A empresa parou de andar: origem pode estar nas relações
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Eu aprendi cedo, numa empresa onde me formei, uma frase que carrego até hoje:
Confiar é conferir.
O meu patrão dizia isso com naturalidade. E o mais interessante não era a frase — era o que ela produzia nas pessoas.
Quando alguém era auditado, quando um processo era checado, quando uma entrega era conferida — a grande maioria das pessoas recebia aquilo com tranquilidade. De forma geral, isso era muito fluido no ambiente, porque a cultura já havia ensinado que conferir fazia parte do jogo. Era o funcionamento normal da casa. E quando essa naturalidade circulava entre as pessoas, ela ia moldando o ambiente — e o que poderia gerar resistência num ou noutro acabava sendo diluído pela maturidade da maioria.
E quando as pessoas entendem que isso é o escopo, algo muda.
Elas param de se defender. E começam a se desenvolver.
Mas o que eu tenho observado hoje, sentada na cadeira de quem acompanha empresas e pessoas, é um cenário muito diferente.
As pessoas estão sensíveis.
Profundamente sensíveis.
E essa sensibilidade, quando não trabalhada, começa a custar caro — para elas e para as empresas que fazem parte.
Receber um feedback virou sinônimo de ataque. Ser cobrado virou sinônimo de perseguição. E ser auditado, em alguns ambientes, virou motivo de mágoa.
As pessoas estão sensíveis. Profundamente sensíveis. E essa sensibilidade, quando não trabalhada, começa a custar caro — para elas e para as empresas que fazem parte. Receber um feedback virou sinônimo de ataque. Ser cobrado virou sinônimo de perseguição. E ser auditado, em alguns ambientes, virou motivo de mágoa
O nome disso é pessoalização.
E ela não vive só entre os analistas ou nos times operacionais. Ela sobe. Ela chega em cadeiras estratégicas. Ela se instala em diretores, em gestores, em lideranças que deveriam ser filtro — e que, sem perceber, se tornam combustível.
Deixa eu te contar uma situação que acompanhei de perto.
Um colaborador estava sendo auditado. Algumas práticas fora do padrão da empresa precisavam ser verificadas. Processo legítimo. Necessário. Parte do funcionamento de qualquer organização que se quer saudável.
O gestor direto desse colaborador, ao tomar conhecimento, disse:
“Deixa ele descobrir que estão desconfiando dele. Ele vai ficar muito decepcionado.”
Para além de tudo — aquela informação nem deveria ter chegado a esse gestor dessa forma. Mas o que me chama mais atenção é o que essa fala revela.
Esse líder não estava olhando para a empresa.
Estava olhando para a relação.
Estava no campo da lealdade pessoal, quando deveria estar no campo da responsabilidade profissional. E há uma chance real de que ele tenha levado isso adiante — contaminando o colaborador com uma narrativa que não era dele carregar.
Isso é pessoalização em cadeira de liderança.
E o preço é alto.
Quando um líder não consegue separar o que é processo do que é pessoa, ele para de ser filtro — e vira amplificador.
Amplifica o ruído. Amplifica a insegurança. Amplifica a cultura do “fulano não quer assim” no lugar do “a empresa precisa assim”.
E quando a empresa vira o nome de uma pessoa, o processo vira disputa, e o feedback vira ofensa — a organização para de andar.
Não porque faltam pessoas competentes.
Mas porque as relações estão ocupando o lugar que deveria ser dos processos.
A empresa é soberana.
Isso não é frieza. É maturidade.
Quando você entende que a empresa é maior do que qualquer relação dentro dela — inclusive a sua — você começa a operar de um lugar diferente. Você cobra sem medo de desagradar. Você recebe feedback sem interpretar como rejeição. Você audita porque quer que o processo funcione, não porque desconfia da pessoa.
E aí você se torna, de fato, um profissional.
E aí eu te pergunto:
Quando alguém confere o seu trabalho, qual é o seu primeiro movimento interno?
Quando você precisa cobrar alguém da sua equipe, o que pesa mais — o resultado da empresa ou o risco de a pessoa ficar chateada com você?
E quando você recebe um feedback, você escuta o que está sendo dito — ou você já está construindo a defesa?
Porque a forma como você responde a essas perguntas diz muito sobre onde você ainda está crescendo.
E isso vale para qualquer cadeira.
De liderança ou não.
O profissionalismo começa quando você aprende a distinguir o que é sobre você — e o que é sobre o trabalho.
E essa distinção, mais do que uma habilidade técnica, é uma escolha de maturidade.
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras