Cuiabá, 23/10/2026

Haras nega maus-tratos e aponta prejuízo de R$ 400 mil com veto a provas de laço

Rodinei Crescêncio

No haras localizado no bairro Santa Rosa, em Cuiabá, cavalo e cavaleiro são treinados para a prática de diversas atividades, como a do tambor

O empresário Cae Póvoas, proprietário do haras Twin Brothers, afirma ter sofrido prejuízo de R$ 400 mil no último fim de semana, após a Justiça impedir a realização de provas de laço na Sétima Semana do Cavalo, em Cuiabá. Cae nega que os animais que participariam da disputa sejam alvos de maus-tratos.

O evento agropecuário, realizado na região do bairro Santa Rosa, começou no dia 25 de maio e terminou no último sábado (1°). Segundo a organização, mais de 40 mil pessoas passaram pelo local ao longo da semana. Além das disputas de laço, a programação contava com prova de Três Tambores – realizada normalmente – e apresentações de músicos. Havia ainda praça de alimentação e atrações para as crianças.

A decisão para suspender as provas de laço em dupla e técnico foi proferida pelo juiz Rodrigo Roberto Curvo, na sexta (31) passada. O magistrado acolheu pedido do Ministério Público Estadual (MPE), que alegou que a competição, que envolve cavaleiros laçando touros, é uma forma de maus-tratos aos animais.

Na denúncia, o MPE argumentou que as provas afetam os animais em razão das dores e sofrimentos aos quais eles são submetidos. “Há, inclusive, decisões reiteradamente proferidas pelos tribunais de todo país que assim as reconhece”, diz o Ministério Público na ação civil pública. Segundo a instituição, o impedimento das provas seria necessário para evitar o “sofrimento físico e psíquico a equinos, bovinos e caprinos”.  Caso a medida não fosse cumprida, seria aplicada multa diária de R$ 5 mil.

Para Cae, o pedido do Ministério Público Estadual foi equivocado. Ele criticou o fato de ter sido notificado sobre a liminar para suspender a competição somente na noite de sexta, horas antes do início da disputa. “Há sete anos realizamos o evento e nunca tivemos relatos de maus-tratos. A gente trabalha com padrão de evento onde a gente mantém e preserva sempre o bem-estar animal. Planejamos isso durante um ano”.

Ele comentou que há meses vem divulgando a Sétima Semana do Cavalo, porém sequer chegou a ser notificado antes da decisão que suspendeu as provas de laço. “Fiquei extremamente estarrecido com essa decisão, pois não tivemos tempo hábil para recorrer. Nunca houve nada que tivesse acontecido e pudéssemos achar que a prova poderia ser considerada ilegal”.

Rodinei Crescêncio

O empresário Cae Póvoas em entrevista ao Rdnews, nesta quinta, quando falou de prejuízos e negou maus-tratos

“Ao menos, deveríamos ser informados com antecedência, para que pudéssemos recorrer em instâncias superiores ou para que informássemos os competidores sobre a situação. Embargar um evento horas antes de acontecer é uma coisa extremamente sem fundamento”, acrescentou.

O empresário e o irmão, que são sócios, dizem ter levado prejuízo de R$ 400 mil com a decisão da Justiça. Isso porque afirmam que as provas de laço eram as principais atrações da semana. A disputa mais aguardada, segundo Cae, aconteceria no sábado e reuniria mais de 550 competidores.

“Sem essas provas, contando com o prejuízo dos valores das inscrições, dá cerca de R$ 300 mil. Além disso tem os valores que deixamos de arrecadar no bar e em outras áreas, porque muita gente foi embora, então acredito que o prejuízo chega a R$ 400 mil”, afirmou.

Ele relatou que diversos competidores vieram de fora do Estado e logo retornaram às suas regiões de origem, junto com os cavalos, quando souberam do impedimento das provas. “Teve gente que veio de Umuarama, no Paraná, e foi embora assim que chegou”.

Durante os dias de competição, ao longo da semana, as premiações totalizavam R$ 350 mil. A maior parte do valor seria distribuído no sábado, quando os prêmios aos vencedores das provas de laço chegariam a R$ 105 mil. “O maior prejuízo é a consequência que isso deve trazer. Como vou trazer pessoas para competir por aqui novamente? Como embarcar novamente para Cuiabá, sabendo que quando chegar aqui não sabem se vai haver a prova?”.

Empresário nega maus-tratos

As alegações sobre possíveis maus-tratos, segundo Cae, foram inesperadas e não procedem. “O que me preocupa é que as pessoas que alegam esses maus-tratos nunca montaram em um cavalo ou vivenciaram isso na vida. É muito complexo julgar uma coisa que não tem conhecimento in loco”.

Ele afirmou que contratou uma equipe de 48 profissionais, entre médicos veterinários e estagiários, para fazer plantões para cuidar dos animais que participariam da disputa. “Essa disputa [de laço] é uma tradição nas fazendas. Não é nenhum tipo de maus-tratos, muito pelo contrário. Hoje são usadas cordas flexíveis, com elasticidade. Atualmente, o cavalo emprega mais de 600 mil pessoas no Brasil. Gira mais de R$ 16 bilhões e é a sexta economia mais importante do agronegócio do Brasil”.

Ele pretende solicitar aos deputados estaduais que façam uma Lei para regularizar o esporte equestre no Estado, incluindo as provas de laço. “Muitos parlamentares já demonstraram interesse em me ajudar nessa iniciativa”.

Rodinei Crescêncio

Haras desenvolve atividades como equoterapia. melhoramento genético por inseminação e hotel para cavalos; local também é usado para eventos

No próximo dia 18, Cae e outros cavaleiros do Estado planejam protestar em frente à Assembleia contra o impedimento da prova. “Queremos que os deputados entendam como isso é importante para o Estado. Em Mato Grosso, estima-se que cerca de 10 mil pessoas participam da prova de laço como esportistas”, asseverou.

Em razão do evento realizado anualmente pelo Twin Brothers, a Câmara de Cuiabá aprovou, em 2014, um projeto que instituiu a Semana do Cavalo na Capital. Para Cae, a data é uma prova da importância do evento para a região.

O haras

Com quase 10 anos de funcionamento, além do treinamento de animais para participação de torneios em todo o Brasil, o haras oferece ainda um trabalho na área de pesquisa, desenvolvimento e melhoramento genético de cavalos profissionais através de inseminação artificial e transferência de embriões e também participa de leilões tradicionais pelo Brasil afora. Ainda desenvolve eventos hípicos, nas atividades de Laço, Baliza e Tambor. Desde 2010, o haras ampliou suas atividades oferecendo atendimento de equoterapia.