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Sexta-Feira, 07 de Outubro de 2016, 08h:30 | Atualizado: 08/09/2017, 08h:44

História de vida

De Mata Cavalo, descendente de escravos tem 111 anos e muito vigor

Antônio Mulato fala sobre a luta pela liberdade, conta o que viveu e quer chegar aos 112 anos

Gilberto Leite

 Antonio_matacavalo

Aos 111 anos, Antonio Mulato mostra que está em boa forma, faz flexões para se manter ativo

Há 111 anos e quatro meses, vinha à luz do mundo Antônio Benedito da Conceição, o seu Antônio Mulato.  Era 12 de junho de 1905, meros 17 anos após a abolição da escravidão no último país da Terra a admitir seres humanos como propriedade de outros seres humanos.

Ele é uma das cinco pessoas mais velhas do mundo e o único do sexo masculino. Em comparação, a mais antiga pessoa viva, a italiana Emma Morano-Martinuzzi, tem apenas seis primaveras mais que ele (nasceu em 1899).

Espécie de memória viva desses tempos horrendos, seu Antônio Mulato ainda exibe certo vigor, consegue fazer quatro flexões, bate os pés e dança, ainda que com certa dificuldade.

Mas sua disposição melhora, e muito, quando vê uma de suas maiores paixões: as mulheres. Aí ele levanta, se exibe todo, torna-se inteiro sorrisos.

 Afeito ao churrasco, mandioca “ferventada”, arroz de leite e rapadura, come ainda hoje alimentos preparados muitas vezes em banha de porco. Toma guaraná ralado três vezes por dia, quando acorda, logo depois do almoço e ao final da tarde.

Nasceu e viveu cada dia desse século e década na comunidade quilombola de Mata Cavalo, localizada a cerca de 18 quilômetros depois de Nossa Senhora do Livramento ( 49 Km de Cuiabá), e é talvez a última das pessoas vivas a presenciar os relatos orais sobre o início da abolição oficial. Diz ter ouvido de vários parentes e conhecidos como eram os anos sob trabalho forçado, humilhações, chicote nas costas, aprisionamento e negação da racionalidade.

“Meu pai já nasceu de ventre livre, mas o pai dele não. E também tinha alguns tios e tias nascidos escravos”, conta, com lucidez surpreendente. De acordo com ele, a festa realizada quando a comunidade soube da Lei da Abolição, assinada pela princesa Isabel, era constantemente lembrada durante toda sua infância.

"Meu pai já nasceu de
ventre livre, mas o pai
dele não. E também tinha
alguns tios e tias nascidos
escravos" - Antônio Mulato

Como é de se esperar de alguém que enfrenta e supera por tanto tempo as intempéries da vida, seu Antônio não tem mais amigos, parentes ou conhecidos, nem mesmo da época de sua juventude e fase adulta, ainda vivos. “Todos se foram”, lembra. Como se lembra vivamente de cada uma das perdas, precisa datas, nomeia um a um seus 18 filhos – oito mortos e dez vivos – e, com ajuda de uma das filhas de suas filhas, lembra que já tem 30 netos e um número incontável de bisnetos, além de alguns trinetos.

Nesse mar de reminiscências, o falecimento da primeira esposa, “em 05 de dezembro de 1944”, ocupa lugar maior, porque foi tragédia dupla. Ele perdeu também um filho na mesma ocasião.  “Lembro bem como foi. Ela saiu para pegar melancia (estava com desejo, porque estava grávida) na roça, mas escorregou, caiu e bateu a barriga. Já estava de oito meses”.  Para seu Antônio, a criança morrera naquele dia.

Assim como em diversos outros momentos durante a entrevista, ele acaba por perceber e realçar aquelas tramas invisíveis nas quais se enroscam, comprimem e prendem todos os caminhos e fios nos quais a existência humana se dá. Pequenos elos que nos puxam e soltam, enredam e entrelaçam situações, separando e unindo a um só tempo o sobrenatural e invisível com o concreto e real de todos os dias, como queriam os gregos, Kafka, Melville, Machado de Assis e tantos outros, nas pequenezas invisíveis de que nunca nos damos conta, um evidenciar de atos prontos a anunciar às vezes tragédia, às vezes alegria.

No caso, tratava-se da primeira sensação. “Ela sempre me dizia que tinha medo de morrer de parto, que ela sabia que isso ia acontecer, porque sonhava com isso. Lembro como se fosse ontem que, depois de cair, ela disse que estava tudo bem, mas eu sabia que não estava. Uma semana depois de aguentar muita dor, ela finalmente aceitou que eu chamasse a parteira. Hoje eu sei que ela viu na hora o que tinha acontecido, mas preferiu esconder de mim, dizendo que estava tudo bem e que a criança só ia nascer antes da hora”, expõe.

Gilberto Leite

 Antonio_matacavalo

Antonio Mulato diz que gosta de comer churrasco, mandioca “ferventada”, arroz de leite e rapadura

Ansioso do lado de fora do quarto da casinha construída com esmero, na mesma porção de terra onde vive até hoje, tentava em vão encontrar pela janela algum alento. Sentiu, entrementes, em seu ombro o toque gelado da parteira que acabara de lavar as mãos a dizer-lhe, com os olhos a transbordar uma tristeza funda, “ela está bem, mas a criança nasceu morta. Seja forte”.

A sentença foi absorvida na hora e em seu pior. Ele entendeu o que viria. “A abracei minha mulher e ela tentava não mostrar a dor que sentia. Fiquei tentando animá-la e ela sorria. Mas logo que levantei pra pegar água pra ela, não demorei nem três minutos, já encontrei ela deitada numa poça de sangue que escorria desde a cama e tomava conta do quarto, depois de ensopar lençol, colchão, tudo, tudo”. Era o último ato da vida de dona Clarice Conceição. Expirava em sua nona gravidez, a terceira de um filho morto ao nascer.

Era também o terceiro período de grande perplexidade nos cerca de 40.515 dias já enfrentados por seu Mulato. Os outros dois foram classificados por ele em 1911, quando viu a reação da mãe ao pegar nos braços seu irmão pela primeira vez, nascido com vitiligo, e no ano de 1923, quando perdeu a primeira irmã. “Lembro que minha mãe demonstrava no rosto que estava sofrendo muito”, emociona-se.

Mas como tudo há de sempre ser, seu Antônio se recompõe. Precisa só da breve ajuda de outra das netas, a trazer na mão um copo de água providencial, um breve olhar pela porta aberta da sala onde é entrevistado e ele conta em detalhes como conheceu a segunda esposa, em sua companhia até hoje, “desde 1955”, dona Xandinha, 74 anos. A reportagem prefere deixar à livre imaginação do leitor como se deu o início de uma relação de 61 anos em todos seus clichês de paixão, encantamento e glória.

Galeria: Memórias de um homem de 111 anos

Escola

Preferimos falar de como aquele pequeno homem, mede pouco mais de 1,65m de altura, é capaz de abarcar um espírito indócil, gigantesco, como o dele e ainda se lembrar, com orgulho e alegria, da trajetória de sua perda mais recente - a filha Tereza Conceição Arruda, em 2011, poucos meses antes de finalmente ver realizada a obra por ela buscada durante todo seu período por aqui - a escola estadual que hoje leva, enfim, seu nome.

“Tenho orgulho de saber que todas as crianças da comunidade daqui em diante vão saber ler e escrever, mesmo que eu nunca tenha aprendido. É o nome da minha filha escrito ali, sabia?”, pergunta, mostrando pela janela a direção da fachada.

Fala sobre como ela, professora, sempre dizia que as crianças mereciam uma estrutura escolar melhor que a oferecida até então e de como demorou para chegar até aquele prédio “bonito, colorido, bem arrumado” e como faltou pouco para ela ver tudo pronto.

Dona Tereza partiu em 3 de março de 2011, meses antes da escola ser finalmente entregue e aberta à comunidade, em 2012. “Mas estou feliz porque graças a Deus conseguimos. Quero que haja muitos outros advogados e professores, como conseguiram ser alguns dos meus filhos”.

Gilberto Leite

 Escola Tereza Conceição

Fachada da Escola Tereza Conceição. Unidade leva o nome da professora e filha de Antonio Mulato

Uma das líderes do lugar, dona Tereza, como todos os outros moradores da área, enfrentou por diversas vezes as ameaças de fazendeiros, sempre aptos a expulsar quilombolas desde o início do século 20, num movimento nunca interrompido e que perdura até hoje: a área de Mata Cavalo é matéria de litígios em várias ações e esferas do judiciário tanto da parte dos brancos, donos de grandes áreas rurais, quanto dos quilombolas.

O tamanho da disputa tem imprecisão e descaminhos humanos, mas acuidade matemática e geográfica – são os 11.723 hectares pelos quais se espalham pelo menos seis comunidades, divididas ideológica e materialmente em Mata Cavalo de Baixo e Mata Cavalo de Cima.

De acordo com os livros de registros de 1883, há um documento lavrado em cartório oficializando a escrituração das terras em doação para escravos alforriados e cativos pela antiga proprietária dali, Ana da Silva Tavares, ainda com o nome de Sesmaria Boa-Vida. A escravidão oficialmente só terminou cinco anos depois. Obviamente, outros brancos não estavam muito a fim de considerar a legalidade do documento após a morte de dona Ana Tavares.

Sobre o anúncio da abolição, pouco mais de duas décadas antes de seu Antônio Mulato nascer, despertar para o mundo e começar a entender as coisas, lá pelos idos de 1913, ele conta que demorou muito para essa informação chegar até sua comunidade, devido às dificuldades de comunicação e transporte da época.

Os mais velhos sempre contavam como fora aquele dia, celebrado durante semanas. Cada um tinha uma história diferente, e ele ouvia todas com atenção. “Isso era assunto constante aqui, assim como os espancamentos, ameaças e as casas queimadas dos mais antigos, por fazendeiros que queriam expulsar a gente das terras desde quando eu lembro”, rememora.

"Passou rápido,
graças a Deus"

Enfim, questionado sobre a duração da vida, descontados todos dissabores, adicionadas as alegrias e bons momentos na equação desses 111 anos, seu Antônio Mulato responde com convicção, fitando firme nos olhos: “Passou rápido. Graças a Deus”.

Mas é uma conversa que termina em alegria, com um convite que mais parece uma convocação para tomar uma dose (servida no copo adequado para isso, aliás, daqueles velhos de boteco, com marca ao redor e tudo) de vinho, cachaça ou garrafada, “o que o senhor preferir”, e um chamado a participar da festa de aniversário de 112 anos. 

“Se eu chegar lá, claro. Se Deus me ajudar e o senhor quiser, bebemos um pouco mais, comemos churrasco e mandioca ferventada, não sei se alguém ainda sabe fazer um bom arroz de leite... Se cair na segunda, terça ou quarta, a festa é domingo; se cair na sexta, também é domingo. Só não é domingo quando cai num sábado. Ficaria muito feliz se o senhor viesse”.

Se Deus quiser, seu Antônio Mulato. Se Deus quiser.

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Comentários (12)

  • Lucinda Persona | Terça-Feira, 11 de Outubro de 2016, 17h13
    4
    0

    Meus cumprimentos ao jornalista e ao RDNews por essa rica matéria, de interesse histórico, social e cultural, destacando Antonio Mulato, um cidadão de vida longeva (que maravilha 111 anos) repleta de histórias. Realmente, um olhar valioso para o contexto, para o ser humano e sua trajetória.

  • dauzanades | Sábado, 08 de Outubro de 2016, 10h14
    1
    0

    Parabéns. Um belo exemplo a ser seguido por culturas. Nesta escola existem muitos professores capacitados, que fazem o possível e o impossível para que os alunos sejam ensinados em matemática, português, física, biologia e outras matérias. É uma escola modelo de área rural. Mas que ainda é carente em interatividade online devido ao desleixo do governo do estado, que nem internet estava funcionando para que os professores que moram na comunidade possam dar baixa em seus diários e outros na Seduc. Mas enfim, este senhor é um grande líder, só espero que seus descendentes não transformem em grupos políticos ambiciosos e destruam tudo e toda a cultura local a troco de poder e fama. Porque a prefeitura de livramento e alguns grupos do estado ligado a terras, há anos tentam evitar as posses definitivas nestas terras onde as águas são vermelhas de sangue já derramado, e onde já existem muitas invasões de não quilombolas, pessoas de posse que estão lá, e até poderosos com terras cheias de buracos de garimpos, onde estão trancando passagens e os poderes que deveriam tomar providencias, estão calados, cegos, frouxos acatando ordens destes. Isto, as mídias não divulgam, e são dezenas de casos, basta dar uma volta lá em Livramento para ver e ouvir centenas de relatos e constatar a conivência da prefeitura e do estado com estes crimes.

  • Pandora | Sábado, 08 de Outubro de 2016, 08h39
    0
    0

    O registro ficou bom. Parabéns pela iniciativa. Apenas uma correcao: poderiam mudar o título da matéria? Explico: ele não é descendente de escravos, nunca foi. Ele é sim descendente de pessoas que foram traficadas para cá e escravizadas. Ele é descendente de pessoas e nao de escravos. Obrigada.

  • Soraya Guimarães | Sábado, 08 de Outubro de 2016, 07h26
    1
    0

    Parabéns seu Antônio pelo exemplo de vida felicidades q Deus o abençoe sempre...

  • PARAGUAY | Sexta-Feira, 07 de Outubro de 2016, 16h53
    4
    0

    Parabéns RDNEWS. uma matéria em tanto.

  • WILMAR | Sexta-Feira, 07 de Outubro de 2016, 16h29
    1
    0

    ELE É DESCENDENTE DE SERES HUMANOS ESCRAVIZADOS E NÃO DESCENDENTES DE ESCRAVOS.

  • elizeu xumxum | Sexta-Feira, 07 de Outubro de 2016, 15h42
    1
    0

    nao e descendende de escravo descendende de pessoas que foram escravizados no brasil pq ninguem nasce escravo temos que descolonizar ate as informaçao fica a dica

  • Abner | Sexta-Feira, 07 de Outubro de 2016, 14h25
    7
    0

    Parabéns ao seu Antônio e também ao jornalista pela bela reportagem.

  • pantaneiro | Sexta-Feira, 07 de Outubro de 2016, 13h05
    6
    0

    Parabéns seu Antonio Mulato. Você merece Respeito e Admiração!!!!

  • pantaneiro | Sexta-Feira, 07 de Outubro de 2016, 13h03
    6
    0

    Parabéns seu Antonio Mulato. Você merece Respeito e Admiração!!!!

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