Cuiabá, 03/11/2026

Saiba tudo sobre a lesão sofrida pelo Bruno Henrique

Rodinei Crescêncio/Rdnews

O jogador do flamengo Bruno Henrique recebeu alta do hospital ontem à tarde após passar por uma cirurgia no joelho. Ele sofreu uma lesão multiligamentar (ruptura do ligamento cruzado anterior, ligamento colateral lateral e canto póstero lateral) durante a partida contra o Cuiabá no Maracanã, no último dia 15. A previsão de retorno aos jogos é em torno de 12 meses.

As lesões do ligamento cruzado anterior (LCA) são comuns em atividades esportivas em que o joelho faz movimento de rotação, e totalizam mais de 250.000 casos por ano.

O joelho apresenta 4 principais ligamentos estabilizadores, que são os ligamentos colaterais lateral e medial, e os ligamentos cruzado anterior e posterior, que formam o chamado pivot central. Desses, o LCA é o principal estabilizador para movimentos de anteriorização da tíbia e o ligamento mais frequentemente lesado nos traumas desportivos.

“A grande maioria das rupturas do LCA ocorre por lesões atléticas sem contato”

Fellipe Valle

A grande maioria das rupturas do LCA ocorre por lesões atléticas sem contato. Estudos realizados na USP apresentaram incidência de lesão nas seguintes modalidades esportivas: 53,27% no futebol, 6,54% nas atividades de corrida, 5,6% nas atividades de academia, 4,67% no voleibol, ciclismo e surfe. Outras modalidades menos comuns foram jiu-jitsu, capoeira, natação, caminhada, triatlon e dança; 80,37% das lesões isoladas do LCA no esporte foram em homens; no futebol essa incidência subiu para 87,72%. O sexo feminino foi responsável por 100% das lesões no handebol, 57,14% na corrida, 40% no voleibol e 16,67% na academia.

Lesões LCA podem ocorrer por uma variedade de mecanismos, incluindo alta energia (por exemplo, colisão de veículo motorizado, esqui alpino) e baixa energia. Estas podem envolver contato (por exemplo, golpe na lateral do joelho), mas lesões sem contato são mais comuns, sendo responsáveis ​​por aproximadamente 70 por cento das rupturas do LCA. O mecanismo mais comum envolve uma lesão sem contato de baixa energia sofrida durante uma atividade atlética.

Os pacientes que sofrem uma lesão do LCA geralmente se queixam de sentir um "estalo" no joelho no momento da lesão, inchaço agudo e sensação de que o joelho está instável ou "frouxo". Quase todos os pacientes com lesão aguda do LCA manifestam derrame no joelho por hemartrose (sangue na articulação).

Frequentemente, depois que o inchaço inicial melhora, os pacientes conseguem suportar o peso, mas reclamam de instabilidade. Movimentos como agachar, girar e pisar lateralmente, e atividades como descer escadas, em que todo o peso do corpo é colocado sobre a perna afetada, costumam provocar essa instabilidade.

Outras estruturas são frequentemente danificadas durante uma lesão aguda do LCA. Estas incluem o menisco, cápsula articular, cartilagem articular, osso subcondral (contusão ou fratura óssea) e outros ligamentos. Essas lesões podem ser mais frequentes se o mecanismo envolver força significativa (por exemplo, lesão por contato).

Em caso de apresentar os sintomas já descritos, é importante passar por uma avaliação médica onde serão realizados testes no joelho e a ressonância magnética será solicitada (ela é o melhor exame para o diagnóstico da lesão).

O tratamento agudo consiste em repouso, gelo e elevação da extremidade inferior afetada. As muletas podem ser necessárias para evitar o peso, principalmente se o joelho estiver instável.

Após esse momento, o tratamento a longo prozo deverá ser definido. Lesões do LCA podem ser tratadas cirurgicamente ou não. A decisão de fazer a cirurgia é baseada em vários fatores, incluindo o nível de atividade do paciente, as demandas funcionais colocadas no joelho e a presença de lesões associadas ao menisco ou outros ligamentos do joelho. Outros fatores, como idade e ocupação, também desempenham um papel. Pacientes com lesões em múltiplas estruturas do joelho (por exemplo, LCA mais menisco ou ligamento colateral medial) geralmente precisam de reconstrução cirúrgica devido ao aumento da instabilidade do joelho, o que normalmente causa limitações substanciais de atividade e sintomas mecânicos (por exemplo, travamento), e porque tais lesões provavelmente aumentam o risco de desenvolver osteoartrite (desgaste).

Teoricamente, não há limite de idade para a cirurgia. Embora pacientes com mais de 55 anos não sejam submetidos à reconstrução do LCA com frequência, a decisão de realizar a cirurgia depende da condição do paciente, incluindo instabilidade sintomática do joelho, nível de atividade e julgamento do cirurgião. Estudos sugerem que a reconstrução do LCA é geralmente bem-sucedida em pacientes com mais de 40 anos.

Ao decidir tratar uma ruptura completa do LCA de forma não cirúrgica, é importante compreender as possíveis sequelas. Embora estudos prospectivos rigorosos limitem nossa capacidade de tirar conclusões firmes, o joelho com deficiência de LCA está associado a um risco aumentado de ruptura meniscal, lesão da cartilagem articular (artrose), dor crônica no joelho e diminuição da atividade.

Fellipe Valle é médico ortopedista e traumatologista, com especialização em cirurgia de ombro e cotovelo, cirurgia do joelho, especializando em medicina da dor e ortopedia regenerativa, além de idealizador do programa Descomplicando a Ortopedia. Ele é membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia - MT, da American Academy of Orthopaedic Surgeons e da AO Trauma Latin America. É sócio fundador da associação brasileira de ultrassonografia músculo esquelética, professor de medicina na Univag e da residência de ortopedia Unic-Hgu. Escreve com exclusividade para esta coluna às terças. E-mail: fellipevalle@hotmail.com. Instagram: @dr.fellipe.