Escala da submissão
Arte Rdnews
Há uma dificuldade histórica em aceitar que trabalhador é ser humano antes de ser força produtiva.
Naturalizou-se a ideia de que viver cansado é sinal de honestidade. Que trabalhar até a exaustão é motivo de orgulho. Que adoecer pelo emprego demonstra comprometimento. O resultado aparece em todos os lugares: burnout tratado como frescura, funcionários respondendo mensagens de madrugada, pessoas sem tempo para ver os filhos, trabalhadores passando mais tempo em transporte e expediente do que vivendo a própria vida.
E existe algo ainda mais perverso nisso tudo: a romantização da precariedade. O brasileiro foi ensinado a admirar quem “vence na vida” trabalhando sem descanso. O entregador que pedala doze horas por dia vira símbolo de superação. A mãe que faz dupla jornada até adoecer é chamada de guerreira. O funcionário que nunca tira férias é visto como exemplo de dedicação. A exploração ganha linguagem de mérito.
Enquanto isso, direitos trabalhistas são constantemente tratados como obstáculos ao crescimento econômico. Descanso vira privilégio. Folga vira luxo. E dignidade parece sempre uma reivindicação excessiva.
O trabalho doméstico apenas escancara uma lógica presente em diversas áreas: a dificuldade brasileira em reconhecer plenamente a humanidade de quem trabalha. Seja na empregada tratada como invisível, no operador de telemarketing monitorado até para ir ao banheiro, no motorista de aplicativo sem proteção social ou no jovem submetido a estágios abusivos sob promessa de “oportunidade”.
No fundo, ainda operamos dentro de uma estrutura social que normaliza hierarquias extremamente violentas. Uma sociedade em que o conforto de uns frequentemente depende da exaustão de outros.
Casos extremos, como o do Maranhão, chocam porque tornam impossível ignorar algo que normalmente aparece de forma diluída no cotidiano. A violência física explícita apenas revela uma violência estrutural anterior: a de transformar pessoas em ferramentas descartáveis de produção e serviço.
O Brasil gosta de falar sobre empreendedorismo, eficiência e produtividade. Mas continua evitando a discussão mais básica de todas: por que ainda aceitamos que tanta gente precise abrir mão da própria dignidade apenas para sobreviver? A escravidão acabou faz mais de um século. Mas, no dia a dia, ela apenas trocou de uniforme.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia