Previsão de estiagem, incêndios e calor intenso no Centro-Oeste acende alerta na saúde pública
Altas temperaturas causaram cerca de 120 mil mortes em duas décadas no país; ministro da Saúde, Alexandre Padilha defende criação de SUS atento a impactos silenciosos
O Ministério da Saúde prevê um cenário de estiagem, calor intenso e aumento do risco de incêndios florestais no Centro-Oeste nesta primavera, período em que o fenômeno El Niño deve se intensificar. Segundo o órgão, os principais reflexos para a saúde pública envolvem estresse térmico, problemas cardiorrespiratórios provocados pela inalação de fumaça, acidentes durante o combate ao fogo e dificuldades no acesso à água potável.
Ministério da Saúde
Painel de cenário para a região Centro-Oeste durante o El Niño em 2026
O El Niño é o aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico, caracterizado pela persistência de temperaturas pelo menos 0,5 °C acima da média por alguns meses, o que provoca alterações na circulação atmosférica. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), agência responsável pela medição, o fenômeno é apontado como o fator climático de maior influência no planeta.
Para 2026, a NOAA projeta 97% de probabilidade de o fenômeno atingir alta intensidade até o fim do ano. A agência estima ainda uma chance de 75% de que o episódio supere a força de todos os eventos registrados desde 1950 entre outubro e dezembro, trazendo elevado potencial de destruição.
Segundo o Ministério da Saúde, o intervalo mais crítico no Brasil será o período entre outubro deste ano e março de 2027. Os principais riscos à saúde potencializados pelo fenômeno em todo o país são o aumento de casos de dengue, chikungunya, doenças respiratórias, cardiovasculares e ligadas ao calor excessivo, além de diarreia, hepatite A, infecções hídricas e alimentares, acidentes, lesões, sofrimento psicossocial e agravamento de condições crônicas.
Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam o calor extremo como causa da morte de cerca de 120 mil pessoas entre 2000 e 2019. A condição climática também eleva o risco de parto prematuro e atinge as mulheres de forma mais intensa.
Ainda que determinados efeitos atinjam o país de forma generalizada, os cenários esperados variam ao longo do território nacional e demandam planos de preparação e antecipação de riscos regionalizados para responder aos impactos específicos dos estados e municípios, de acordo com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A declaração foi feita em coletiva de imprensa virtual com veículos de todo o país, acompanhada pelo #rdnews.
Captura de transmissão
Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao centro; à esquerda, o diretor de Programa da Secretaria Executiva do Ministério da Saúde, Nilton Pereira Junior, e à direita, a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador, Agnes Soares da Silva
De acordo com Padilha, no Centro-Oeste, o Sistema Único de Saúde (SUS) conta com o Painel de Poluição Atmosférica e Saúde Humana (Vigiar), ferramenta que analisa de forma integrada dados ambientais e de saúde. O objetivo é identificar territórios prioritários, situações de vulnerabilidades e populações expostas a poluentes atmosféricos para o subsídio à tomada de decisões na rede pública.
O ministro afirmou que a meta da pasta é estruturar um SUS “inteligente” e atento aos chamados “impactos silenciosos”. “Nas enchentes de 2024, 183 pessoas morreram no Rio Grande do Sul; no entanto, um número ainda maior de pessoas morreu por causa de um surto de dengue no período, o que também foi reflexo da emergência climática. O nosso intuito é identificar e cruzar esses dados para prever novos cenários críticos”, declarou.
Cuiabá conta com um Centro de Informações em Saúde e Clima (Cisc) para antecipar riscos e proteger a população antes da ocorrência de emergências climáticas, ampliando a capacidade de monitoramento e tomada de decisões baseadas em evidências ao integrar dados do painel VigiAr e outros indicadores estratégicos. Já Brasília e Campo Grande dispõem de bases da Força Nacional do SUS.