Um país de altos e baixos
A ONU diz isso textualmente no relatório que mede o Progresso Humano, o IDH 2013. Diz que o Brasil, 85º lugar entre os países com melhor índice, elevou o seu padrão de vida porque expandiu as suas relações internacionais e implementou programas de combate à pobreza, que foram modelos para todo o mundo. Considerado um país relativamente rico, com economia destacada na América Latina e no mundo, resguardando, obviamente alguns incidentes de percurso, o Brasil vai se revelando um país que não pode mais ser apresentado apenas como o Rio de Janeiro, futebol, mulatas e favelas, mas um grande e respeitável mercado, com um moderno sistema de internet, que beneficia cerca de 80 milhões de cidadãos. Tem o segundo maior número de pessoas conectadas ao Facebook no mundo.
O governo brasileiro reservou R$ 2,4 bilhões para emprestar com juros baixos as empresas que investirem em projetos de energia renovável e inovação tecnológica. O percentual de fumantes na população brasileira acima de 18 anos caiu 20% nos últimos anos e a quantidade de brasileiros fumantes alcançou o menor índice de todos os tempos: apenas 12%. Receita de sucesso!
Porém, outras fontes pesquisam outros horizontes e eis que lá vamos nós ladeira abaixo. No ranking da Organização Transparência Internacional, que pesquisa a percepção da corrupção no setor público, o Brasil está colocado em 73º lugar entre os países mais corruptos do mundo. Segundo a ONU a corrupção desvia 200 bilhões de reais por ano no Brasil. Soma-se a isso, o fato de que as leis brasileiras são absurdamente incompreensíveis para os estrangeiros. O Banco Mundial alerta que nenhum outro país do mundo se gasta tanto tempo para estar legal com a documentação exigida para se operar; são longas e extenuantes horas para preparar documentos, calcular e recolher taxas no insano mundo da burocracia brasileira.
A violência assusta os investidores. O Brasil ocupa um lugar de destaque entre os países mais violentos do mundo; são 20,4 assassinatos para cada cem mil habitantes, o dobro do que a ONU considera tolerável (dez para cada cem mil habitantes). Esses números são preocupantes para um país que não tem enfrentamentos étnicos, religiosos, de fronteiras, raciais ou políticos.
A pobreza é uma injustiça que pode e deve ser erradicada por ações concretas, sem clientelismo, sem olho gordo no voto. As crianças e adolescentes precisam ser apoiados integralmente, mas o que li foi que nos anos de 2011 e 2012, o total de filhos gerados por adolescentes de 15 a 19 anos teve um salto gigantesco. No Brasil, um em cada cinco nascimentos ocorre com mães com idade entre 11 e 19 anos. A violência aqui tem outras nuances também. O país tem uma política internacional atrapalhada, com privilégios e relacionamento difuso com ditaduras latinas, importa médicos, que sequer receberão seus salários aqui, ataca verbal e equivocadamente um diplomata que salvou um político condenado à morte por denunciar o tão obvio vinculo de Morales com o narcotráfico e talvez seja o único país do mundo a ter um prisioneiro que é deputado federal, recebendo salário e tratamento diferenciado na cadeia.
Penso que o bem estar e a liberdade do ser humano e a sua relação com a equidade e a justiça no mundo não podem ser reduzidos apenas a estatísticas. O cidadão precisa sentir que esse bem-estar adentrou o seu lar. Percebo tristemente que esse senhor, nem tão jovem assim, completa 191 anos de independência e não faz as tarefas de casa.
Olga Borges Lustosa é cerimonialista pública e acadêmica de Ciências Sociais pela UFMT e escreve exclusivamente neste blog toda terça-feira - olga@terra.com.br