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Mauricio Munhoz Sábado, 08 de Agosto de 2026, 05:00 - A | A

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Maurício Munhoz

Entre a lei e a lavoura

Mauricio Munhoz

Arte Rdnews

Maurício Munhoz colunista sábado vale esta agosto de 2026

 

Foi em 1º de junho de 2026 que um documento do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos citou, pela primeira vez, uma lei da Assembleia Legislativa de Mato Grosso como justificativa para um tarifaço. Não falava de Brasília. Falava de Cuiabá. A norma retirava incentivos fiscais de empresas signatárias da moratória da soja, um acordo de 2006 que restringe a compra de grãos cultivados em áreas desmatadas da Amazônia. Washington leu ali um "efeito inibidor" sobre o combate ao desmatamento. E usou a caneta de um deputado estadual mato-grossense como prova num processo que resultaria em tarifas de até 37,5% sobre produtos brasileiros.

Há algo perturbador nessa cena. Uma lei pensada para disputas internas, entre produtividade e compromisso ambiental, entre soberania estadual e pressão de mercado; atravessou o oceano e virou munição num tabuleiro que Mato Grosso nunca escolheu jogar. O texto que nasceu para proteger a competitividade se transformou, nas mãos de outro país, em argumento contra o próprio Brasil.

Mas seria ingênuo parar aí. Porque enquanto essa engrenagem geopolítica girava contra o estado, outra girava a favor.

O país caminha para ultrapassar os Estados Unidos como maior exportador agrícola do mundo, apesar da pressão americana, quanto mais Washington tarifa, mais a China compra do Brasil

No mesmo semestre em que o tarifaço avançava, o agronegócio brasileiro registrou alta de 6% nas exportações, batendo a marca inédita de US$ 87 bilhões. O país caminha para ultrapassar os Estados Unidos como maior exportador agrícola do mundo, apesar da pressão americana, quanto mais Washington tarifa, mais a China compra do Brasil. Em 2025, foram mais de 80 milhões de toneladas de soja brasileira embarcadas para o mercado chinês. Os americanos não chegaram a dez milhões. O algodão, historicamente território americano, também já tem o Brasil na liderança.

Como conciliar as duas cenas? Um estado citado como réu num processo comercial e, ao mesmo tempo, parte central de uma safra que redesenha o mapa do comércio agrícola mundial?

Talvez a resposta esteja em reconhecer que são a mesma força, vista de ângulos diferentes. O tamanho que torna Mato Grosso indispensável ao abastecimento global é o mesmo tamanho que o torna visível e vulnerável a qualquer disputa entre potências. Não se tarifa quem não importa. A lei da moratória virou prova justamente porque o que ela regula pesa. E pesa muito.

Fica, porém, uma pergunta que a aritmética das toneladas não resolve: até quando a resiliência dos números vai substituir uma estratégia? Aprosoja e Famato já alertam para o custo do crédito rural, para as margens negativas, para uma safra inteira operando sob a sombra da retaliação. Recorde de exportação não é sinônimo de segurança, é, muitas vezes, apenas a prova de que ainda não quebrou.

Há uma imagem que resume bem esse momento: a lavoura mato-grossense, verde até o horizonte, sendo fotografada por satélite ao mesmo tempo em que é citada em um documento jurídico do outro lado do mundo. Duas lentes olhando para a mesma terra. Uma vê riqueza. A outra vê prova. Cabe a Mato Grosso decidir qual das duas quer moldar seu futuro.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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Giva 08/08/2026

Muito bom o artigo, sobre leis brasileiras e tarifaços tenho uma pergunta? Qual lei a China usou para o tarifaço na carne Brasileira?

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1 comentários

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