Liderança é ensinar e saber a hora de sair de cena
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Liderança é ensinar — e saber a hora de sair de cena
Liderança é mostrar como se faz, mas também soltar quando já foi visto como é feito.
E talvez você já tenha vivido isso — na liderança, na vida, ou até dentro da sua casa.
Quero compartilhar algo simples, mas extremamente revelador.
Agora, no almoço, meu filho — ele tem 11 anos — faz aula de programação em Python.
Python é uma linguagem de programação usada para criar jogos, aplicativos e resolver problemas de forma lógica e criativa.
Nada disso começou como um grande plano.
“Toda vez que você senta para fazer por ele — mesmo que ele ainda esteja desenvolvendo aquela competência — você trava o crescimento dele, trava o seu crescimento e trava o crescimento da empresa. O alerta aqui é sobre essa mania silenciosa de centralização”
Foi simples. Um dia estávamos mexendo no computador juntos, apareceu uma propaganda, ele se interessou, quis fazer… e, quando percebemos, já está nessa jornada há cerca de 18 meses.
E, como todo processo de aprendizagem real, vira e mexe ele me pede ajuda.
Como todo pré-adolescente, em alguns momentos ele quer desistir. E esse é um dos comportamentos que eu já observei com mais atenção — e aqui compartilho com você também. Esse movimento, muitas vezes, gera conflitos. Os ânimos se afloram. A dinâmica se tensiona. Especialmente dentro de casa.
“Mamãe, me ensina a fazer tal coisa?”
E eu: “Sim, filho.”
Mas existe um detalhe importante.
Nessa etapa do curso, ele já tem domínio de muita coisa.
Às vezes, percebo que ele quer que eu sente no computador para baixar um aplicativo, fazer toda aquela jornada que, para ele hoje, já é básica. Tanto que ele chega a levantar da cadeirinha para eu sentar.
E é exatamente aí que eu paro.
Eu digo:
“Não, filho. Senta aí. Qual é a tua dificuldade?”
“Ah, mãe, não tá dando certo.”
Eu respondo: “Então lê.”
“Lê o quê?”
“Lê. Lê o que está aparecendo.”
Eu não facilito.
E não é falta de cuidado.
É consciência.
Porque, no fundo, o que ele quer?
Ele quer que eu faça por ele. Que eu preencha o que precisa ser preenchido, siga o passo a passo e resolva tudo.
Mas se eu faço isso, eu crio um lugar perigoso: o da acomodação.
Se eu não estiver atenta — especialmente quando falamos de maternidade, de cuidar — a gente se confunde. E isso não acontece só em casa. Eu vejo isso acontecer, com muita frequência, dentro das empresas, na cadeira de liderança.
Chega um liderado com dificuldade:
“Ah, chefe, eu não estou conseguindo.”
E você, ali na sua cadeira de líder, olha aquilo em que ele está com dificuldade e pensa:
“Não é possível.”
Porque você faz aquilo em dois, três minutos.
E é exatamente aí que mora o risco.
Toda vez que você senta para fazer por ele — mesmo que ele ainda esteja desenvolvendo aquela competência — você trava o crescimento dele, trava o seu crescimento e trava o crescimento da empresa.
O alerta aqui é sobre essa mania silenciosa de centralização.
De fazer pelo outro num momento em que ele só precisa se esforçar um pouco mais para sair do lugar e desenvolver aquela tarefa.
E, nesse ponto, entram outros elementos que pedem atenção:
ego, necessidade de reconhecimento…
“Nossa, ele sabe fazer isso muito bem.”
“Chefe, por isso você é incrível.”
“Olha como você resolveu isso.”
Parece positivo. Mas tem um custo.
Esteja atento a esse comportamento.
Toda vez que você assume o lugar do outro, você freia o seu crescimento, o crescimento da empresa e o crescimento do seu colaborador — o desenvolvimento de todos, de forma geral.
Liderar não é provar o quanto você sabe fazer, é sustentar o desconforto de ver o outro aprender.
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras