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Cynthia Lemos Quinta-feira, 28 de Maio de 2026, 05:00 - A | A

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Cynthia Lemos

O que separa o gestor ansioso do procrastinador

Cynthia Lemos


Rodinei Crescêncio/Rdnews

Cynthia Lemos nova articulista Rdnews arte interna

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Já vivi muitos lugares dentro do mundo do trabalho. Comecei como assistente, fui crescendo, virei analista júnior, depois coordenadora. Conheço a cadeira CLT por dentro — as pressões, a ansiedade de não ser vista, a urgência de querer resultados que dependem de decisões que não são suas.

Hoje, ocupando também a cadeira da gestão e do empresariado, consigo enxergar coisas que antes eram invisíveis para mim. E há algo que percebo com frequência no trabalho que desenvolvo com líderes e executivos: existem ângulos que simplesmente não conseguimos acessar quando estamos apenas em uma posição.

Muitas vezes ouço profissionais dizerem, com legítima frustração: "Isso é tão óbvio — por que não resolve?"

Quando você adia uma decisão hoje — você está analisando o tabuleiro, ou está evitando o desconforto da incerteza?

E o que ninguém conta é que, do lado de quem decide, existe uma arquitetura de complexidade que raramente aparece nos relatórios. Existem riscos que não podem ser divididos com todos. Existem análises em andamento, prioridades que competem, variáveis que ainda não se revelaram por completo. Existe o peso de saber que uma decisão tomada no tempo errado pode custar mais do que a própria inação.

Não estou defendendo a paralisia. Estou reconhecendo que a gestão tem uma profundidade que o olhar externo raramente alcança — e que essa incompreensão gera, nos dois lados, um desgaste desnecessário.

Lembro de um gestor que também foi mentor para mim. Ele dizia, com uma simplicidade que na época eu não conseguia absorver por inteiro: "O fator tempo faz parte."

Eu escutava com atenção, mas sem compreender completamente. Só mais tarde entendi o que ele queria dizer. Não era sobre lentidão. Era sobre precisão. Sobre não agir movido pela ansiedade a ponto de atropelar aquilo que o próprio processo poderia amadurecer.

Em muitas situações, o tempo permite que a ideia assente. Que as peças se movimentem. Que o cenário se revele com mais clareza. Que oportunidades apareçam. Que variáveis importantes se mostrem sem que você precisasse antecipá-las todas com força e urgência.

Isso é diferente de adiar por medo. É diferente de esperar por uma certeza que nunca virá.

Na minha prática acompanhando líderes e executivos, vejo com regularidade dois padrões que custam caro — e que, curiosamente, parecem opostos, mas frequentemente nascem da mesma raiz.

Há um gestor que precisa agir rápido o tempo inteiro. Não porque a urgência seja real, mas porque a velocidade virou prova de competência. Cada decisão pendente parece uma falha de caráter. A impulsividade, nesses casos, não é falta de inteligência — é uma estratégia inconsciente para não conviver com o desconforto da dúvida.

E há o gestor que adia. Que espera mais dados, mais consenso, condições mais favoráveis. Não porque seja irresponsável — mas porque a incerteza gera um peso que ele ainda não aprendeu a sustentar sem que isso paralise sua ação.

Nos dois casos, o custo é real. Um age antes da hora e colhe resultados que poderiam ter sido diferentes. O outro perde o timing esperando garantias que o ambiente nunca vai oferecer.

O que está por trás dos dois, com frequência, é uma relação ainda não resolvida com o erro. Com o julgamento. Com o que significa, para aquele gestor, tomar uma decisão que não deu certo.

Ocupar cadeiras executivas é analisar variáveis simultaneamente — fatores econômicos, políticos, concorrência, fornecedores, clientes, equipe, finanças, risco, prazo, cenário interno, cenário externo.

É como um tabuleiro onde várias peças se movimentam ao mesmo tempo — e nenhuma delas espera você estar completamente pronto. Por isso, muitas vezes, o que alguém de fora interpreta como procrastinação é, na verdade, um gestor lendo o campo antes de mover uma peça importante. Calculando. Observando. Esperando o ângulo certo.

Isso exige maturidade. Exige que você consiga separar a ansiedade da análise. E essa separação, para muitos, é um exercício de vida.

Recentemente, em uma sessão de mentoria, me perguntaram o que diferencia as pessoas que chegam a lugares extraordinários — mesmo sem formação privilegiada, sem todos os recursos que gostariam de ter, sem o momento ideal.

Minha resposta foi direta: coragem.

Porque mesmo com análise cuidadosa, dados consistentes e estratégia bem desenhada — ainda existe aposta. Ainda existe risco que os números não cobrem. Ainda existe o passo que você dá sem saber exatamente onde o pé vai pousar.

Talvez seja exatamente isso que torna alguns executivos e empresários tão singulares: a capacidade de decidir mesmo sem garantias absolutas. De sustentar a incerteza sem que ela paralise. De apostar — conscientemente — num caminho que ainda está sendo construído enquanto se caminha.

Gestão não é só velocidade. Gestão é discernimento, principalmente.

E discernimento, no fundo, é saber quando agir, como agir — e ter a coragem de fazer isso mesmo quando o tabuleiro ainda não revelou todas as suas peças.

Quando você adia uma decisão hoje — você está analisando o tabuleiro, ou está evitando o desconforto da incerteza?
 
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras

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