Cuiabá, 22/09/2026

O efeito placebo: como uma expectativa pode produzir efeitos reais no corpo

Rdnews

 

Imagine participar de um estudo para testar um novo medicamento contra a dor. Você recebe um comprimido, toma a medicação e, algum tempo depois, percebe que a dor diminuiu. Há apenas um detalhe: aquele comprimido não continha o medicamento que você imaginava.

Ainda assim, você realmente sentiu melhora.

Como isso é possível?

Durante muito tempo, o efeito placebo foi tratado quase como uma curiosidade da medicina. Hoje sabemos que o fenômeno é muito mais interessante. A expectativa de receber um tratamento pode desencadear respostas reais no organismo, especialmente em sintomas influenciados pela maneira como o cérebro processa as informações, como a dor.

E é importante esclarecer uma coisa logo no início: placebo não significa que a pessoa esteja inventando o que sente.

A experiência é real.

Nosso cérebro não funciona apenas como um observador do corpo. Ele participa ativamente da maneira como percebemos aquilo que acontece conosco.

A dor talvez seja um dos melhores exemplos.

Quando alguém acredita que está recebendo um tratamento capaz de ajudá-lo, essa expectativa pode modificar a atividade de circuitos cerebrais envolvidos na percepção da dor e mobilizar mecanismos naturais de modulação do próprio organismo

Quando encostamos a mão em algo muito quente, receptores enviam sinais ao sistema nervoso. Mas a intensidade final da dor que percebemos não depende exclusivamente do que aconteceu naquele local.

O cérebro interpreta esses sinais levando em consideração o contexto, experiências anteriores, emoções, sensação de segurança ou ameaça e até aquilo que esperamos que aconteça.

Por isso, duas pessoas com alterações semelhantes podem experimentar intensidades de dor bastante diferentes.

É nesse cenário que aparece o efeito placebo.

Quando alguém acredita que está recebendo um tratamento capaz de ajudá-lo, essa expectativa pode modificar a atividade de circuitos cerebrais envolvidos na percepção da dor e mobilizar mecanismos naturais de modulação do próprio organismo.

Em outras palavras, não é simplesmente “pensamento positivo”.

Existe biologia por trás da expectativa. E há um detalhe ainda mais curioso.

A forma como um tratamento é apresentado também pode influenciar a experiência do paciente.

A confiança transmitida pelo profissional, a explicação clara sobre o que será realizado, o ambiente e experiências anteriores ajudam a construir expectativas. Isso não significa enganar o paciente. Pelo contrário: mostra que comunicação e confiança também fazem parte do cuidado.

Existe, porém, o fenômeno contrário. Ele recebe o nome de efeito nocebo.

Quando esperamos que algo faça mal, essa expectativa também pode influenciar aquilo que sentimos.

Imagine alguém que lê uma extensa lista de possíveis efeitos adversos de uma medicação e passa a observar o próprio corpo com enorme atenção. Algumas sensações que antes seriam ignoradas podem ganhar importância e ser interpretadas como consequência do medicamento.

Isso não significa que os efeitos adversos não existam. Significa que a expectativa também participa da maneira como percebemos determinados sintomas.

É uma demonstração fascinante da comunicação constante entre cérebro e corpo.

Mas existe um limite importante nessa conversa.

O efeito placebo não cura tudo.

Expectativa não substitui antibiótico quando há indicação de antibiótico, não consolida uma fratura, não elimina um tumor e não deve ser utilizada como justificativa para abandonar tratamentos comprovadamente eficazes.

A medicina baseada em evidências utiliza justamente estudos controlados com placebo, quando ética e metodologicamente apropriado, para separar aquilo que é efeito específico de um tratamento daquilo que pode ocorrer por expectativa, evolução natural da doença e outros fatores.

Por isso, compreender o placebo não diminui a ciência.

Na verdade, torna a ciência ainda mais interessante.

Como médico, esse fenômeno também me lembra de algo que nenhuma tecnologia deveria fazer desaparecer da medicina: a importância da relação entre profissional e paciente.

Uma consulta não é apenas uma prescrição.

A maneira como explicamos um diagnóstico, a segurança que transmitimos, a capacidade de ouvir e a confiança construída durante o tratamento podem modificar a forma como uma pessoa atravessa uma doença.

Isso não substitui medicamentos, procedimentos ou cirurgia quando necessários.

Mas também não é irrelevante.

E, para quem vive a fé cristã, existe ainda uma dimensão que ultrapassa aquilo que a medicina consegue medir por completo.

Quando temos consciência do poder da fé e confiamos na ação do Espírito Santo para curar, nasce dentro de nós uma esperança que também transforma a maneira como enfrentamos a doença. Para mim, fé e ciência não precisam ocupar lados opostos. Como médico, reconheço os limites da medicina; como cristão, creio no poder de Deus e na cura pela ação do Espírito Santo.

A ciência pode estudar alguns efeitos da esperança, da expectativa, da oração e da espiritualidade sobre o bem-estar e sobre a maneira como enfrentamos o adoecimento. A fé, entretanto, não deve ser reduzida a um efeito placebo. Para quem crê, ela pertence a uma dimensão espiritual muito maior.

Ter fé também não significa abandonar o tratamento médico. Podemos orar pela cura e, ao mesmo tempo, utilizar os recursos que a medicina oferece. Uma coisa não precisa excluir a outra.

Quando uma pessoa deixa de olhar apenas para o medo e passa a enxergar também a possibilidade de recuperação, algo importante já começa a mudar na maneira como ela percorre o caminho do tratamento. E, para quem crê, esse caminho pode ser acompanhado não apenas pela ciência e pela medicina, mas também pela confiança em Deus.

E aqui fica uma reflexão prática.

Preste atenção às expectativas que você cria sobre a própria saúde.

Receber um diagnóstico não significa automaticamente imaginar o pior cenário. Ter uma alteração em um exame não significa necessariamente que sua vida será limitada por ela. E ouvir a experiência negativa de outra pessoa não significa que o seu organismo responderá da mesma maneira.

Informação de qualidade reduz medo. Uma boa relação com o profissional aumenta segurança. E expectativas realistas ajudam o paciente a participar melhor do próprio tratamento.

Talvez uma das descobertas mais interessantes da medicina moderna seja perceber que tratar uma pessoa envolve muito mais do que tratar uma parte do seu corpo.

O que acreditamos não é capaz de mudar toda a realidade biológica.

Mas pode mudar a maneira como nosso cérebro responde a uma parte dela.

E, quando àquilo que a ciência consegue explicar se soma a dimensão da fé, somos lembrados de que o ser humano é muito mais complexo do que seus exames, seus sintomas e seus diagnósticos.

E isso, por si só, já é extraordinário.

Fellipe Ferreira Valle é médico ortopedista, professor de Medicina, pesquisador em Medicina Regenerativa e diretor técnico da Regend – Centro de Terapias Regenerativas e Controle da Dor. Atua há mais de uma década no ensino médico e no desenvolvimento de pesquisas voltadas à preservação da função musculoesquelética, tratamento da dor e medicina regenerativa. É autor dos livros Longevidade Articular – Intervir Antes de Degenerar: A Nova Era da Saúde Articular e Vencedor – O Caminho para Vencer a Dor. Instagram :@dr.fellipe