No dia 20 de agosto de 2026, uma publicação sobre osteoartrose do joelho trouxe novamente para discussão uma ideia fundamental: envelhecer aumenta o risco de artrose, mas isso não significa que devemos aceitar dor, perda de movimento e incapacidade como consequências inevitáveis da idade.
Durante muito tempo, a explicação dada aos pacientes era simples: “a cartilagem gastou”. A imagem era quase a de uma peça mecânica que, depois de milhares de quilômetros de uso, inevitavelmente chegaria ao fim de sua vida útil.
Hoje sabemos que a história é muito mais complexa.
A artrose não envolve apenas a cartilagem. É uma doença de toda a articulação, capaz de produzir alterações no osso localizado abaixo da cartilagem, na membrana sinovial, nos músculos e em outros tecidos ao redor da articulação. E existe um aspecto particularmente interessante: a imagem nem sempre conta toda a história. Há pessoas com alterações importantes nos exames e poucos sintomas, enquanto outras apresentam dor e limitação relevantes com alterações estruturais menores.
Isso muda bastante a maneira como devemos olhar para a doença.
A publicação de 20 de agosto chama atenção justamente para os fatores que podemos modificar. Não conseguimos escolher nossa idade, nossa genética ou apagar uma lesão sofrida anos atrás. Mas podemos interferir em aspectos importantes da saúde das articulações, como força muscular, atividade física, peso corporal e hábitos de vida.
Talvez o primeiro mito que precise ser derrubado seja o de que uma articulação com artrose deve ser poupada.
É compreensível que alguém com dor pense: “Se está desgastado, quanto menos eu usar, melhor”. O problema é que o corpo humano não funciona exatamente como uma máquina. Quando nos movimentamos menos, perdemos força muscular e capacidade física. Com músculos mais fracos, atividades simples tornam-se mais difíceis. A pessoa sente dificuldade, movimenta-se menos, perde ainda mais força e entra em um ciclo que pode acelerar a perda de função.
Por isso, músculo é parte importante da proteção articular.
Se existe dor, descubra sua causa. Se existe fraqueza, trabalhe força de maneira adequada. Se existe excesso de peso, procure melhorar sua composição corporal. Se já existe artrose, procure entender o que pode ser feito para preservar função, controlar os sintomas e proteger a articulação
Quadríceps, glúteos e outros músculos envolvidos no controle dos membros inferiores ajudam a estabilizar e controlar o movimento durante as atividades cotidianas. Fortalecê-los não significa transformar todo paciente com artrose em atleta. Significa oferecer ao organismo melhores condições para caminhar, levantar-se, subir escadas e continuar realizando suas atividades com eficiência.
O peso corporal é outro ponto importante. Durante uma caminhada, as forças que atravessam o joelho podem ser várias vezes maiores do que o próprio peso corporal. Imagine isso repetido milhares de vezes por dia, durante anos. Para quem apresenta excesso de peso, reduções relativamente modestas podem representar uma diminuição importante da carga acumulada sobre as articulações.
Mas há um detalhe que considero ainda mais importante: não deveríamos olhar apenas para o peso.
Composição corporal importa.
Uma pessoa pode emagrecer e, ao mesmo tempo, perder músculo. Pode pesar menos na balança e não necessariamente estar mais preparada fisicamente. Para a saúde articular e para um envelhecimento com independência, preservar ou aumentar massa e força muscular é muito mais interessante do que simplesmente perseguir um número menor na balança.
A alimentação também participa dessa equação. Não existe alimento milagroso capaz de reconstruir sozinho uma cartilagem danificada, assim como nenhuma dieta garante que alguém nunca desenvolverá artrose. Mas uma alimentação equilibrada, adequada em proteínas e baseada predominantemente em alimentos pouco processados contribui para o controle do peso, manutenção da massa muscular e saúde do organismo como um todo.
Outro ponto merece atenção: ter casos de artrose na família não significa estar condenado a repetir a mesma história.
A genética influencia o risco, assim como idade, sexo, anatomia e histórico de lesões. Mas genética não é destino. Existem fatores sobre os quais podemos agir. Manter-se ativo, preservar força muscular, controlar o excesso de peso e prevenir lesões são atitudes que podem contribuir para manter boa função ao longo dos anos.
Isso também não significa vender a falsa promessa de que toda artrose pode ser evitada ou revertida. Não pode. Existem pacientes que desenvolverão a doença apesar de bons hábitos, e há situações em que medicamentos, reabilitação, procedimentos e até cirurgia serão necessários.
A medicina precisa ser responsável o suficiente para reconhecer tanto o potencial da prevenção quanto os seus limites.
O que precisa mudar é a ideia de que devemos simplesmente esperar.
Esperar doer. Esperar limitar. Esperar a musculatura enfraquecer. Esperar deixar de fazer aquilo de que gostamos. E somente então procurar uma solução.
Como ortopedista, acredito que precisamos inverter essa lógica.
Cuidar das articulações não deveria começar quando aparece a primeira grande limitação. Deveria fazer parte do cuidado com a saúde ao longo da vida, assim como cuidamos da pressão arterial, do coração, da alimentação e fazemos exames preventivos.
A dica desta semana, portanto, é simples: não use a idade como justificativa para abandonar o movimento.
Se existe dor, descubra sua causa. Se existe fraqueza, trabalhe força de maneira adequada. Se existe excesso de peso, procure melhorar sua composição corporal. Se já existe artrose, procure entender o que pode ser feito para preservar função, controlar os sintomas e proteger a articulação.
O calendário continuará avançando para todos nós.
Mas uma coisa é envelhecer. Outra, completamente diferente, é aceitar passivamente a perda da nossa capacidade de movimento como se ela estivesse escrita na certidão de nascimento.
Envelhecer é inevitável. A forma como cuidamos do nosso corpo durante esse caminho não é.
Fellipe Ferreira Valle é médico ortopedista, professor de Medicina, pesquisador em Medicina Regenerativa e diretor técnico da Regend – Centro de Terapias Regenerativas e Controle da Dor. Atua há mais de uma década no ensino médico e no desenvolvimento de pesquisas voltadas à preservação da função musculoesquelética, tratamento da dor e medicina regenerativa. É autor dos livros Longevidade Articular – Intervir Antes de Degenerar: A Nova Era da Saúde Articular e Vencedor – O Caminho para Vencer a Dor. Instagram :@dr.fellipe







