O barril que sobrou da guerra
Rodinei Crescêncio
Há um conforto perigoso em declarar o fim de uma guerra. Soa como alívio, como página virada. Mas algumas guerras não terminam quando os mísseis silenciam, apenas mudam de endereço. A do Oriente Médio, deflagrada em fevereiro com os ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel ao Irã, talvez tenha um cessar-fogo no papel. No mercado, segue aberta.
O Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de um quinto do petróleo do mundo, virou refém da própria geografia. Fechado, reaberto, fechado de novo. Em junho, Teerã voltou a trancá-lo. Cada anúncio de paz dura menos que a travessia de um petroleiro. E o barril, que chegou a beirar os 109 dólares, aprendeu a não acreditar em tréguas.
A pergunta, daqui de Mato Grosso, é menos heroica e mais incômoda: o que sobra disso tudo para quem planta?
Lideramos a produção de grãos, alimentamos boa parte do planeta, exibimos números que enchem relatórios. Mas nossa força nasce de um insumo que não controlamos, transportado por uma rota que não defendemos, refém de uma tensão que não provocamos. Soberania no campo, vulnerabilidade no porto
Sobra dependência. O Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes que consome, e boa parte vem justamente da região que pegou fogo. Cerca de um terço da nossa ureia atravessava aquele estreito. O diesel que move as colheitadeiras e os caminhões da BR-163 bebe do mesmo poço. O Banco Mundial projeta fertilizantes 31% mais caros neste ano, com a ureia subindo até 60%. Não é estatística distante. É o custo da próxima safra.
Eis o paradoxo mato-grossense. Somos potência. Lideramos a produção de grãos, alimentamos boa parte do planeta, exibimos números que enchem relatórios. Mas nossa força nasce de um insumo que não controlamos, transportado por uma rota que não defendemos, refém de uma tensão que não provocamos. Soberania no campo, vulnerabilidade no porto.
O ministro da Agricultura celebrou, esta semana, o alívio nos custos após os acenos de acordo e a promessa chinesa de fornecer adubo. É um respiro legítimo. Mas respiro não é estratégia. A China estabiliza a ureia hoje; amanhã, define o preço. Trocamos um gargalo geográfico por uma dependência diplomática. O barril mudou de dono, não de natureza.
Há quem prefira tratar tudo isso como susto passageiro, mais uma manchete que o noticiário engole. Seria o erro mais caro. Os anos 1970 também começaram com um susto, e terminaram redesenhando a economia mundial. A diferença é que, naquela época, ninguém esperava que o Brasil virasse celeiro do planeta. Hoje, espera-se. E quem é esperado precisa de retaguarda.
A lição que sobra do barril não é sobre o Irã. É sobre nós. Sobre uma vocação agrícola erguida com pés de barro importado. Sobre a urgência, adiada há décadas, de produzir fertilizante em casa, diversificar fornecedores e tratar segurança de insumos pelo que ela de fato é: segurança nacional.
A guerra, dizem, acabou. O preço dela, não. Ele apenas embarcou rumo ao Centro-Oeste, dentro de um saco de adubo, e vai desembarcar, em silêncio, no orçamento de cada produtor que ainda acredita que o front fica longe.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia