Gilberto Leite
Aos 64 anos, Dona Domingas segue à frente do grupo Flor Ribeirinha - que difunde cultura cuiabana
Idealizado há 40 anos, mas gestado durante todos os 64 anos de sua mãe, dona Domingas Leonor, o grupo Flor Ribeirinha completou 23 primaveras em 15 de setembro.
Instituição maior da preservação da cultura tradicional cuiabana, a coroação como ato de resistência se traduz em viagem para a Coréia do Sul para apresentação nesta semana e uma série de atividades de intercâmbio cultural com outras dezenas de países participantes, de quase todos os continentes.
E mais: também haverá quinta (29), na Argentina.
Isso obrigou o grupo a se dividir em dois para poder dar conta de todos os compromissos internacionais.
Os dançarinos e músicos vão apresentar seu espetáculo Nandaia no Cheonan Festival e Conferência Internacional do Folclore, em Seul, a Capital da Coréia do Sul fundada no ano 18 a.C.
Para muito além do colorido das saias de chita rodadas e batidas da viola de cocho e ganzá, o que sobrevive ali é o senso comunitário da artesã e dançarina Domingas Leonor, que viu no saber tradicional um meio de não ver perder-se com o rio de sua infância todos os outros significantes da existência de seus avós e pais (indígenas e negros) e o desejo de vê-los perpetuarem-se em seus filhos, sobrinhos, netos, amigos e toda a comunidade de São Gonçalo Beira Rio.
"Não tínhamos energia
elétrica nem água encanada,
estradas eram um buraco só.
A cultura estava morrendo"
Mesmo local onde sentiu pela primeira vez, ainda nos anos 1960, a necessidade de fazer algo para preservar seu modo de vida, suas peças de cerâmica, culinária, roupas, sotaque e, claro, a dança e a música que sempre ouviu, do berço ao ninar da mãe até as incontáveis festas de São Gonçalo padroeiro e outros santos.
É o resultado de um trabalho de vários anos, mas mais especificamente é fruto da viagem que eles fizeram à Itália em 2015, quando receberam convites para estar na Turquia e na Polônia.
“Mas não pudemos aceitar porque naquele momento estávamos em transição para todo o processo de adaptação dentro de nosso quintal e o começo do projeto social Sementinha Ribeirinha, que hoje atende mais de 70 crianças de diversas comunidades de Cuiabá”, explica o diretor-executivo Jeferson Guimarães, neto de dona Domingas, assim como o coreógrafo do grupo, Avner Augusto.
Sobre a luta para tentar manter vivas hoje imagens e um viver antigos como o rio no qual nasceu e foi banhada, dona Domingas resume tudo em três palavras. “Amor, sacrifício e fé. Nunca foi fácil e não havia outro jeito de fazer”.
Com os peixes, “fartos, você podia escolher qual comer, qual vender”, e o barro, matéria-prima da cerâmica, se foram também os meios de subsistência, no lugar, ficou a ausência do poder público e perspectivas de futuro, pois o objetivo de todos os nascidos ali, durante vários anos, era ir embora.
Galeria: Flor Ribeirinha
A comunicação também era difícil. “Não tínhamos energia elétrica nem água encanada, as estradas eram um buraco só. A cultura estava morrendo, ninguém mais queria ouvir falar em siriri; era preconceito que alguns dos mais antigos tinham mesmo”, lembra a mulher que milita na cultura há 46 anos e enfrentava, naqueles primeiros tempos, o isolamento físico, mas também ideológico - os jovens não queriam manter as tradições, os mais velhos não viam perspectivas de futuro.
“Mas graças a Deus e a São Gonçalo nós conseguimos reestruturar tudo a partir do Flor Ribeirinha”, conta dona Domingas, lembrando que tudo começou ainda vinte anos antes, quando ela e alguns parentes mais velhos fundaram o grupo Nova Esperança de siriri.
Naquele começo, sem muita ideia de como aquilo poderia ajudar na chegada de coisas básicas para sua comunidade. Era feito pela dança mesmo.
Depois de quase duas décadas de luta pura e simples, finalmente as coisas começaram a mudar, pois após diversas viagens pelo Brasil, foram iniciadas as viagens internacionais.
Hoje, o intercâmbio com outros países e culturas é total. Uma das provas é a presença da dançarina Mariana Freitas, 24 anos, integrante do grupo Oré Anacã, de Fortaleza, que vai se apresentar junto com o grupo de 78 cuiabanos – entre dançarinos, músicos e pessoal de apoio e produção – em diversos compromissos até o fim do ano. “Nós pesquisamos Siriri com o Flor Ribeirinha e ensinamos boi-bumbá”, conta Mariana, sorridente, sobre uma história iniciada em 2013, num festival universitário de dança em Ouro Preto, Minas Gerais.
Isso tudo após eles voltarem de apresentações ocorridas durante a Paralimpíada do Rio de Janeiro, terminada há poucos dias. Só o início de um tempo mais ameno na vida da guerreira (ela é filha de coxiponé) da cultura cuiabana saída do rio coxipó há 64 anos.







Claudiomario 25/09/2016
É maravilhoso ver esta senhora D. Domingas, levando a nossa cultura do siriri, orgulho impar, exemplo prático para os que acreditam e continuam criando, mostrando, ensinando as nossas crianças esta nossa pitoresca cultura do siriri!!
1 comentários