Em um país marcado pela polarização política, uma pergunta merece ser feita às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais: o brasileiro está escolhendo seu candidato pelas propostas que apresenta ou simplesmente para impedir a vitória do adversário?
A disputa entre direita e esquerda ultrapassou, em muitos momentos, o campo das ideias. Está presente nas reuniões familiares, nas amizades, nos ambientes de trabalho e, principalmente, nas redes sociais, onde opiniões diferentes frequentemente se transformam em confrontos pessoais.
A divergência política é legítima e necessária à democracia. O problema surge quando a paixão partidária substitui a reflexão e o eleitor deixa de analisar propostas, trajetórias e compromissos para decidir movido exclusivamente pela identificação ou rejeição a determinado grupo político.
Votar conscientemente não significa abandonar convicções ideológicas. Significa compreender que a escolha de um presidente envolve consequências que ultrapassam as disputas eleitorais.
O voto consciente exige informação, senso crítico e responsabilidade. É importante conhecer as propostas dos candidatos, avaliar sua viabilidade, examinar suas trajetórias públicas e compreender os limites constitucionais do cargo que pretendem ocupar.
Também é fundamental distinguir fatos de informações falsas ou distorcidas. Em tempos de redes sociais, compartilhar uma notícia sem verificar sua procedência pode contribuir para a desinformação e prejudicar a qualidade do debate público.
Direita e esquerda apresentam diferentes visões sobre o papel do Estado, a economia e as políticas públicas. Essas diferenças devem ser discutidas com seriedade, sem que a opção política de cada cidadão seja utilizada para desqualificá-lo pessoalmente.
A Constituição Federal estabelece que todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos constitucionais. O voto, portanto, não é apenas uma manifestação de preferência, mas um instrumento de participação nas decisões que influenciam o futuro do país.
É preciso lembrar que, encerrada a eleição, os desafios nacionais permanecem. Saúde, educação, segurança, economia e desenvolvimento continuarão exigindo decisões públicas, independentemente de quem vencer a disputa.
A experiência de quem já integrou a Justiça Eleitoral reforça a importância de preservar a liberdade de escolha e o respeito à vontade popular. Mas essa liberdade alcança seu maior significado quando acompanhada de informação e reflexão.
Neste domingo, mais importante do que votar contra alguém é compreender por que se está votando em alguém.
O eleitor não precisa abrir mão de suas convicções, mas deve lembrar que a democracia exige mais do que escolher um lado: exige responsabilidade com as consequências da própria escolha.
A eleição passa. As decisões de quem governa permanecem. E o voto consciente começa quando a reflexão fala mais alto que a polarização.
André Pozeti é advogado, especialista em Direito Eleitoral, ex-juiz membro do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT), na classe dos advogados, e membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-MT
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