Cleia: a moradora de rua que viralizou nas redes ao ajudar cego no Porto - veja vídeo
Ela passou 20 dos seus 38 anos nas ruas e se tornou conhecida na região do Porto pela sua generosidade
Rodinei Crescêncio
Cleia Lina durante entrevista ao Rdnews, na tarde desta 5ª, após se tornar conhecida nas redes sociais por ajudar cego a chegar ao ponto de ônibus
Uma mulher sorridente surge entre os veículos parados no semáforo da rua Comandante Suídio, em frente à praça localizada no Porto, em Cuiabá. Há duas décadas, Cleia Lina dos Reis, 38 anos, leva a vida entre pedidos de dinheiro e piadas com motoristas que trafegam pela região histórica da capital mato-grossense.
Ela vive em situação de rua há 20 anos. Decidiu sair de casa após problemas familiares. “Perdi a guarda dos meus filhos e isso me deixou arrasada. Uma conhecida me incentivou a usar crack e acabei me afundando nisso”.
Cleia conta que tentou deixar as drogas duas vezes, mas não conseguiu. “É um vício muito forte. Mas tenho fé em Deus que um dia vou conseguir”, diz a mulher, que se considera religiosa. “Deus está comigo o tempo todo, apesar de tudo”.
A Praça do Porto se tornou o lar da mulher quando deixou a residência em que morava com a família. “Eu tinha perdido dois irmãos e uma tia. Um parente me denunciou ao Conselho Tutelar e disse que eu não cuidava dos meus filhos, porque em uma noite fui dormir na casa de um rapaz que era meu namorado”.
“Esse parente tinha ciúmes de mim e por isso me denunciou. Foi muito triste, porque pensaram que eu não era boa mãe e levaram meus filhos”, lamenta.
Segundo Cleia, os filhos são adolescentes e moram com uma tia dela, em um bairro da periferia de Cuiabá. “Raramente vejo eles. Mas não gosto de falar muito disso não”, diz, antes de permanecer em silêncio por alguns instantes.
Para sobreviver nas ruas, pede dinheiro diariamente na região do Porto. Muitos motoristas não abrem o vidro para conversar com ela. Porém, há outros que a recepcionam com alegria. Ela se tornou figura emblemática da região e diz ficar feliz por ter conquistado a simpatia de muitos.
“As pessoas sempre me dão dinheiro ou qualquer coisa que possam me ajudar. Tem uns irmãos que trazem comidinha para nós e assim vou levando a vida. Mas eu gosto de ficar sozinha. Não gosto de ficar em grupo, não. Gosto da solidão”, diz a mulher, que costuma dormir na praça da região.
Rodinei Crescêncio
Vivendo nas ruas há 20 anos, Cleia Lina pede a ajuda de motoristas que trafegam pela região do Porto, em Cuiabá
Ela conta que usa crack quase diariamente. “Não é algo que gosto de falar, mas também não escondo. Não faço mal para ninguém, moço”, diz. Ela afirma que foi presa uma única vez. “Passei oito dias na prisão, como castigo. Um conhecido tinha invadido uma casa e me chamou, sem eu saber. Quando cheguei lá, descobri que ele tinha feito isso, a polícia veio e me levou junto, mesmo sem eu ter roubado nada”.
Um comerciante, que tem uma loja na região do Porto há 18 anos, afirma que a presença de Cleia não costuma incomodar. “Ela sempre ajuda quando está bem. Impede que outros usuários se aproximem dos estabelecimentos ou risquem carros”, comenta o homem, que prefere não ser identificado. Porém, segundo ele, há alguns dias em que a mulher está transtornada, em razão do uso de crack. “Mas nesses dias, ela não faz mal para ninguém, só não está de bom humor e se afasta de todos".
A vida nas ruas
Há algumas semanas, o cabelo de Cleia tem sido motivo de olhares de pessoas que trafegam pelo Porto. A área frontal da cabeça dela está careca, enquanto a parte de trás está maior. Por diversas vezes, ela tenta esconder a área da cabeça sem cabelo com as mãos.
Cleia justifica que o novo penteado não a agrada. Ela relata que teve de cortar o cabelo após jogarem chiclete nos fios. “Eu estava dormindo e não sei quem fez isso. Mas quando vi, não consegui tirar e cortei por conta própria. Depois, uma moça me ajudou e raspou”, diz.
“Nunca fui vítima de nenhum tipo de violência. Sempre me respeitaram”
Cleia LinaO episódio do chiclete no cabelo, segundo Cleia, foi um dos poucos casos de represália que sofreu nas ruas. “Nunca fui vítima de nenhum tipo de violência. Sempre me respeitaram”, diz.
Apesar de não ter sido agredida fisicamente, costuma ouvir piadas pouco agradáveis. Porém, afirma ignorar comentários maldosos.
Ajuda a outras pessoas
Nesta semana, um vídeo de Cleia ajudando um rapaz cego a chegar ao ponto de ônibus, na Praça do Porto, repercutiu em aplicativos de mensagem. O registro foi feito pelo jornalista Luiz Vieira, da TV Vila Real. Muitas pessoas elogiaram a postura dela. "Eu sempre ajudo esse rapaz. Tem também uma idosa que sempre ajudo a atravessar a rua", comenta.
Ela afirma que sempre se preocupou em ajudar as pessoas. "Foi algo que aprendi na infância, com meus parentes. Hoje, se tenho um pão, divido com cinco pessoas. Isso faz parte da minha criação e sempre vou ajudar o próximo".
Para o futuro, o maior sonho dela é deixar as ruas. “Quero coisas boas para o futuro. Quero um lugar, nem que seja só um quartinho”.
Veja trecho da conversa com Cleia, que se tornou mais conhecida após ato de generosidade: