Cuiabá, 29/09/2026

A gordura também pode ser uma aliada

Rdnews

 

Durante muitos anos, quando falávamos em gordura corporal, a conversa quase sempre estava relacionada a peso, estética e risco cardiovascular. Mas a ciência descobriu que o tecido adiposo é muito mais complexo do que um simples depósito de energia.

Ele é um tecido biologicamente ativo, rico em vasos sanguíneos, matriz extracelular e diferentes populações celulares capazes de participar da comunicação, modulação da inflamação e reparação dos tecidos.

Essa descoberta abriu uma nova frente dentro da medicina regenerativa: o estudo da gordura do próprio paciente como possível ferramenta no tratamento de algumas doenças musculoesqueléticas.

Isso nos ensina uma das lições mais importantes da medicina regenerativa moderna: tecnologia promissora não significa tratamento milagroso

Mas é importante entender que nem toda terapia derivada da gordura é igual.

Existem diferentes formas de processamento. Em algumas técnicas, a gordura é coletada e utilizada como enxerto. Em outras, ela passa por um processamento mecânico que reduz o tamanho dos fragmentos, originando a chamada gordura microfragmentada. Existem ainda técnicas destinadas à obtenção da chamada fração vascular estromal, composta por uma mistura de diferentes tipos celulares.

Também existem células derivadas do tecido adiposo que podem ser isoladas e posteriormente expandidas em laboratório. Essa é uma situação completamente diferente e envolve maior manipulação celular, além de aspectos regulatórios específicos.

Por isso, chamar genericamente todos esses tratamentos de “células-tronco” é uma simplificação que pode gerar expectativas equivocadas.

Na ortopedia, uma das áreas mais estudadas é a artrose do joelho. Pesquisas têm avaliado principalmente se produtos derivados do tecido adiposo podem contribuir para redução da dor e melhora da função.

Os resultados são interessantes, mas precisam ser interpretados com responsabilidade.

Estudos e revisões científicas recentes mostram melhora de dor e função em determinados grupos de pacientes tratados com tecido adiposo microfragmentado. Entretanto, quando essas terapias são comparadas a outros tratamentos biológicos, como o plasma rico em plaquetas, as diferenças nem sempre são grandes. Existem inclusive estudos controlados em que o tratamento não demonstrou superioridade significativa em relação ao placebo.

Isso nos ensina uma das lições mais importantes da medicina regenerativa moderna: tecnologia promissora não significa tratamento milagroso.

O objetivo também não deve ser simplesmente “colocar células” dentro de uma articulação. O processo de reparação envolve uma verdadeira conversa biológica entre células, vasos sanguíneos, moléculas sinalizadoras, matriz extracelular e o ambiente do tecido lesionado.

Além disso, nenhum procedimento substitui fatores fundamentais como fortalecimento muscular, controle do peso, atividade física adequada, sono, alimentação e controle das doenças metabólicas.

A medicina regenerativa está avançando rapidamente e provavelmente ainda veremos muitas mudanças nos próximos anos. O tecido adiposo certamente ocupa um lugar importante nessa investigação.

Mas quanto mais sofisticada se torna a tecnologia, maior deve ser o compromisso com a ciência.

Entre promessas exageradas e a rejeição de qualquer inovação existe um caminho mais responsável: compreender o que cada tratamento realmente oferece, selecionar corretamente os pacientes e acompanhar a evolução das evidências.

No futuro, talvez a pergunta não seja simplesmente se a gordura pode ajudar na regeneração.

A pergunta mais importante será: qual produto biológico, para qual paciente, em qual tecido e em qual momento do tratamento?

Fellipe Ferreira Valle é médico ortopedista, professor de Medicina, pesquisador em Medicina Regenerativa e diretor técnico da Regend – Centro de Terapias Regenerativas e Controle da Dor. Atua há mais de uma década no ensino médico e no desenvolvimento de pesquisas voltadas à preservação da função musculoesquelética, tratamento da dor e medicina regenerativa. É autor dos livros Longevidade Articular – Intervir Antes de Degenerar: A Nova Era da Saúde Articular e Vencedor – O Caminho para Vencer a Dor. Instagram: @dr.fellipe