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Cynthia Lemos Quinta-feira, 25 de Junho de 2026, 08:35 - A | A

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Cynthia Lemos

O brilho do outro não apaga o meu

Sobre o hábito silencioso de mirar na falha do outro — e a coragem, quase rara, de nos enxergarmos enquanto julgamos

Cynthia Lemos

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Cynthia Lemos nova articulista Rdnews arte interna

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Era fim de tarde.

As crianças corriam pelo pátio.

Meninos e meninas, juntos, no vai e vem natural daquela idade.

Me levantei para ver de perto e parei.

Apesar dos conflitos naturais da idade, naquele momento, ali, não havia nenhum. Nenhuma disputa. Só crianças brincando, leves, como se nada do que os adultos dizem sobre elas existisse.

Voltei encantada. “Olha que lindo, estão todos brincando juntos”, eu disse ao grupo de adultos.

E foi então que percebi.

No adulto que critica o chefe com um tom de superioridade e jura que não está fazendo nada disso. No pai que compra a dor do filho e, sem perceber, conduz a criança a devolver na mesma moeda. Em quem aponta a falha de outra pessoa diante de todos, e não se dá conta do peso daquilo

Enquanto as crianças se acolhiam no parquinho, ali, entre os adultos, recomeçava o julgamento. O mesmo de sempre. A criança que incomoda — que nem estava ali. Os pais que não cuidam. O menino que, dizem, precisa ser afastado.

O conflito que a gente tanto atribui às crianças, afinal, não estava nelas.

Estava em nós.

E eu fiquei com aquela sensação. Sabe? Um sentimento de mundo cinza.

Porque me peguei pensando: que mania é essa, tão nossa, de achar que somos os donos da razão?

Há poucos dias, numa sessão de mentoria, conduzi uma reflexão parecida, vinda de outro lugar. O mundo do trabalho.

Ali, um profissional questionava o ganho de colegas recém-chegados — seus pares no organograma. Como se, para o salário dele fazer sentido, o deles precisasse valer menos.

Mostrei a ele as próprias qualidades. E disse, com franqueza: para validar o seu valor, para justificar o seu aumento, você não precisa desqualificar o ganho dos seus pares.

Porque é a mesma cena, repetida em todo canto. A ideia de que, para eu me destacar, preciso depreciar o que é do outro. Que, para o meu valor aparecer, preciso questionar o ganho do outro, desqualificar o trabalho do outro, diminuir a conquista do outro.

Como se a minha luz só pudesse existir apagando a luz de alguém.

Mas será mesmo?

Tenho observado isso em tantos movimentos.

No adulto que critica o chefe com um tom de superioridade e jura que não está fazendo nada disso. No pai que compra a dor do filho e, sem perceber, conduz a criança a devolver na mesma moeda. Em quem aponta a falha de outra pessoa diante de todos, e não se dá conta do peso daquilo.

Sabe quando a pessoa não se enxerga?

Esse talvez seja o ponto que mais me inquieta. Não o erro em si. Mas a cegueira de quem julga sem perceber que está julgando.

E aqui eu preciso ser honesta. Porque é fácil apontar.

Me peguei imaginando: e se eu estivesse no lugar delas? Se fosse a minha filha a sofrer, eu agiria diferente?

Não sei.

E é exatamente por não saber que escolho não condenar. Escolho transformar a pergunta. De “como o outro é errado?” para “o que eu consigo enxergar de mim aqui dentro?”.

A isso dou um nome: autopercepção. A capacidade, rara, de se notar. De perceber o que estou fazendo, falando, movimentando diante do outro. E perguntar, com coragem: será que é justo?

Tem outra coisa que me chama atenção.

A gente foi treinado para mirar na limitação.

Colocamos um alvo bem ali, naquilo que o outro não sabe, não consegue, não dá conta. E esquecemos de olhar o todo.

Mas se eu paro. Se eu observo de verdade.

Aquela mesma criança do rótulo tem uma oratória que encanta — pega o microfone e a sala inteira para. A outra, de quem dizem que “tem algum problema porque não fala direito”, senta ao piano e toca de tirar o fôlego, sem nunca ter feito uma aula. Tem o que negocia, o que se vira, o que cria.

Cada um carrega um dom.

Por que insistimos em enxergar primeiro a falha?

E o mais desconcertante: isso começa cedo.

Outro dia vi uma criança mostrar, orgulhosa, uma pequena conquista num jogo. E a resposta de outra, do mesmo tamanho, foi imediata: “Que conquista? Você nem conseguiu tal coisa.” Pequenininha, e já com o olhar treinado para encontrar o defeito.

Onde foi que aprendemos isso?

Talvez a pergunta que falte seja a mais simples.

Como seria se eu calçasse o sapato do outro?

Como seria olhar aquela criança, aquele colega, aquele par, e enxergar não o que falta, mas o que pulsa?

Não o rótulo, mas a pessoa por trás de uma forma de se comunicar que às vezes soa dura, destoante. E que talvez peça de nós menos julgamento — e mais compaixão.

Não tenho uma resposta bonita para fechar este texto.

Confesso que saí de tudo isso com mais perguntas do que certezas. Com aquele gosto de cinza, de quem viu de perto o quanto somos capazes de julgar — e o quanto, às vezes, nem percebemos.

Mas fico com isso.

O mundo já tem críticos demais.

Talvez o nosso trabalho mais urgente, como gente, como pais, como líderes, não seja apontar melhor o erro do outro.

Seja aprender a nos enxergar.

E, quem sabe, a partir daí, enxergar no outro a luz que insistimos em querer apagar.

Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras

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