A medicina do futuro pode estar guardada no seu próprio corpo
Rdnews
Durante muito tempo, a medicina concentrou seus esforços em controlar os sintomas, substituir estruturas comprometidas e reduzir a progressão das doenças. Agora, uma nova fronteira começa a ganhar espaço: utilizar os próprios recursos biológicos do organismo para estimular reparação, equilíbrio e regeneração.
Entre esses recursos estão as células-tronco mesenquimais, encontradas em diferentes tecidos do corpo humano. Elas podem ser obtidas da polpa de dentes do siso, dentes de leite, tecido do palato e tecido adiposo, permitindo possibilidades de coleta em diferentes fases da vida.
O que antes seria descartado após um procedimento pode se transformar em uma reserva biológica pessoal.
Depois da coleta, o material é encaminhado para um Centro de Processamento Celular. Nesse ambiente, as células são isoladas, cultivadas e multiplicadas sob condições controladas. Durante o processo, passam por testes de esterilidade, micoplasma, endotoxinas, contagem e caracterização celular.
Estamos entrando em uma fase na qual cuidar da saúde não significa apenas tratar doenças já instaladas. Significa também reconhecer, organizar e preservar recursos que poderão participar das soluções médicas das próximas décadas
Após os controles de qualidade, as células podem ser criopreservadas em nitrogênio líquido a aproximadamente 196 graus negativos. Esse processo permite interromper o envelhecimento celular e conservar as características biológicas existentes no momento da coleta.
Na prática, não se armazena apenas um pequeno fragmento de tecido. Preserva-se uma população de células vivas, identificadas, testadas e preparadas para acompanhar a evolução da medicina regenerativa.
Mas por que essas células despertam tanto interesse?
As células-tronco mesenquimais possuem capacidade de multiplicação e, em condições específicas, podem se diferenciar em células relacionadas a tecidos como osso, cartilagem e gordura. Além disso, produzem e liberam substâncias que participam da comunicação entre as células do organismo.
Essa comunicação pode influenciar processos inflamatórios, imunológicos, vasculares e de reparação tecidual. Em vez de funcionarem somente como peças de reposição, essas células podem contribuir para a organização do ambiente biológico onde ocorreu uma lesão.
É uma mudança importante na forma de compreender a regeneração. O objetivo deixa de ser apenas substituir o tecido danificado e passa a incluir a criação de condições para que o próprio organismo responda de maneira mais eficiente.
Por isso, essas células ocupam uma posição de destaque nas pesquisas sobre regeneração óssea, cartilagem, lesões musculoesqueléticas, feridas complexas, alterações vasculares, doenças inflamatórias e diferentes condições degenerativas.
Na ortopedia, o interesse é especialmente significativo. Cartilagem, tendões, músculos e ossos apresentam capacidades diferentes de recuperação. Algumas estruturas possuem vascularização limitada e enfrentam maior dificuldade para reparar determinadas lesões. A possibilidade de utilizar recursos celulares e sinalizadores biológicos abre novas perspectivas para a preservação estrutural e funcional do aparelho locomotor.
A medicina regenerativa também procura compreender como as células interagem com biomateriais e sinalizadores. Esses três elementos — células, estruturas de suporte e sinais biológicos — formam uma espécie de tríade da regeneração. Juntos, podem orientar o desenvolvimento de estratégias cada vez mais personalizadas.
Outro aspecto relevante é a idade biológica das células. Assim como outras estruturas do organismo, elas também sofrem alterações com o passar dos anos. A capacidade de multiplicação e resposta pode mudar ao longo do envelhecimento.
A criopreservação permite conservar as células com as características que apresentavam no momento da coleta. Assim, um procedimento odontológico, uma pequena coleta no palato ou a retirada de tecido adiposo podem representar uma oportunidade de preservação biológica.
Estamos entrando em uma fase na qual cuidar da saúde não significa apenas tratar doenças já instaladas. Significa também reconhecer, organizar e preservar recursos que poderão participar das soluções médicas das próximas décadas.
A medicina do futuro tende a ser mais biológica, personalizada e integrada. Em vez de considerar o corpo apenas como o local onde uma doença acontece, começa a enxergá-lo como fonte de informações, mecanismos de defesa e ferramentas de reparação.
Talvez um dos avanços mais importantes da medicina regenerativa esteja justamente nessa mudança de olhar: aquilo que antes era descartado pode ser estudado, processado e preservado como parte de uma estratégia de saúde voltada ao futuro.
O próximo grande tratamento pode estar sendo desenvolvido agora. E parte da matéria-prima necessária para ele talvez já esteja dentro de nós.
Fellipe Ferreira Valle é médico ortopedista, professor de Medicina, pesquisador em Medicina Regenerativa e diretor técnico da Regend – Centro de Terapias Regenerativas e Controle da Dor. Atua há mais de uma década no ensino médico e no desenvolvimento de pesquisas voltadas à preservação da função musculoesquelética, tratamento da dor e medicina regenerativa. É autor dos livros Longevidade Articular – Intervir Antes de Degenerar: A Nova Era da Saúde Articular e Vencedor – O Caminho para Vencer a Dor. Instagram: @dr.fellipe