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Kathiany Petraglia

Quando o luto adoece: reconhecer os sinais também é uma forma de cuidado

Kathiany Petraglia

Kathiany Petraglia psicóloga

Kathiany Petraglia

No Dia de Finados, a saudade ganha espaço no calendário. Para quem perdeu alguém, porém, ela está presente em situações que não dependem de uma data: a cadeira vazia, o telefone que deixou de tocar, a vontade de compartilhar uma notícia. Aprender a viver com essa ausência exige tempo e acolhimento. Em alguns casos, exige também tratamento.

O luto é uma resposta natural à perda. Sentir tristeza, chorar ou ter dificuldade para retomar a rotina nos primeiros tempos não significa, por si só, estar doente. Mas reconhecer essa experiência como parte da vida não pode servir de justificativa para ignorar um sofrimento que se torna persistente e incapacitante.

Precisamos ter cuidado com duas atitudes frequentes: cobrar que a pessoa “supere logo” e atribuir qualquer sinal de adoecimento ao fato de que “cada um tem seu tempo”. A primeira desrespeita a dor. A segunda pode atrasar a busca por ajuda.

Existe uma condição chamada transtorno do luto prolongado. Nela, a saudade intensa ou a preocupação constante com quem morreu vêm acompanhadas de sofrimento persistente e prejuízos importantes à vida. Pode haver dificuldade acentuada para aceitar a morte, sensação de ter perdido parte de si e de que a vida deixou de fazer sentido. O diagnóstico exige avaliação profissional e consideração do contexto cultural e religioso.

Respeitar o tempo do luto e reconhecer os sinais de adoecimento são responsabilidades que caminham juntas

Não se trata de medir o amor pela quantidade de lágrimas nem de estabelecer uma data para deixar de sentir falta. Lembrar de alguém e chorar anos depois de sua morte, especialmente em aniversários e datas simbólicas, não basta para caracterizar um transtorno. A atenção deve se voltar à intensidade, à persistência e aos efeitos desse sofrimento sobre a vida.

O tempo integra os critérios clínicos, mas não determina sozinho o diagnóstico. O DSM-5-TR, manual utilizado por profissionais de saúde mental, estabelece que, em adultos, a perda deve ter ocorrido há pelo menos 12 meses para esse diagnóstico, além de outros requisitos. Isso não significa que seja necessário esperar um ano para procurar atendimento.

A perda também pode coexistir com depressão, uma condição diferente do luto prolongado. A redução persistente do interesse por quase tudo, a desesperança e sentimentos intensos de inutilidade merecem avaliação. Estar enlutado não impede que alguém desenvolva depressão, e reconhecer essa possibilidade permite oferecer o cuidado adequado.

Por isso, a melhor hora para buscar ajuda não é quando já não se consegue suportar. A psicoterapia pode começar assim que a pessoa sentir necessidade de apoio. Quando o sofrimento compromete de forma importante o autocuidado, os vínculos e a capacidade de realizar atividades cotidianas, essa avaliação se torna ainda mais necessária. Pensamentos de se machucar ou de não querer mais viver exigem atendimento imediato em um serviço de saúde.

Na terapia, há espaço para falar da ausência, da raiva, das culpas e até dos sentimentos que parecem difíceis de admitir. O trabalho pode ajudar a compreender a perda, enfrentar situações que passaram a ser evitadas e retomar, gradualmente, vínculos e projetos. Nos casos de luto prolongado, existem abordagens específicas com evidências de benefício. O objetivo é favorecer a adaptação à vida sem a presença física de quem morreu, preservando o significado dessa relação.

Esse cuidado também envolve quem está por perto. Escutar sem cobrar melhora, oferecer ajuda concreta e acompanhar a busca por atendimento podem fazer diferença. Frases como “você precisa reagir” costumam impor mais uma obrigação a quem já enfrenta uma experiência difícil.

Neste Dia de Finados, lembrar de quem partiu deve também nos aproximar de quem ficou. Respeitar o tempo do luto e reconhecer os sinais de adoecimento são responsabilidades que caminham juntas. Ninguém deveria precisar chegar ao limite para ter sua dor levada a sério.

Kathiany Petraglia é Psicóloga e Neuropsicóloga em Cuiabá, terapeuta Cognitivo Comportamental, especialista em Psicopatologia e Reabilitação Neuropsicológica, doutoranda em Psicologia

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