Cuiabá, 05/11/2026

O valor do café precisa chegar a quem produz

Andreia Fujioka

Quem cuida de uma lavoura sabe quanto trabalho existe até a colheita. Quando esse esforço recebe um prêmio, a alegria envolve toda a família. Foi esse sentimento que marcou o primeiro Concurso de Qualidade do Café de Mato Grosso. E é dessa conquista que nasce nosso próximo compromisso: ajudar os produtores a transformar o reconhecimento em mais renda e oportunidades.

Os indígenas Miguel, Rafael Suruí e Naraykoalab Suruí, de Rondolândia, conquistaram, nessa ordem, os três primeiros lugares na categoria Café Fermentado. Miguel e Rafael também ficaram em primeiro e segundo na Excelência Suprema, que reconheceu os melhores cafés do concurso. Cinco premiações que dão visibilidade ao trabalho dessas famílias e à qualidade do que produzem.

Essa conquista tem um significado especial quando olhamos para o lugar de onde vêm esses cafés. Rondolândia fica no Noroeste de Mato Grosso, na divisa com Rondônia, e abriga parte da Terra Indígena Sete de Setembro. O território do povo Paiter Suruí se estende pelos dois estados. O café produzido ali carrega também a história e a identidade dessas comunidades.

Aripuanã, Colniza e Juara também tiveram produtores premiados e reforçaram a presença do Noroeste no concurso. Paranaíta e Alta Floresta representaram a região Norte. São lugares diferentes, com famílias que encontraram no café uma possibilidade de melhorar de vida.

O território do povo Paiter Suruí se estende pelos dois estados (MT e RO). O café produzido ali carrega também a história e a identidade dessas comunidades

O concurso, promovido pelo Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Agricultura Familiar, em parceria com o Sebrae e apoio da Empaer e das prefeituras, ajudou a apresentar essa produção a mais pessoas. A premiação em Juína reuniu conhecimento, troca de experiências e oportunidades de negócio.

Mas o trabalho precisa continuar depois da festa. O reconhecimento faz ainda mais sentido quando ajuda o produtor a vender melhor, organizar suas contas e planejar a próxima safra. É esse resultado que buscamos ao apoiar a cafeicultura.

Para chegar até ele, precisamos começar pelas perguntas que fazem parte da vida de quem produz. Há água suficiente na propriedade? O solo é adequado? Quanto a família terá de investir? Como vai se manter até o café começar a dar retorno? E quem poderá comprar sua produção?

Imagine uma família que já trabalha com leite ou mandioca e quer plantar café para complementar a renda. Antes de comprar as mudas, ela precisa de orientação para saber se essa escolha cabe na sua área, no seu orçamento e na sua rotina. Incentivar também é ajudar a planejar e reduzir os riscos.

Por isso, pesquisa, assistência técnica e investimento precisam caminhar juntos. A pesquisa da Empaer ajuda a identificar quais plantas produzem melhor nas condições de cada região. Os extensionistas levam esse conhecimento às propriedades e acompanham os agricultores. O Governo do Estado apoia esse trabalho com políticas de acesso a mudas, equipamentos, insumos e crédito.

Faço questão de reconhecer nossos extensionistas. São eles que estão perto dos produtores, escutam suas dúvidas e ajudam a encontrar soluções. Uma orientação sobre a colheita ou a secagem pode fazer diferença no sabor do café e no preço que a família recebe. Esse cuidado, repetido ao longo do tempo, ajuda a construir os resultados que vimos no concurso.

As prefeituras também têm um papel importante. Em Juara, Cícero Leandro da Silva venceu a categoria Café Natural por Clone já na primeira colheita. Ao celebrar o resultado, a gestão municipal destacou o acompanhamento aos produtores e defendeu mais incentivo à cultura.

Juína valorizou a retomada de uma atividade que faz parte da sua história. Colniza, onde o concurso foi lançado, incentivou mais agricultores a participar das próximas edições. Essa união entre municípios, Estado e instituições parceiras ajuda a fazer o apoio chegar às propriedades.

Outro caminho é fortalecer associações e cooperativas. Nem toda família consegue comprar sozinha uma máquina ou reunir a quantidade de café que um comprador procura. Quando os produtores se organizam, podem compartilhar equipamentos, negociar juntos e alcançar mercados maiores.

Nas comunidades indígenas, esse apoio deve respeitar as decisões, a cultura e as formas de organização de cada povo. Os resultados de Rondolândia mostram a capacidade dos cafeicultores Paiter Suruí. Nosso compromisso é ampliar suas oportunidades e apoiar os caminhos que desejam construir.

Também precisamos ter responsabilidade ao incentivar novos plantios. Uma variedade que vai bem em uma região precisa ser avaliada antes de ser indicada para outra. A pesquisa ajuda a fazer essa escolha com mais segurança, levando em conta o solo, a água e o clima.

Como secretária, quero que o avanço do café apareça no dia a dia das famílias. Na tranquilidade de pagar as contas, na possibilidade de melhorar a propriedade e na vontade de um filho ou de uma filha de continuar o trabalho no campo porque enxerga futuro ali.

O concurso nos deu motivos para celebrar e mostrou a qualidade dos nossos cafés. Agora, cabe a nós ajudar a abrir as próximas portas. O prêmio valoriza o que foi produzido. A conquista se completa quando esse valor chega à vida de quem plantou, cuidou e colheu.

Andreia Fujioka é gestora governamental e secretária de Estado de Agricultura Familiar de Mato Grosso