Cuiabá, 22/09/2026

Polícia diz que Paccola não seguiu norma da PM e agiu de forma precipitada

Vereador foi indiciado por homicídio qualificado; crime ocorreu no dia 1º de julho, em Cuiabá

Rodinei Crescêncio

A Polícia Civil concluiu que o vereador tenente-coronel Marcos Paccola (Republicanos) teve conduta que não se enquadra dentro do procedimento padrão estabelecido pela Polícia Militar ao abordar o agente socioeducativo Alexandre Miyagawa, o “Japão”, e agiu de forma precipitada ao ceifar a sua vida na noite do dia 1º de julho, em Cuiabá.

Os apontamentos constam no relatório do inquérito policial que indicia Paccola por homicídio qualificado mediante recurso que impossibilitou a defesa da vítima, ao qual o #rdnews teve acesso. O documento é assinado pelo delegado Hércules Batista Gonçalves, que conduziu as investigações, e foi remetido ao Ministério Público Estadual e ao Judiciário.

“Importa consignar que a conduta adotada pelo suspeito não se amolda ao Procedimento Operacional Padrão - POP da própria Polícia Militar”, diz trecho do relatório.

Ao todo, o inquérito levou em conta os laudos periciais, imagens de câmeras de segurança e depoimentos prestados por 16 pessoas, entre os envolvidos diretamente no caso e testemunhas.

À Polícia, Paccola manteve o argumento de que agiu em legítima defesa, pois teria visto a vítima começar a se virar em sua direção e com a arma em punho – o que é contestado pela perícia e pelas imagens do crime, segundo o relatório. Em declarações à imprensa, Paccola ainda afirmou ter agido para defender a vida da namorada de Japão, Janaina Sá, fato também não confirmado pelas investigações.

Reprodução

Agente Alexandre Miyagawa, o "Japão"

“Infere-se das imagens que a vítima em nenhum momento esboçou reação alguma, porquanto sequer viu quem ceifou sua vida”, aponta o relatório.

“Após o trabalho desenvolvido, resta indene de dúvidas de que as imagens, os depoimentos e os laudos periciais evidenciam que a vítima estava de costas, sob o efeito de álcool e não fez nenhuma menção de girar o tronco quando foi atingida pelos disparos efetuados pelo suspeito”, completa o documento.

No relatório, é apontado que as imagens das câmeras de segurança atestam que, entre o momento em que Paccola se aproxima da vítima com a arma empunhada e os disparos, se passaram apenas quatro segundos.

Relatos das testemunhas, porém, corroboram o argumento do vereador de que ele se identificou como policial e gritou para Japão abaixar ou largar a arma, antes de atingir a vítima pelas costas.

Também é salientado que Japão sacou a sua arma e apontou para cima após pedidos reiterados da namorada, momentos antes de segui-la em direção ao carro em que estavam, razão pela qual testemunhas podem ter gritado que ele estava armado e que poderia matá-la, o que incitou a ação do vereador.

No entanto, o relatório ressalta que o agente não estava com a arma apontando para Janaina ou apresentando ameaça à namorada no momento em que foi alvejado.

“O casal caminha em sentido contrário à pista às 19h16min01s, instante em que Janaina segue na frente e a vítima a acompanha com as mãos abaixadas, movimentando o braço direito para frente e para trás e continua empunhando a propalada arma de fogo”, diz trecho do documento.

O inquérito também aponta que restou demonstrado que a namorada de Japão em nenhum momento pede ajuda ou socorro para terceiros em razão de uma suposta violência doméstica que estaria sofrendo, conforme alegado por Paccola em entrevistas ao afirmar que agiu para defendê-la.

Em outras palavras, é possível concluir que o suspeito agiu de forma precipitada ao não insistir no gerenciamento da situação

Trecho do relatório da Polícia Civil

“Em outras palavras, é possível concluir que o suspeito agiu de forma precipitada ao não insistir no gerenciamento da situação”, completa o documento.

O crime

A confusão teve início após Janaina, que dirigia o carro em que o casal estava, atravessar a Avenida Filinto Müller em alta velocidade e invadir a Rua Presidente Arthur Bernardes na contramão. À Polícia, ela relatou que pretendia estacionar o carro na via para seguir com o namorado para o restaurante Choppão. Ambos haviam ingerido bebida alcóolica.

Segundo o inquérito, ao descer do carro, Janaina protagonizou um bate-boca com pessoas que estavam em uma distribuidora localizada na esquina da rua, resultando na intervenção de Japão para retirá-la do local e na morte do agente momentos depois.