A primeira vez que ouvi essa frase, eu nem tinha idade para votar. Estava distribuindo panfletos contra a ditadura em uma estação de trem do subúrbio carioca. A mensagem era clara: aquela passageira não acreditava que o voto pudesse representar qualquer mudança positiva em sua vida; e não queria perder tempo analisando ou escolhendo candidatos.
Esta semana, ao ouvir a mesma expressão em um debate nas redes sociais, fui transportado de volta à adolescência sob o regime autoritário e refleti sobre a trajetória percorrida pelos brasileiros desde então.
Em 1985, quando, após 21 anos de arbítrio, assassinatos e torturas, derrotamos a ditadura militar, o Brasil apresentava os seguintes indicadores vergonhosos:
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30% a 35% da população vivendo em situação de pobreza extrema;
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mortalidade infantil de 70 por mil nascidos vivos;
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25% da população analfabeta;
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expectativa de vida ao nascer de 64,5 anos.
O seu voto pode ser a alavanca para construir o futuro ou a marreta para destruir o que levou décadas para ser edificado
Foram os governos democráticos, de variados partidos e matizes ideológicos, que transformaram essa realidade, a partir da Constituição de 1988 e mediante políticas públicas estruturantes.
Em 2025, dados de organismos oficiais brasileiros e internacionais[1] revelam um país profundamente diferente, para melhor:
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população em situação de pobreza extrema reduzida para 3,8%;
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mortalidade infantil reduzida para 12,6 por mil nascidos vivos;
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analfabetismo reduzido para 4,9%;
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expectativa de vida ao nascer aumentada para 76,8 anos (12,3 anos a mais).
Fui testemunha e agente desse processo de construção coletiva e pluralista, como cidadão e atuando em diferentes funções públicas e acadêmicas.
Por isso, contrariando o ditado, posso afirmar: o voto enche barriga, sim. A democracia retirou dezenas de milhões de pessoas da insegurança alimentar, universalizou o acesso à educação, protegeu a primeira infância e proporcionou mais vida — e uma vida melhor — aos brasileiros.
E a economia? Em 1985, a inflação anual era de 242,2%; em 2025, não passou de 4,3%. O salário mínimo, em valores atualizados, era de R$ 700,00; em 2025, chegou a R$ 1.518,00, mais do que o dobro. O PIB per capita subiu de US$ 6.500 para US$ 23.300. A eletrificação rural, que alcançava escassos 35% dos domicílios, atingiu 98,5%. Apesar desses avanços, ainda convivemos com desigualdades profundas e bolsões de pobreza.
No aspecto civilizatório, aumentou a participação feminina no mercado de trabalho e nas instâncias de poder, cresceu a inclusão de pessoas com deficiências e ampliou-se o acesso ao ensino superior, especialmente para setores historicamente discriminados como negros e indígenas. Os concursos públicos, antes raros, democratizaram o acesso às carreiras de Estado e elevaram a governança e a qualidade das políticas públicas. Na agenda ambiental, destacam-se as expressivas quedas nas taxas de desmatamento da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal registradas nos três últimos anos.
A democracia brasileira consolidou direitos, controlou a inflação, reduziu a exclusão, expandiu a cobertura vacinal e a escolaridade, amparou os mais vulneráveis e protegeu ecossistemas. Criou o Sistema Único de Saúde – SUS, o Bolsa Família, o Código de Defesa do Consumidor e os medicamentos genéricos, entre outras realizações. Tudo sem sacrificar a liberdade. Mas, atenção! Como nos lembra o célebre manifesto de 1848: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.
Todas essas conquistas foram fruto de muitas lutas e debates. Não foi um piquenique idílico em um parque de consensos e unanimidades. Houve confrontos, resistências, boicotes, traições, retrocessos e subornos pelo caminho. E ainda haverá, amanhã e sempre. A história não segue um trajeto linear, predeterminado como uma equação newtoniana. Assemelha-se mais, para o bem ou para o mal, aos sistemas caóticos, cuja descrição mais conhecida é a de que o bater de asas de uma borboleta em Pequim pode provocar um furacão do outro lado do mundo.
É por isso que o seu voto importa. Ele pode encher a barriga, mas escolhas erradas também podem esvaziá-la. Em um passado recente, um governo eleito pelo voto promoveu a estagnação do salário mínimo, permitiu o retorno do país ao Mapa da Fome, afrouxou o combate aos crimes ambientais e adotou uma postura negacionista e debochada durante a pandemia que ceifou mais de 700 mil vidas brasileiras.
O seu voto pode ser a alavanca para construir o futuro ou a marreta para destruir o que levou décadas para ser edificado. Pense bem antes de usá-lo.
Viva a democracia.
Luiz Henrique Lima é professor e escritor
[1] Fontes: IBGE, IPEA, INPE, DATASUS, FMI, Banco Mundial
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