Cuiabá, 17/09/2026

A diplomacia dos escombros

Arte Rdnews

 

Foram quarenta segundos. Na noite de quarta-feira, 24 de junho, dois terremotos consecutivos, de magnitudes 7,2 e 7,5; sacudiram a costa norte da Venezuela, perto de Morón. Prédios ruíram em Caracas. A pista do aeroporto de Maiquetía rachou. La Guaira virou zona de desastre. Na manhã seguinte já eram mais de 160 mortos e quase mil feridos, e os números só cresciam. O abalo foi sentido a milhares de quilômetros: em Belém, moradores relataram prédios balançando, fenômeno confirmado pela rede sismográfica da USP.

A terra, indiferente à política, tremeu sobre uma das fronteiras tectônicas mais instáveis do continente. Mas tremeu também sobre uma das fronteiras políticas mais delicadas do momento.

Não é uma Venezuela qualquer que recebe a tragédia. É a Venezuela de janeiro de 2026, quando forças americanas capturaram Nicolás Maduro e a presidência interina passou às mãos de Delcy Rodríguez, hoje em aliança improvável com Washington. É nesse tabuleiro que o terremoto se inscreve

Não é uma Venezuela qualquer que recebe a tragédia. É a Venezuela de janeiro de 2026, quando forças americanas capturaram Nicolás Maduro e a presidência interina passou às mãos de Delcy Rodríguez, hoje em aliança improvável com Washington. É nesse tabuleiro que o terremoto se inscreve.

A resposta dos Estados Unidos foi imediata. Trump prometeu uma mobilização "grande, rápida e eficaz", chamou os venezuelanos de "novos e grandes amigos" e acionou desde equipes de resgate até o Pentágono. Há, sem dúvida, vidas a salvar, e socorro é socorro. Mas convém lembrar que, semanas antes do tremor, petroleiras como Shell e Chevron já negociavam seu retorno ao subsolo venezuelano. Na geopolítica, a solidariedade raramente viaja desacompanhada do interesse.

Eis a pergunta incômoda: quando a ajuda flui para um país que o próprio doador ajudou a reorganizar, onde termina a compaixão e onde começa a consolidação de influência?

Não se trata de cinismo, mas de lucidez. Catástrofes sempre foram palcos de poder. O terremoto de Lisboa, em 1755, abalou a filosofia europeia; o tsunami de 2004 reorganizou alianças na Ásia. Quem chega primeiro com cobertores e helicópteros também planta bandeiras simbólicas. O tsunami que ameaçou o Caribe foi cancelado em horas; a maré de influência que avança sobre a região promete durar bem mais.

E o Brasil, onde se posiciona? Lula manifestou "preocupação e consternação", instruiu o Itamaraty a avaliar medidas de assistência e reafirmou apoio ao governo de Delcy Rodríguez, chamando a Venezuela de "país irmão". A escolha das palavras não é casual. Brasília oferece solidariedade genuína, mas faz questão de marcar presença num quintal onde os Estados Unidos avançam depressa. Ajuda que é também afirmação de vizinhança, de que a América do Sul não assiste calada à própria reconfiguração.

Talvez seja esse o aprendizado mais duro de um terremoto. Ele não distingue ideologias: derruba o prédio do aliado e o do adversário com a mesma força bruta. Mas os homens, ao reerguer os escombros, escolhem com cuidado de que lado da história querem ser fotografados.

Quando a poeira baixar sobre Caracas, restará a pergunta que nenhum sismógrafo mede: reconstruímos casas, ou esferas de influência?

 Escrito com Sara Nadur Ribeiro 

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia