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Mauricio Munhoz Sábado, 15 de Agosto de 2026, 05:00 - A | A

Sábado, 15 de Agosto de 2026, 05h:00 - A | A

Mauricio Munhoz

A doutrina do quintal

Mauricio Munhoz

Arte Rdnews

Maurício Munhoz colunista sábado vale esta agosto de 2026

 

Onze de agosto de 2026. O Departamento de Estado dos Estados Unidos publica na rede X um vídeo de pouco mais de cinco minutos. Mapas antigos, narração solene, um embaixador conduzindo a história. A frase final não deixa dúvida: a dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada.

O roteiro tem 203 anos. Em 1823, James Monroe anunciou ao Congresso que as potências europeias não deveriam recolonizar as Américas. Era um continente recém-independente, e a fórmula "a América para os americanos" soava, então, quase protetiva. Em 1904, Theodore Roosevelt acrescentou o corolário que mudou tudo: os Estados Unidos poderiam intervir nos países latino-americanos diante do que considerassem ameaça à estabilidade da região. O escudo virou mandato.

Soberania, para um estado exportador, não se mede em discurso, mas em capacidade de decidir: por onde escoa a produção, quem financia a infraestrutura, quem processa o que sai daqui. Um território que apenas embarca grão a granel tem pouca voz sobre o mapa.

Nos Estados Unidos, Monroe é matéria de livro didático. Na América Latina, é memória. Essa assimetria explica por que um vídeo institucional foi lido aqui como recado.

E é recado. A Estratégia de Segurança Nacional apresentada em dezembro de 2025 já havia adotado explicitamente os preceitos da doutrina como sustentação da presença militar americana no hemisfério. Em janeiro, a operação que capturou Nicolás Maduro deu forma prática ao texto, e o próprio presidente americano passou a brincar com o nome, chamando-a de Doutrina Donroe. Não é acaso que a narração do vídeo caiba ao embaixador no Panamá, país cuja independência, em 1903, veio acompanhada de um canal.

O que isso significa para quem planta em Sorriso ou em Sapezal?

Mais do que parece. A releitura contemporânea da doutrina não trata apenas de tropas e cartéis; trata de rotas, portos, energia e minerais críticos. E trata, sobretudo, da presença chinesa no continente. Ocorre que a China é o principal destino da soja mato-grossense. Mato Grosso não assiste à disputa: está sobre a mesa dela.

Há aqui uma tensão que nenhuma retórica resolve. O Brasil tem interesse legítimo no mercado americano, em investimento e em tecnologia. Tem igual interesse em vender para quem compra mais. Historicamente, a diplomacia brasileira construiu margem de manobra justamente recusando-se a escolher, o pragmatismo herdado do Barão do Rio Branco. A questão de 2026 é saber quanto dessa margem sobra quando um dos lados anuncia, por escrito, que a região não comporta escolhas.

Talvez o ponto nosso seja outro. Soberania, para um estado exportador, não se mede em discurso, mas em capacidade de decidir: por onde escoa a produção, quem financia a infraestrutura, quem processa o que sai daqui. Um território que apenas embarca grão a granel tem pouca voz sobre o mapa. Um que agrega valor, diversifica compradores e domina a própria logística tem alguma.

Em Miritituba, as barcaças descem o Tapajós carregadas com a safra de Mato Grosso. Elas não sabem de Monroe, de Roosevelt, de Donroe. Mas o destino delas, cada vez mais, se decide em salas onde ninguém planta.

 Escrito com Sara Nadur Ribeiro.

 Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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