Cuiabá, 30/10/2026

Mesmo em clima de Copa, crise obriga Agnelo diminuir estádio

   A crise financeira é muito grave para o Governo do Distrito Federal. O governador eleito Agnelo Queiroz (PT) vai herdar um rombo de nada menos que R$ 800 milhões. Até a semana passada a cifra era calculada em R$ 700 milhões. Pelo visto, se continuarem falando a verdade, o montante pode crescer. Essa situação está "arrancando os cabelos" do petista. Na posse do presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Queiroz não quis falar com a imprensa sobre o assunto.

   De fato é uma situação espinhosa e assessores dizem que o governador eleito não tem muito mesmo o que falar agora. Vai esperar para tomar posse e se pronunciar depois que tiver “a verdade dos números”. Perguntado pelo RDNews sobre o que vai fazer para corrigir o rombo, se limitou a dizer que não era “hora para falar sobre esse assunto”. Preferiu comentar sobre sua intenção de ocupar a secretaria de Saúde e “tirar o setor da UTI”, como prometeu na campanha. Ele é médico cirurgião.

   Sobre a saúde financeira do Distrito Federal, no entanto, parece não ter mesmo tratamento cirúrgico tradicional. Pelo visto, Agnelo Queiroz vai empregar seu “bisturi” político-administrativo para cortar na carne as despesas do futuro governo. Um dos cortes é na construção do novo estádio Mané Garrincha. A reforma, que é uma das principais obras para preparar Brasília para receber a Copa do Mundo de Futebol, previa a nova arena com capacidade para 70 mil torcedores. A crise vai reduzi-la para 40 mil. Ou seja, ficará na mesma.

   Brasília pleiteava junto com São Paulo o privilégio de ser a sede da abertura do Mundial, mas o Conselho Organizador decidiu pelo novo estádio do Corinthians. Foi a deixa para o futuro governador anunciar que vai reduzir o tamanho do Mané Garrincha. É uma medida drástica e, de certa forma, antipática, mas o petista não titubeou. A redução da capacidade significará menos gastos e menos tempo para a conclusão da obra.

   As obras para adequar Brasília para sede da Copa do Mundo vão consumir cerca de R$ 1,1 bilhão. Somente para o Mané Garrincha estavam previstos os R$ 700 milhões iniciais. Outros R$ 400 milhões serão para obras de mobilidade urbana de Brasília. Ao reduzir os gastos com a Copa do Mundo, o futuro governador poderá conter boa parte dos gastos que terá em seus quatro anos de gestão.

   Um dos fantasmas que o assombra é o do endividamento. O Governo do Distrito Federal, em condições normais, já esgotou sua capacidade. Ocorre que, como Brasília será sede da Copa do Mundo, isso lhe permite ampliar essa capacidade, podendo tomar empréstimos que forem necessários para tocar as obras. “Mas esse dinheiro terá que ser pago. E o rombo vai ficar nas costas de quem?”, pergunta um dos assessores do governador eleito.

   A preocupação do atual governador, Rogério Rosso (PMDB), é justamente não deixar nada pendente para o seu sucessor. Rosso, que foi eleito após a crise detonada a partir da prisão e impeachment do ex-governador José Roberto Arruda, acusado de chefiar uma quadrilha que assaltava os cofres públicos do DF, já herdou uma situação extremamente difícil. Por isso está cortando tudo quanto é gasto que considera supérfluo.

   Um deles foi a comemoração do Dia da Consciência Negra no Distrito Federal. Essa medida gerou grande revolta na população, especialmente os ativistas e entidades do movimento negro local. A revolta maior não foi o cancelamento em si, mas o fato de ter ocorrido exatamente nas vésperas do Dia da Consciência Negra, desmobilizando de última hora todo um aparato preparado e as pessoas que participariam dos atos, exposições e shows. Inclusive artistas e intelectuais que tinha compromissos em outros estados e preferiram participar em Brasília. Detalhe: ninguém foi avisado a tempo.