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Fellipe Valle Terça-feira, 27 de Outubro de 2026, 08:39 - A | A

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Fellipe Valle

Reumatismo não é diagnóstico

Quando alguém diz “tenho reumatismo”, ainda falta responder à pergunta mais importante: qual?

Fellipe Valle

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 Fellipe Valle arte colunista vale esta agosto de 2026

 

A palavra “reumatismo” costuma ser usada para explicar qualquer dor nas articulações, nos músculos ou na coluna. Parece um diagnóstico, mas não é. Ela representa um grande grupo formado por mais de 120 doenças diferentes, que podem atingir articulações, ossos, músculos, tendões e ligamentos — e, em alguns casos, também órgãos como coração, pulmões, rins, pele e olhos.

O alerta ganha importância nesta semana porque 30 de outubro é o Dia Nacional de Luta contra as Doenças Reumáticas, uma data dedicada à conscientização sobre o diagnóstico precoce e o tratamento adequado.

Entre essas doenças estão condições muito diferentes, como artrose, artrite reumatoide, gota, fibromialgia, lúpus, espondiloartrites, bursites, tendinites e osteoporose. Portanto, duas pessoas que dizem ter “reumatismo” podem apresentar problemas completamente distintos e precisar de tratamentos que não se parecem em nada.

Dar o nome correto à dor é o primeiro passo para não aprender a conviver com aquilo que poderia ser tratado.

Também não é verdade que doença reumática seja exclusividade de idosos. Crianças, jovens e adultos podem ser afetados. Algumas enfermidades aparecem justamente na fase mais produtiva da vida e, quando não são reconhecidas, podem causar limitação física, afastamento do trabalho e perda de qualidade de vida.

Um ponto importante é diferenciar, inicialmente, a dor de característica mecânica daquela que sugere inflamação.

A dor mecânica geralmente piora com esforço, sobrecarga ou determinados movimentos e tende a aliviar com o repouso. É comum em quadros como artrose, tendinopatias e problemas relacionados ao excesso de uso.

A dor inflamatória pode apresentar outro comportamento: rigidez prolongada ao acordar, articulações inchadas ou quentes, dor durante o repouso e melhora parcial quando a pessoa começa a se movimentar. Algumas doenças também atingem as duas mãos ou os dois pés de maneira semelhante.

Essas características não fecham um diagnóstico, mas ajudam a indicar quando a investigação não deve ser adiada.

É necessário procurar avaliação médica quando houver inchaço articular persistente, rigidez matinal prolongada, perda progressiva de movimento, dor recorrente por semanas, febre sem explicação, cansaço intenso, manchas na pele, olhos inflamados ou histórico familiar de doenças autoimunes.

Uma articulação que fica subitamente muito dolorosa, quente, vermelha e inchada merece atenção rápida, principalmente quando o quadro é acompanhado de febre. Além de crises como a gota, existem infecções articulares que precisam ser reconhecidas e tratadas com urgência.

Outro erro frequente é solicitar uma grande quantidade de exames por conta própria. Não existe um único “exame para reumatismo”. Marcadores como fator reumatoide, anticorpos e provas inflamatórias precisam ser interpretados junto com os sintomas e o exame clínico. Um resultado alterado isoladamente nem sempre representa doença, assim como um resultado normal nem sempre exclui completamente um problema reumatológico.

O mesmo cuidado deve existir com a automedicação. Anti-inflamatórios podem aliviar temporariamente a dor, mas também podem mascarar sinais importantes e trazer riscos ao estômago, aos rins, ao coração e à pressão arterial. Alívio não significa necessariamente que a causa tenha sido resolvida.

A boa notícia é que muitas doenças reumáticas podem ser controladas. Quando o diagnóstico é realizado precocemente, torna-se possível reduzir a inflamação, preservar as articulações, evitar deformidades e manter a independência. O tratamento pode envolver medicamentos, exercício orientado, controle do peso, alimentação adequada, fisioterapia, reabilitação e mudanças de hábitos, sempre conforme a condição identificada.

Sentir dor não significa automaticamente ter uma doença grave. Mas também não é correto aceitar sintomas persistentes como consequência inevitável da idade, do trabalho ou do clima.

“Reumatismo” é apenas o começo da conversa. Dar o nome correto à dor é o primeiro passo para não aprender a conviver com aquilo que poderia ser tratado.

Fellipe Ferreira Valle é médico ortopedista, professor de Medicina, pesquisador em Medicina Regenerativa e diretor técnico da Regend – Centro de Terapias Regenerativas e Controle da Dor. Atua há mais de uma década no ensino médico e no desenvolvimento de pesquisas voltadas à preservação da função musculoesquelética, tratamento da dor e medicina regenerativa. É autor dos livros Longevidade Articular – Intervir Antes de Degenerar: A Nova Era da Saúde Articular e Vencedor – O Caminho para Vencer a Dor. Instagram: @dr.fellipe

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