Mito ou verdade: o frio piora as dores musculares e articulares?
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Com a chegada do inverno, é muito comum ouvirmos frases como: “Meu joelho dói quando esfria”, “Minha coluna trava nos dias frios” ou “A artrite piorou por causa da mudança do tempo”. Mas será que isso é apenas uma impressão ou existe uma explicação científica?
A resposta é sim: existe uma relação entre a queda da temperatura e o aumento das dores musculares e articulares. No entanto, é importante esclarecer que o frio, por si só, não é o causador de doenças. O que acontece é que ele pode intensificar sintomas já existentes e tornar o organismo mais suscetível a desconfortos musculoesqueléticos.
Essa percepção não é um mito. Diversos estudos demonstram que pessoas com artrose, doenças inflamatórias, tendinopatias, dores na coluna, fibromialgia e dores musculares crônicas frequentemente relatam piora dos sintomas durante os períodos de temperaturas mais baixas. Embora a ciência ainda não tenha identificado um único mecanismo responsável por esse fenômeno, existem diversas explicações fisiológicas que justificam essa associação.
Uma das principais razões é a contração muscular involuntária. Quando a temperatura ambiente diminui, o organismo ativa mecanismos para preservar o calor corporal. Como consequência, os músculos tendem a permanecer mais contraídos, favorecendo a sensação de rigidez, travamento, espasmos musculares e dores, especialmente na região cervical, nos ombros e na coluna lombar.
Outro fator importante é a vasoconstrição. O frio faz com que os vasos sanguíneos diminuam de calibre para preservar a temperatura interna do corpo. Isso reduz a circulação sanguínea periférica e, consequentemente, diminui o aporte de oxigênio e nutrientes para músculos, tendões e articulações, aumentando a sensibilidade dolorosa e tornando a recuperação dos tecidos mais lenta.
O frio faz com que os vasos sanguíneos diminuam de calibre para preservar a temperatura interna do corpo. Isso reduz a circulação sanguínea periférica e, consequentemente, diminui o aporte de oxigênio e nutrientes para músculos
As próprias estruturas articulares também podem ficar mais rígidas. Tendões, ligamentos, cápsulas articulares e músculos tornam-se menos elásticos em temperaturas baixas, fazendo com que muitas pessoas sintam as articulações “enferrujadas”, especialmente ao acordar ou após permanecer muito tempo na mesma posição.
Além disso, existe um fator comportamental que contribui significativamente para esse cenário: durante o inverno, as pessoas tendem a reduzir o nível de atividade física e permanecem mais tempo em ambientes fechados. A diminuição do movimento favorece a perda de força muscular, reduz a lubrificação natural das articulações e aumenta a sobrecarga sobre diversas estruturas do corpo. Muitas vezes, não é o frio isoladamente o responsável pela dor, mas a combinação de vários fatores que acompanham essa época do ano.
Alguns grupos costumam ser mais sensíveis às mudanças de temperatura, como idosos, pessoas com artrose, artrite reumatoide, fibromialgia, tendinopatias, dores crônicas na coluna, indivíduos sedentários e pacientes que já apresentaram lesões musculares ou articulares anteriormente.
A boa notícia é que existem medidas simples e eficazes para reduzir a piora dos sintomas. A principal delas é não interromper a prática de atividade física. O movimento continua sendo um dos melhores remédios para a saúde musculoesquelética. Caminhadas, exercícios de fortalecimento, exercícios de mobilidade e alongamentos leves ajudam a manter as articulações nutridas, a musculatura ativa e a circulação sanguínea adequada.
Também é fundamental realizar um aquecimento antes das atividades físicas, especialmente nos dias mais frios. Alguns minutos de caminhada leve e exercícios de mobilidade já são suficientes para preparar músculos e articulações e reduzir o risco de lesões.
Manter o corpo aquecido, usar roupas adequadas e proteger regiões mais sensíveis, como pescoço, ombros, coluna lombar e joelhos, também pode ajudar a minimizar a rigidez e o desconforto.
Outro cuidado importante é evitar permanecer longos períodos sentado ou deitado. Levantar-se e movimentar-se a cada 45 a 60 minutos ajuda a preservar a mobilidade e reduz a sensação de travamento articular.
Por fim, é importante lembrar que a musculatura é a principal proteção das articulações. Investir em exercícios de força, alimentação adequada, ingestão suficiente de proteínas, sono de qualidade e controle do peso corporal são estratégias fundamentais para manter a saúde musculoesquelética ao longo da vida.
Embora o frio possa intensificar sintomas, dores persistentes nunca devem ser consideradas normais ou atribuídas exclusivamente à estação do ano. Se a dor se prolonga por semanas, limita as atividades do dia a dia, desperta a pessoa durante a noite ou vem acompanhada de inchaço, perda de força ou limitação importante dos movimentos, é fundamental procurar avaliação médica.
O frio não cria doenças, mas pode funcionar como um gatilho que evidencia problemas já existentes. A melhor estratégia não é esperar a dor aparecer, mas investir em prevenção, movimento e fortalecimento muscular. Afinal, nossas articulações foram feitas para se movimentar e, muitas vezes, quanto mais sedentários nos tornamos durante o inverno, maior é a chance de sentir dor. O frio pode ser inevitável, mas a dor nem sempre precisa ser.
Fellipe Ferreira Valle é formado em medicina pela Universidade de Medicina de Teresópolis -RJ, realizando posteriormente residência médica em ortopedia na Santa Casa de Belo Horizonte onde também realizou especialização em cirurgia do joelho e cirurgia do ombro e cotovelo. É também membro fundador da Sociedade Brasileira de Regeneração Tecidual e Socio efetivo da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Professor de medicina na UNIVAG e preceptor da residência de ortopedia da UNIC. Instagram :@dr.fellipe