Não é uma cena só. São várias. Às vezes é à mesa, quando a criança recusa a comida e alguém baixa a voz: "coma, senão a mamãe fica triste." Outras vezes é na hora do remédio, do abraço que precisa ser dado no colega, do brinquedo que precisa ser emprestado mesmo sem vontade — "empresta, senão ele vai ficar chateado com você." São situações diferentes, mas carregam o mesmo recado, repetido de formas diferentes: expressar o que você sente pode custar o afeto de alguém.
Ninguém faz isso por maldade. Faz por amor, um amor que tenta preparar a criança para o mundo, para a convivência, para não magoar quem está por perto. Mas o efeito, lá na frente, é curioso: crescemos aprendendo a medir cada palavra antes de dizer o que pensamos. E esse aprendizado, absorvido ainda pequeno, é o mesmo que reaparece, décadas depois, na sala de reunião, quando alguém precisa dar um feedback e trava.
Tenho visto isso se repetir, com roupagens diferentes, em quase todo processo de liderança que acompanho. Um gestor sabe exatamente o que precisa dizer a alguém da equipe. Sabe até os detalhes. E guarda tudo para si. Quando pergunto por quê, a resposta raramente vem pronta na primeira frase. Vem depois de uma ou duas perguntas a mais, e geralmente soa assim: "não quero criar climão", "não é o momento", "prefiro que ela perceba sozinha." No fundo, o que está ali é a mesma pergunta de criança, só que travestida de adulto: se eu falar, essa pessoa vai deixar de gostar de mim?
O que aprendo, sessão após sessão, é que o silêncio nunca é neutro. Quando um líder nunca aponta o que precisa ser ajustado, a equipe não sente segurança — sente instabilidade, porque ninguém sabe muito bem onde pisa. E quando um líder nunca reconhece o que está bom, a equipe também não sabe: continuo fazendo assim, ou não? O silêncio, dos dois lados, é uma forma de mensagem
O que aprendo, sessão após sessão, é que o silêncio nunca é neutro. Quando um líder nunca aponta o que precisa ser ajustado, a equipe não sente segurança — sente instabilidade, porque ninguém sabe muito bem onde pisa. E quando um líder nunca reconhece o que está bom, a equipe também não sabe: continuo fazendo assim, ou não? O silêncio, dos dois lados, é uma forma de mensagem. Só que é uma mensagem confusa.
Sobre o elogio, aprendi com o tempo que ele também precisa de direção. Reconhecer alguém de forma vaga, tipo "mandou bem", sem contexto, sem mostrar o que exatamente gerou aquele resultado, é como apontar para um caminho sem dizer onde ele leva. A pessoa até sente que fez algo certo, mas não sabe bem o quê, e por isso não sabe o que repetir. O reconhecimento que realmente forma alguém é aquele que nomeia o momento, nomeia a atitude, e mostra com clareza o que aquilo gerou — para a pessoa, para o time, para o resultado. Feito assim, o elogio não infla o ego. Ele educa o comportamento.
Sobre a correção, o caminho que costumo indicar em processo é parecido, e começa sempre pela conexão. Antes de qualquer ajuste, a pessoa precisa sentir que está sendo olhada com respeito, não com julgamento. Existe uma diferença enorme entre dizer "você é desatento" e dizer "nesta entrega, alguns pontos passaram despercebidos." A primeira frase atinge quem a pessoa é. A segunda aponta o que ela fez — e deixa aberto o caminho para fazer diferente da próxima vez. Um ataca a identidade. O outro convida à mudança.
E existe um recurso que costumo trazer nesses processos, e que quase sempre surpreende: o silêncio depois da fala. A maioria dos líderes, no desconforto de terem acabado de pontuar algo, sente a necessidade de preencher aquele espaço na hora, de perguntar "e aí, o que você acha?" imediatamente. Mas é justamente nesse intervalo, no silêncio que vem logo depois, que a pessoa processa, reflete e chega às próprias conclusões. As mudanças mais duradouras não vêm de fora para dentro. Vêm de dentro para fora. E isso pede espaço, não pressa.
Se tem algo que quero deixar aqui é isto: feedback bem dado não é bronca com roupa nova. É, na essência, um jeito de dizer ao outro "eu vejo você, e acredito que você pode mais — por isso não vou me calar."
Fica então uma pergunta, sem receita fechada: o que você tem deixado de dizer, por medo de que o outro se afaste? E o que você tem engolido em silêncio, por acreditar que é assim que se preserva uma relação?
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora, fundadora da Grandy Psicologia Empresarial, e escreve neste espaço quinzenalmente, às quintas-feiras







