Previsão do tempo ??°C Cidade

Cynthia Lemos Quinta-feira, 09 de Julho de 2026, 05:00 - A | A

Quinta-feira, 09 de Julho de 2026, 05h:00 - A | A

Cynthia Lemos

O espaço que você ainda não abriu para si mesmo

Cynthia Lemos

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Cynthia Lemos nova articulista Rdnews arte interna

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Toda semana eu sento diante de executivos, gestores e líderes que chegam até mim carregando uma pergunta que raramente formulam em voz alta: "por que eu continuo enfrentando o mesmo tipo de desafio, mesmo tendo mudado de cargo, de empresa, de equipe?"

A resposta quase nunca está na técnica. Está em um território que a rotina corporativa insiste em não visitar: o autoconhecimento.

Vivemos formando profissionais tecnicamente exemplares. Sabem ler indicadores, montar planilhas, liderar reuniões, apresentar resultados. Mas boa parte chega à minha sala sem nunca ter sido convidada a se perguntar: como eu reajo sob pressão? O que me tira do eixo? Que padrão eu repito sem perceber, em times diferentes, em contextos diferentes?

Esse é o ponto cego mais caro do ambiente corporativo. Não é falta de competência técnica. É a ausência de um espaço — real, protegido, recorrente — para a pessoa se ouvir.

E aqui vai algo que repito em quase toda sessão: ninguém muda o que não consegue nomear. Antes de qualquer plano de ação, existe um momento anterior, silencioso, que é o de reconhecer o que está, de fato, acontecendo por dentro.

Existe um mito de que o insight chega como um raio: uma frase inspiradora, uma palestra motivacional, e pronto, a pessoa muda. Na prática de mentoria e desenvolvimento executivo, isso quase nunca acontece assim.

O insight verdadeiro é resultado de um processo de desaceleração. É quando alguém para, é convidado a olhar para dentro com calma, e ali, no silêncio, consegue enxergar algo que já estava presente — só que encoberto pela urgência do dia a dia.

O insight verdadeiro é resultado de um processo de desaceleração. É quando alguém para, é convidado a olhar para dentro com calma, e ali, no silêncio, consegue enxergar algo que já estava presente — só que encoberto pela urgência do dia a dia

Já vi líderes perceberem, no meio de uma sessão, que o que os paralisava não era a falta de clareza estratégica, mas o medo de perder o controle. Já vi profissionais entenderem que a irritação recorrente com a equipe escondia, na verdade, uma cobrança que eles nunca fizeram consigo mesmos primeiro. Esses momentos não nascem de um conselho que eu dou. Nascem de uma pergunta bem colocada, no tempo certo, que devolve a pessoa a si mesma.

Costumo perguntar, em momentos assim: o que precisa ser deixado para trás para que algo novo possa nascer? Essa pergunta simples, quando verdadeiramente sentida — e não apenas respondida no automático — é o que abre a porta da mudança.

É importante marcar uma diferença: autoconhecimento, na forma como trabalho, não é a pessoa ficar remoendo o passado ou analisando a si mesma infinitamente. É um processo direcionado, que conecta a consciência emocional a uma ação concreta.

Toda sessão que conduzo termina com duas perguntas simples: quais reflexões você leva daqui? E quais são suas pequenas ações a partir de agora? Porque autoconhecimento sem movimento vira apenas um exercício intelectual. E ação sem autoconhecimento vira repetição do mesmo erro, com outra roupagem.

É esse equilíbrio — entre a escuta de si e o passo prático — que transforma um momento de clareza em resultado sustentável, tanto na vida profissional quanto na pessoal. Porque a verdade é que não existem duas pessoas: existe uma só, que leva para o trabalho os mesmos padrões que leva para casa, e vice-versa.

Se você é líder, gestor, empresário, ou está construindo sua carreira, deixo uma provocação: quando foi a última vez que você se permitiu parar, sem agenda, sem meta, e perguntar a si mesmo o que realmente está sentindo diante dos desafios que enfrenta?

Buscar um espaço de desenvolvimento — seja em processos de psicologia aplicada ao executivo, seja em mentoria estruturada — não é sinal de fragilidade. É reconhecimento maduro de que evoluir em aspectos comportamentais é tão estratégico quanto evoluir tecnicamente. Quem se conhece, decide melhor. Quem decide melhor, lidera melhor. E quem lidera melhor a si mesmo, naturalmente, passa a liderar melhor os outros.

O resultado que você busca lá fora começa, quase sempre, numa pergunta que você ainda não teve coragem — ou espaço — de fazer para si mesmo.

Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora, fundadora da Grandy Psicologia Empresarial, e escreve neste espaço quinzenalmente, às quintas-feiras

 

Comente esta notícia

O portal e o blog não se responsabilizam pelos comentários aqui postados. Se você se sentir ofendido pelo conteúdo de algum comentário dirigido a sua pessoa, entre em contato conosco pelo e-mail contato@rdnews.com.br