As eleições costumam revelar muito mais do que preferências políticas. Elas também mostram como lidamos com opiniões diferentes, como defendemos nossas ideias e, principalmente, como reagimos quando alguém discorda de nós. Em tempos de debates acalorados e discussões que parecem não ter fim, uma situação chama a atenção: quanto maior a divergência, mais difícil parece ser o diálogo. Existe uma crença de que, para defender uma opinião, precisamos falar mais, argumentar mais e até aumentar o tom de voz. Mas falar mais alto não torna um argumento mais verdadeiro. Assim como interromper alguém não significa vencer uma discussão.
Basta observar uma conversa sobre política entre amigos, familiares ou colegas de trabalho. Uma opinião é apresentada, alguém discorda e, em poucos minutos, o que poderia ser uma troca de ideias se transforma em uma disputa para descobrir quem terá a última palavra. As pessoas deixam de ouvir para compreender e passam a ouvir apenas para preparar a próxima resposta. No final, ninguém muda de opinião, mas todos saem convencidos de que o outro não sabe conversar.
O problema é que confundimos discordância com confronto. Pensar diferente não deveria significar desrespeitar. É possível defender uma ideia com firmeza sem diminuir quem pensa de outra maneira. Da mesma forma, ouvir um argumento contrário não significa concordar com ele. Significa reconhecer que o diálogo exige algo além da disposição para falar: exige maturidade para escutar.
A força de um argumento deve estar na sua consistência, não no volume da voz de quem o apresenta
Stephen Covey, autor de Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, apresenta um ensinamento que continua especialmente atual: “Procure primeiro compreender, depois ser compreendido.” A reflexão nos convida a perceber que a comunicação não começa quando encontramos a melhor resposta, mas quando buscamos entender aquilo que o outro realmente está dizendo. Isso não exige abandonar nossas convicções. Exige apenas reconhecer que ninguém consegue construir um diálogo verdadeiro enquanto está preocupado exclusivamente em defender a própria posição.
Essa dificuldade não aparece apenas nas discussões políticas. Ela está presente nas reuniões de trabalho, nos relacionamentos e nas salas de aula. Como professora, observo que essa capacidade também faz diferença na formação acadêmica.
Durante uma apresentação de Trabalho de Conclusão de Curso, por exemplo, o estudante precisa defender suas ideias e responder aos questionamentos da banca. Mas defender uma pesquisa não significa rebater toda observação como se fosse um ataque. Muitas vezes, uma boa resposta começa justamente pela capacidade de ouvir a pergunta, compreender a crítica e reconhecer que diferentes perspectivas podem contribuir para o amadurecimento de uma ideia.
O mesmo acontece no ambiente profissional. Um líder que interrompe constantemente sua equipe pode até conseguir impor suas decisões, mas dificilmente construirá um espaço de confiança. Um profissional que responde a toda discordância com irritação pode conhecer profundamente o assunto, mas comprometer a credibilidade da própria mensagem. Afinal, nossa comunicação não revela apenas aquilo que sabemos. Ela também demonstra como lidamos com as pessoas quando somos contrariados.
Comunicar bem não significa evitar conflitos ou concordar com tudo. Existem situações em que precisamos discordar, estabelecer limites e defender posições com firmeza. O desafio está em fazer isso sem transformar cada diferença em uma disputa pessoal. Talvez uma das maiores demonstrações de segurança seja conseguir ouvir uma opinião contrária sem sentir a necessidade imediata de atacar ou convencer. A força de um argumento deve estar na sua consistência, não no volume da voz de quem o apresenta.
Em essência, uma boa comunicação não se mede pela quantidade de argumentos apresentados, pelo volume da voz ou pela capacidade de encerrar uma discussão. Mede-se também pela disposição de compreender, pela clareza ao defender ideias e pelo respeito demonstrado durante o diálogo.
Falar mais alto pode até fazer com que sejamos ouvidos. Mas não significa que seremos compreendidos. E muito menos que teremos razão.
Michelli Egues Dias é mestre em Direito, professora universitária, palestrante e mentora. Atua no desenvolvimento de competências de comunicação, oratória e apresentações. Instagram: @michelliegues
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