Por que estamos ficando doentes mesmo com tanta medicina?
Rdnews
Nunca tivemos tanta medicina à nossa disposição. Temos exames capazes de identificar alterações de poucos milímetros, cirurgias realizadas com auxílio de robôs, medicamentos desenvolvidos para atuar em mecanismos específicos das doenças, inteligência artificial auxiliando diagnósticos e tratamentos que, poucas décadas atrás, pareceriam ficção científica.
Vivemos mais. Vencemos doenças que durante séculos mataram milhões de pessoas e transformamos diagnósticos antes fatais em condições tratáveis ou controláveis por décadas. Então surge um paradoxo: se a medicina nunca foi tão avançada, por que continuamos adoecendo tanto?
Parte da resposta está na mudança do próprio perfil das doenças. Durante grande parte da história da humanidade, nossos maiores inimigos foram as infecções, os traumas, a fome, as complicações do parto e doenças para as quais praticamente não existia tratamento. Vacinas, antibióticos, saneamento, anestesia, técnicas cirúrgicas e melhores condições de vida modificaram profundamente essa realidade.
Tornamo-nos extraordinariamente eficientes para tratar muitas doenças depois que elas aparecem, mas ainda temos enorme dificuldade em impedir que elas se desenvolvam. Parte da explicação para isso não está dentro dos hospitais. Está na maneira como vivemos
À medida que passamos a viver mais, porém, outro grupo de doenças ganhou protagonismo. Obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e diversas condições relacionadas ao envelhecimento e ao estilo de vida passaram a ocupar grande parte dos consultórios e hospitais. Muitas delas não surgem de uma hora para outra. São construídas silenciosamente ao longo de anos, às vezes décadas.
E talvez esse seja um dos grandes desafios da medicina moderna. Tornamo-nos extraordinariamente eficientes para tratar muitas doenças depois que elas aparecem, mas ainda temos enorme dificuldade em impedir que elas se desenvolvam. Parte da explicação para isso não está dentro dos hospitais. Está na maneira como vivemos.
Nosso organismo foi moldado para uma realidade muito diferente da atual. Durante milhares de anos, o ser humano precisou caminhar, correr, carregar peso, procurar alimento e enfrentar períodos de escassez. Hoje é perfeitamente possível passar um dia inteiro quase sem se movimentar. A comida chega à nossa porta, o elevador substituiu a escada, o carro substituiu a caminhada e grande parte do trabalho moderno acontece diante de uma tela.
Ao mesmo tempo, nunca tivemos tanta disponibilidade de alimentos altamente palatáveis, calóricos e de fácil acesso. Nosso cérebro continua biologicamente interessado em açúcar, gordura e energia porque, durante boa parte da evolução humana, encontrar calorias representava uma vantagem para a sobrevivência. O que antes era escasso tornou-se abundante. O corpo mudou pouco. O ambiente mudou completamente.
Também dormimos mal. Transformamos o sono em algo negociável. Dormimos menos para trabalhar, estudar, assistir a mais um episódio ou permanecer no celular. Só que o organismo não interpreta o sono como perda de tempo. Enquanto dormimos, acontecem processos fundamentais relacionados à memória, ao metabolismo, ao sistema imunológico, ao equilíbrio hormonal e à recuperação do organismo.
Somado a isso, vivemos permanentemente estimulados. Notificações, notícias, trabalho, redes sociais, cobranças, compromissos e uma sensação constante de urgência. O corpo humano foi preparado para responder ao estresse. O problema começa quando aquilo que deveria ser uma resposta temporária se transforma em estado permanente.
Nesse cenário, desenvolvemos um comportamento curioso: esperamos adoecer para começar a cuidar da saúde. Durante anos, ignoramos o peso aumentando, a pressão subindo, a perda de condicionamento, as noites ruins de sono, a alimentação inadequada e o sedentarismo. Até que um exame se altera ou algum sintoma aparece. Nesse momento, queremos uma solução.
E frequentemente a medicina tem uma. Medicamentos são fundamentais. Cirurgias salvam vidas. Novas tecnologias estão transformando o tratamento de inúmeras doenças. Seria um erro diminuir a importância desses avanços. Mas existe uma verdade que nem sempre é confortável: nenhuma tecnologia consegue substituir completamente aquilo que fazemos com nosso corpo todos os dias.
Não existe comprimido capaz de reproduzir todos os benefícios do exercício físico. Não existe suplemento que substitua uma alimentação adequada. Não existe medicamento que transforme quatro horas de sono em oito. E não existe procedimento médico capaz de apagar completamente os efeitos acumulados de décadas de hábitos inadequados.
Como médico, aprendi que uma das perguntas mais importantes diante de um paciente não deveria ser apenas “qual doença ele tem?”. Também deveríamos perguntar: “que trajetória trouxe essa pessoa até aqui?”. Muitas vezes, o que encontramos hoje é resultado de uma história construída ao longo de milhares de dias.
Isso não significa culpar quem adoece. Doenças são complexas. Genética, idade, ambiente, condições socioeconômicas, exposições, infecções e inúmeros outros fatores participam desse processo. Pessoas que fazem tudo “certo” também adoecem. Mas reconhecer essa complexidade não diminui o enorme poder que alguns hábitos exercem sobre nossa saúde.
Talvez a mensagem mais importante seja justamente esta: não espere sentir alguma coisa para começar a cuidar de você.
Prevenção não significa viver procurando doenças. Significa construir saúde enquanto ela ainda existe. Movimentar-se regularmente, preservar a massa muscular, dormir adequadamente, conhecer a própria pressão arterial, cuidar da alimentação, não fumar, reduzir ou evitar o consumo de álcool e realizar o acompanhamento médico adequado à idade e aos fatores de risco são atitudes aparentemente simples, mas que se acumulam ao longo da vida.
Nada disso parece tão impressionante quanto um robô cirúrgico, uma terapia genética ou uma nova molécula desenvolvida em laboratório. Talvez aí esteja justamente o paradoxo.
Enquanto procuramos a próxima grande revolução da medicina, algumas das ferramentas mais poderosas para viver melhor continuam diante de nós há muito tempo.
A medicina do futuro certamente será mais tecnológica, personalizada e precisa. Mas precisará ser também mais preventiva.
Afinal, o maior avanço da medicina não será apenas conseguir tratar melhor uma doença. Será fazer com que mais pessoas cheguem mais tarde — ou talvez nunca cheguem — ao momento em que precisam tratá-la.
Fellipe Ferreira Valle é médico ortopedista, professor de Medicina, pesquisador em Medicina Regenerativa e diretor técnico da Regend – Centro de Terapias Regenerativas e Controle da Dor. Atua há mais de uma década no ensino médico e no desenvolvimento de pesquisas voltadas à preservação da função musculoesquelética, tratamento da dor e medicina regenerativa. É autor dos livros Longevidade Articular – Intervir Antes de Degenerar: A Nova Era da Saúde Articular e Vencedor – O Caminho para Vencer a Dor. Instagram :@dr.fellipe