Foi na mesma terça-feira, 21 de julho, que dois retratos opostos de Mato Grosso chegaram às redações. Um vinha do MapBiomas: o estado registrou, em 2025, a menor área atingida por incêndios florestais em quatro décadas: 1,6 milhão de hectares, 61% abaixo da média histórica, 76% menor que em 2024. O outro vinha do AdaptaSUS, do Ministério da Saúde: entre 5 e 11 de julho deste ano, Mato Grosso somou 181 focos de calor, segundo lugar no ranking nacional, atrás apenas do Tocantins.
O dado do MapBiomas não é acidente estatístico. Ele é fruto de uma engrenagem que custou R$ 514,2 milhões entre 2019 e 2025: brigadistas, aeronaves, viaturas, um veículo anfíbio circulando pelo Pantanal, período proibitivo de queima estabelecido por decreto entre julho e novembro. É política pública mensurável, do tipo que raramente vira manchete porque seu sucesso é a ausência de tragédia. Mato Grosso, historicamente um dos três estados, ao lado de Pará e Maranhão, que concentram quase metade de toda a área queimada no Brasil desde 1985, decidiu remar contra a própria história recente.
O El Niño, citado no próprio informe da AdaptaSUS, é o personagem que não assina contrato com ninguém: favorece seca, eleva temperatura, cria condição, mas quem risca o fósforo continua sendo gente
Mas a estiagem de 2026 mal começou. E o Brasil, como um todo, também melhorou: o país queimou 12,7 milhões de hectares em 2025, 31% abaixo da média histórica, com a Amazônia puxando a queda para o menor patamar em 41 anos. A boa notícia mato-grossense é parte de uma boa notícia nacional. Isso não a torna menos real, mas também não a isola de um contexto em que o clima, não a gestão, pode ter dado uma mão generosa.
Eis o ponto de inflexão. Os 181 focos da última semana não contradizem o relatório do MapBiomas, eles o antecedem. O período crítico do fogo no Brasil concentra-se entre agosto e outubro; o dado do MapBiomas fecha 2025, o do AdaptaSUS abre 2026.
Comemorar o primeiro como se resolvesse o segundo é o mesmo erro de quem lê o resultado de uma safra passada para prever a colheita que ainda está no chão. O El Niño, citado no próprio informe da AdaptaSUS, é o personagem que não assina contrato com ninguém: favorece seca, eleva temperatura, cria condição, mas quem risca o fósforo continua sendo gente.
Cuiabá conhece bem essa gramática cíclica. A cidade nasceu de garimpeiros que queimavam a mata para abrir clareira, século 18, e cresceu tratando o fogo como ferramenta de expansão antes de aprendê-lo como ameaça. Duzentos e noventa anos depois, o estado ainda negocia com o mesmo elemento, só que agora com satélite, brigada e boletim epidemiológico, em vez de foice.
Não há incoerência em comemorar o número de ontem e vigiar o de amanhã. A pergunta que fica não é qual dos dois relatórios é verdadeiro. É se Mato Grosso vai tratar o resultado de 2025 como piso, o novo normal a defender, ou como teto, a exceção de um ano em que o vento soprou a favor.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia







