Cuiabá, 30/10/2026

A Copa acaba. O “nós contra eles”, não

 Christiany Fonseca

A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador.

Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. Um gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não exige filiação partidária, e o canto da torcida dispensa qualquer declaração ideológica.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas, apenas estabelece um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que ela própria insiste em separar.

Em menos de uma década, o país viveu impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição marcada por uma facada, contestação do resultado das urnas e uma tentativa de golpe de Estado, entre outros episódios. Não é pouca coisa. Passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do "nós contra eles" e marcado por anos de rupturas políticas. Em menos de uma década, o país viveu impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição marcada por uma facada, contestação do resultado das urnas e uma tentativa de golpe de Estado, entre outros episódios. Não é pouca coisa. Passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira chega a 2026 não apenas dividida, mas com um número crescente de pessoas convencidas de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados discordam. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí, convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotar, calar ou expulsar o adversário do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. No futebol, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não representa a certidão de óbito do país.

Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do adversário será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do outro lado. Em vez de escolher quem considera mais preparado para governar, parte do eleitorado vota pensando em quem precisa ser impedido de chegar ao poder. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança perde espaço para o pânico.

Na democracia deveria valer a mesma lógica. Mas a polarização produziu uma distorção curiosa: pretende preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível — a existência de quem pensa diferente

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não existe jogo, campeonato ou campeão.

Na democracia deveria valer a mesma lógica. Mas a polarização produziu uma distorção curiosa: pretende preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível — a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto passou a ser tratado como julgamento moral e a divergência se transformou em defeito de caráter. Quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a decidir quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no ambiente de trabalho, nas reuniões de família e em todos os espaços onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de disputar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, sempre há quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay pudesse mudar um resultado já homologado apenas porque o placar não saiu como a torcida esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. E é assim que o "nós contra eles" continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFScar