Talvez nossa longa disputa pelo direito de dizer quem somos tenha começado em uma das cartas de Pero Vaz de Caminha. Nos relatos enviados a Portugal, ele descreve portugueses e indígenas tentando compreender uns aos outros por gestos e objetos.
Ao observar indígenas repetindo gestos dos portugueses durante a missa, Caminha concluiu que seriam conduzidos à fé cristã. Ao final da carta, apresentou a conversão dos povos originários como o principal fruto que daquela terra se poderia obter seria salvar aquela gente.
Salvar de quê? Os povos originários já transmitiam conhecimentos por línguas, grafismos, cantos, ritos e diferentes formas de expressão.
Uma história pode ser verdadeira e permanecer invisível. Outra, repetida suficientemente, pode adquirir aparência de consenso
Mais de cinco séculos depois, os instrumentos mudaram. As caravelas deram lugar às plataformas digitais; a pena, aos algoritmos. Hoje, não basta perguntar quem conta a história. É preciso perguntar quem decide quais histórias serão vistas e de que forma poderão ser interpretadas.
Entre as controvérsias recentes estão as denúncias envolvendo a Meta e as eleições brasileiras. Testes identificaram que sua inteligência artificial recusava solicitações para produzir imagens eleitorais de Lula, enquanto atendia pedidos semelhantes relacionados a Flávio Bolsonaro. A empresa negou favorecimento, atribuiu a diferença a problemas na configuração de filtros e anunciou restrições à geração de imagens de candidatos. O episódio chegou à Justiça Eleitoral.
Independentemente da conclusão das apurações, a controvérsia revela uma questão maior: empresas estrangeiras administram parte significativa da infraestrutura pela qual os brasileiros recebem informações e constroem percepções políticas.
Isso não significa que exista uma determinação comprovada de um governo estrangeiro sobre essas plataformas. Significa reconhecer que interesses econômicos, relações geopolíticas e decisões tecnológicas podem atravessar fronteiras e influenciar o ambiente informacional de um país.
A soberania, portanto, também se disputa no campo da comunicação.
Eleições recentes já demonstraram como conteúdos manipulados, vídeos sintéticos e informações falsas podem circular rapidamente pelas redes. A velocidade da desinformação nem sempre encontra correspondência na circulação das correções.
Quem trabalha com narrativas sabe que a percepção pública não é construída apenas pela qualidade de uma mensagem. Importam sua frequência, distribuição, credibilidade e capacidade de despertar identificação. Uma história pode ser verdadeira e permanecer invisível. Outra, repetida suficientemente, pode adquirir aparência de consenso.
Nesse cenário, algoritmos não são apenas ferramentas de distribuição. Participam da arquitetura da atenção coletiva. E uma percepção convincente não é necessariamente uma percepção verdadeira.
Se uma decisão técnica pode determinar quais mensagens serão produzidas, distribuídas ou restringidas, até que ponto a disputa pela opinião pública permanece sob controle daqueles que participam dela?
Somos latino-americanos, atravessados por heranças indígenas, africanas, europeias e diferentes experiências regionais. Entretanto, a diversidade que nos constitui nem sempre encontra representação proporcional nas narrativas que ocupam o debate público.
Em um país cuja experiência democrática recente ainda enfrenta desafios, será que realmente nos reconhecemos nas narrativas que mais consumimos?
O voto não nasce diante da urna. Antes dele, formamos percepções sobre pertencimento, interesses, ameaças e possibilidades. A comunicação não determina sozinha nossas escolhas, mas participa decisivamente da maneira como interpretamos o mundo.
É justamente por isso que a influência estrangeira não precisa assumir a forma explícita de uma intervenção. Pode manifestar-se na seleção de temas, na circulação desigual de conteúdos e na construção de referências que passam a orientar o debate público.
A nova colonização não precisa de caravelas porque disputar territórios já não é a única maneira de exercer influência. Disputam-se atenção, identificação e sentidos.
Cinco séculos depois, talvez a pergunta continue sendo a mesma: quem pretende nos salvar e quem ganha o poder de decidir do que precisamos ser salvos?
Mirella Duarte é jornalista e escritora
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