalmente no indivíduo, é preciso ser estimulada. Senão ninguém que possa ajudá-lo nesse caminho – de se enxergar, enxergar o outro e ver o mundo – a aposta de saber qual bola no bilhar vai estatar as outras é mais perigosa”, conclui.
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