43% pedem intervenção militar; oficial da reserva vê desinformação e aponta que remédio é amargo
Assessoria
Presidente da Associação em MT, advogado Marcos Gattass afirma que militares da reserva veem intervenção das Forças Armadas como recurso de última necessidade
Um levantamento online realizado pelo Paraná Pesquisas apontou que 43% dos 2.540 entrevistados apoiam uma intervenção militar temporária no Brasil.
O questionário foi aplicado entre 25 e 28 de setembro, poucos dias depois do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, admitir a possibilidade de intervenção militar se houver no país “eminência de caos”.
No programa Conversa com Bial do último dia 20, o general Villas Bôas declarou que o artigo 142 da Constituição outorga que as Forças Armadas podem ser empregadas na garantia da lei e da ordem. Afirmou ainda que a intervenção militar pode acontecer por iniciativa de um dos Poderes ou até por conta própria.
Com isso, o comandante do Exército respondeu à declaração do também general Antonio Hamilton Mourão. Isso porque o oficial defendeu publicamente a intervenção militar caso o Judiciário não resolva o problema da corrupção.
“Intervenção militar é remédio forte e amargo, que deve ficar longe do alcance das mãos e ser usado só em última necessidade”
Para o presidente da Associação dos Oficiais da Reserva do Exército em Mato Grosso, advogado Marcos Gattass, os 43% da população que defendem intervenção militar não tem compreensão da gravidade da medida. Segundo ele, sua adoção se justifica somente quando o caos está instalado e as instituições deixam de funcionar, o que não é o caso do Brasil.
“Intervenção militar é um remédio forte e amargo, que deve ficar na prateleira longe do alcance das mãos, para ser usado só em última necessidade. Vejo com preocupação quando as pessoas pedem, sem saber disso, e os políticos não conseguem dar resposta adequada”, declarou Gattass em entrevista ao #rdnews.
Marcos Gattass também afirma que os militares da reserva não concordam e não querem intervenção das Forças Armadas. Ele diz acreditar que as autoridades civis são competentes para resolver os problemas do país através do funcionamento das instituições e aperfeiçoamento da democracia. “É importante ter a confiança da população, mas o poder político deve ficar com os civis. Somente diante do efetivo caos, com luta armada e Poderes totalmente corrompidos, se justifica intervenção militar. A situação do Brasil está longe disso”, concluiu.
Pesquisa
Apesar de 43% apoiar a intervenção militar, a proporção dos que são contra ainda é maior, de 51%. Outros 5,3% não sabiam ou não quiseram opinar.
Entre os homens, 43% seriam a favor de uma intervenção, e 52,6% seriam contra. Em relação as mulheres, são 41% a favor e 52% contra, mas com mais proporção entre quem não sabia ou não quis opinar.
O apoio à intervenção militar é maior entre jovens, de 16 a 24 anos (o índice de favoráveis nessa faixa foi de 46%), e menor entre idosos de mais de 60, que viveram o período (só 37% dos entrevistados apoiariam a intervenção e 56% são contra).
A defesa também diminui conforme aumenta a escolaridade: entre os que têm até o ensino fundamental completo, 44% foram a favor de uma intervenção; para quem tem ensino superior, essa proporção cai para 38,9%.
No recorte por região, o apoio a uma intervenção militar temporária foi maior no Norte e no Centro-Oeste, de 44,8%, e menor na região Sul, com 41% dos entrevistados a favor. Os resultados têm uma margem de erro estimada de 2%.
Falta de informação
Jornal da Noticia
Cientista político João Edisom avalia que defesa da intervenção militar resulta da falta de vivência e da baixa escolaridade e ocorre entre jovens que não viveram a ditadura
O cientista político João Edisom Souza avalia que a defesa da intervenção militar resulta da falta de vivência e da baixa escolaridade, o que é comprovado pelos números do levantamento do Paraná Pesquisas. No entanto, interpreta o desejo de 43% da população como reflexo da bagunça política e jurídica que toma conta do país.
“É natural. Quando há desorganização, muitas pessoas querem alguém que imponha ordem. Apesar da ditadura ser ruim, muitos preferem a imposição como alternativa à bagunça política e jurídica. Por isso, a defesa da intervenção militar encontra eco nesta parcela da população”, pontua.
Sobre a falta de informação, João Edisom destaca que a defesa da intervenção militar tem mais eco entre jovens que não viveram sob a ditadura militar. O cientista acredita ainda que a baixa escolaridade contribui para que formem opinião através de fake news e até com memes nas redes sociais.
“Muitos defensores da intervenção militar têm esse posicionamento porque ouviram falar que naquela época tudo era melhor, não havia violência nem corrupção. A baixa escolaridade os impede de compreender que na ditadura tudo estava submetido à censura do regime e os escândalos não vinham à tona. Também não entendem que a violência era menor no Brasil e em todo mundo e cresceu junto com a população”, concluiu.
Ditadura Militar
Voyager
Ditadura militar começou com o golpe de 64 e terminou com redemocratização em 85 marcada por censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime
A ditadura militar começou com o golpe de 1964 e terminou com a redemocratização em 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime.
O presidentes da ditadura militar foram os generais Hugo de Alencar Castelo Branco (1964-1967), Arthur da Costa e Silva (1967-1969), Emílío Garrastazu Médici (1969-1974), Ernesto Geisel (1974-1979) e João Batista Figueiredo (1979-1985). Entre agosto e outubro de 1969, o Brasil foi governador pela Junta Militar formada pelos ministros Aurélio de Lira Tavares (Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica).
A Comissão Nacional da Verdade listou, em relatório final divulgado em 10 de dezembro de 2014, 434 pessoas mortas ou desaparecidas nos 21 anos de ditadura militar. Dados extraoficiais apontam que 82 pessoas teriam sido mortas em Mato Grosso no contexto da luta pela terra e existem relatos de massacre contra povos indígenas, principalmente entre os Xavantes. (Com informações da revista Exame)