Cuiabá, 22/09/2026

Estamos vivendo a era do cansaço

Rdnews

 

Você já percebeu que a resposta mais comum à pergunta “Como você está?” passou a ser quase sempre a mesma?

“Estou cansado.”

É um cansaço que não escolhe idade, profissão ou condição financeira. Está presente no empresário, no estudante, na mãe que trabalha fora, no profissional da saúde, no aposentado e, cada vez mais, até nas crianças e adolescentes.

Vivemos um paradoxo.

Nunca tivemos tanta tecnologia para facilitar a vida. Nunca estivemos tão conectados. Temos aplicativos que organizam nossa rotina, equipamentos que reduzem o esforço físico e ferramentas capazes de realizar, em segundos, tarefas que antes levavam horas.

Ainda assim, a sensação coletiva é de que nunca estivemos tão cansados.

O que aconteceu?

A resposta começa no nosso cérebro.

Durante milhares de anos, ele evoluiu para responder aos desafios da sobrevivência. Precisava reagir rapidamente a perigos, encontrar alimento e preservar energia. O problema é que o cérebro que habita o mundo de hoje é praticamente o mesmo que habitava o mundo de milhares de anos atrás.

A diferença é que os predadores mudaram.

Hoje, eles chegam na forma de notificações, excesso de informação, jornadas intermináveis, preocupações constantes e a sensação de que precisamos estar disponíveis o tempo todo.

Antes mesmo de sair da cama, muitas pessoas já consultaram mensagens, e-mails, redes sociais e notícias. Ao longo do dia, alternam entre reuniões, ligações, vídeos, conversas e dezenas de pequenas decisões. Quando finalmente chega a noite, o cérebro continua acelerado, embora o corpo peça descanso.

Reserve, todos os dias, um período em que você não precise responder ninguém. Pode ser uma caminhada de vinte minutos, uma leitura antes de dormir, uma refeição sem celular, um momento de oração, uma conversa com quem você ama ou apenas alguns minutos de silêncio. Parece pouco. Mas é justamente nesses intervalos que o cérebro reorganiza informações, reduz a sobrecarga mental

Nossa atenção se tornou um dos recursos mais disputados da atualidade.

E isso tem um preço.

Cada interrupção exige que o cérebro mude de foco. Cada mudança consome energia. Ao final do dia, não estamos apenas fisicamente cansados; estamos mentalmente sobrecarregados.

Existe ainda outro aspecto que merece reflexão.

Confundimos descanso com distração.

Passamos horas diante de telas acreditando que estamos relaxando, quando, na verdade, continuamos recebendo estímulos o tempo inteiro. Assistimos a uma série enquanto respondemos mensagens. Almoçamos olhando o celular. Conversamos sem realmente prestar atenção. Estamos sempre ocupando a mente, mas raramente permitindo que ela descanse.

Como médico, percebo isso com frequência.

Muitas pessoas procuram atendimento acreditando que existe apenas um problema físico. É claro que doenças precisam ser investigadas e tratadas. Mas, em muitos casos, o corpo está apenas expressando o desgaste de uma rotina que perdeu o equilíbrio.

O organismo humano não foi feito para funcionar em estado permanente de alerta.

Ele precisa alternar períodos de esforço com períodos de recuperação. Da mesma forma que um atleta melhora quando respeita o descanso entre os treinos, nós também precisamos de pausas para recuperar nossa capacidade física, mental e emocional.

Talvez a pergunta mais importante não seja por que estamos tão cansados.

Talvez devêssemos perguntar por que passamos a considerar esse cansaço algo normal.

Existe uma dica simples que costumo compartilhar com meus pacientes e que vale para qualquer pessoa: reserve, todos os dias, um período em que você não precise responder ninguém.

Pode ser uma caminhada de vinte minutos, uma leitura antes de dormir, uma refeição sem celular, um momento de oração, uma conversa com quem você ama ou apenas alguns minutos de silêncio.

Parece pouco. Mas é justamente nesses intervalos que o cérebro reorganiza informações, reduz a sobrecarga mental e recupera parte da energia que o ritmo acelerado da vida consome.

Descansar não é um luxo. É uma necessidade biológica.

Em uma sociedade que nos incentiva a fazer cada vez mais, talvez a decisão mais inteligente seja aprender a fazer pausas intencionais.

Porque ninguém consegue oferecer o seu melhor ao trabalho, à família ou à vida quando vive permanentemente esgotado.

No fim das contas, produtividade não é fazer tudo.

É ter energia para fazer bem aquilo que realmente importa.

Fellipe Ferreira Valle é médico ortopedista, professor de Medicina, pesquisador em Medicina Regenerativa e diretor técnico da Regend – Centro de Terapias Regenerativas e Controle da Dor. Atua há mais de uma década no ensino médico e no desenvolvimento de pesquisas voltadas à preservação da função musculoesquelética, tratamento da dor e medicina regenerativa. É autor dos livros Longevidade Articular – Intervir Antes de Degenerar: A Nova Era da Saúde Articular e Vencedor – O Caminho para Vencer a Dor. Instagram :@dr.fellipe