Atualizações sobre a lesão do Neymar
Rodinei Crescêncio/Rdnews
A lesão sofrida pelo grande ídolo Neymar certamente foi um dos temas mais comentados nos últimos dias. Seja pelo receio do craque não retornar a jogar na competição, ou seja pela crítica à atitude covarde e desumana de algumas pessoas que comemoraram por ele ter se machucado.
Sobre especificamente a situação dele, a novidade é que possivelmente ele volte a jogar ainda na fase de gupos, no terceiro jogo contra Camarões.
A pedido de muitos pacientes e leitores, vou trazer atualizações sobre o tratamento do entorse de tornozelo. Em junho deste ano saiu um grande estudo de atualização na área, com o nome: Management and treatment of ankle sprain according to clinical practice guidelines: A PRISMA systematic review, cuja tradução é Manejo e tratamento da entorse de tornozelo de acordo com as diretrizes de prática clínica: um prisma da revisão sistemática.
Uma entorse de tornozelo é a lesão musculoesquelética mais frequente em atletas e muito comum na população em geral com condições secundárias que requerem atenção médica. Entorses de tornozelo causam dor e amplitude de movimento restrita; pode levar a déficits funcionais ou incapacidade, osteoartrite pós-traumática e instabilidade crônica do tornozelo. Representam 12% de todas as lesões atendidas em departamentos de emergência e até 30% de todas as lesões esportivas.
Sabe-se que lesões no tornozelo representam 45% das lesões que ocorrem durante o basquete e 31% durante o futebol. Da mesma forma, 29% de todas as lesões nos membros inferiores no futebol afetam essa articulação, 75% delas nos ligamentos laterais.
Geralmente o entorse do tornozelo ocorre após um movimento de inversão, ou seja, a planta do pé vira para dentro. Este movimento vai acarretar algum grau de lesão nos ligamentos que estabilizam o tornozelo. E é de acordo com esse grau de lesão e a quantidade de ligamentos machucados que definimos a classificação e o tratamento
Um entorse de grau I resulta do estiramento um ligamento com fissuras microscópicas. Os pacientes têm um ligeiro inchaço e sensibilidade. Não há instabilidade articular ao exame, e o paciente é capaz de suportar peso e andar com pouca ou sem dor.
Entorse de grau II é uma lesão mais grave que envolve a ruptura incompleta de um ligamento. Os pacientes têm dor moderada, inchaço, sensibilidade e equimose. Há instabilidade articular ligeira a moderada no exame com alguma restrição da amplitude de movimento e perda de função. A deambulação é dolorosa.
O entorse de grau III envolve uma lesão completa de um ligamento. Os pacientes têm dores fortes, inchaço, sensibilidade e equimose. Há instabilidade mecânica ao exame e perda significativa da função e do movimento. Os pacientes são incapazes de suportar peso ou de andar de um lado para o outro.
Os objetivos iniciais do tratamento são limitar a dor e o inchaço e manter a amplitude de movimento antes de aumentar gradualmente o exercício. Repouso, gelo, compressão, elevação do membro são normalmente recomendados para os primeiros dois a três dias nos casos mais leves.
Para quadros mais graves, onde há dificuldade de andar, associado a maior edema (inchaço), dor na parte de dentro do tornozelo, serão necessários exames complementares que vão constatar o grau das lesões e poderão ser necessários tratamentos com antinflamatórios, imobilizações e uso de muletas por algum tempo. E em lesões mais severas, com acometimento de muitas estruturas, pode ser necessário até um procedimento cirúrgico.
A grande novidade nas lesões de tornozelo são os tratamentos guiados por ultrassonografia. Com ajuda da imagem do ultrassom, identificamos a lesão e aplicamos uma medicação especial que ajuda na sua cicatrização. O que antes era utilizado apenas em atletas de elite, já é acessível a qualquer pessoa, havendo inclusive cobertura por alguns planos de saúde.
Já com relação ao estudo recente, o mesmo traz a seguintes conclusões:
Depois de revisar vários artigos, 6 condutas analisadas apresentaram evidências suficientes para serem aplicadas na prática clínica e são altamente recomendadas para o tratamento da entorse de tornozelo:
1) regras de Ottawa – Refere-se à necessidade de solicitar radiografias de acordo com a dor do paciente.
2) terapia manual – Fisioterapia
3) Crioterapia – Aplicação de gelo no local da lesão
4) Suportes funcionais – Utilização de talas e outros imobilizadores de acordo com o grau da lesão.
5) Deambulação precoce – Iniciar a marcha o quanto antes
6) AINEs de curto prazo – Usar antinflamatórios na fase aguda, por pouco tempo.
Então, a mensagem que fica é que o entorse do tornozelo deve ser investigado por um médico especializado na área para que o tratamento seja empregado e a recuperação ocorra o mais breve possível.
Fonte: Ruiz-Sánchez FJ, Ruiz-Muñoz M, Martín-Martín J, Coheña-Jimenez M, Perez-Belloso AJ, Pilar Romero-Galisteo R, Gónzalez-Sánchez M. Management and treatment of ankle sprain according to clinical practice guidelines: a PRISMA systematic review. Medicine 2022;101:42(e31087).Received: 27 January 2021 / Received in final form: 18 June 2022 / Accepted: 20 June 2022
Fellipe Valle é médico ortopedista e traumatologista, com especialização em cirurgia de ombro e cotovelo, cirurgia do joelho, especializando em medicina da dor e ortopedia regenerativa, além de idealizador do programa Descomplicando a Ortopedia. Ele é membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia - MT, da American Academy of Orthopaedic Surgeons e da AO Trauma Latin America. É sócio fundador da associação brasileira de ultrassonografia músculo esquelética, professor de medicina na Univag e da residência de ortopedia Unic-Hgu. Escreve com exclusividade para esta coluna às terças. E-mail: fellipevalle@hotmail.com. Instagram: @dr.fellipe.