Onde o mapa encolhe
Arte Rdnews
Em Araguainha, no sudeste de Mato Grosso, vivem 989 pessoas. É um dos cinco menores municípios do estado e figura entre os menores do Brasil inteiro. Cabe menos gente ali do que em dois prédios residenciais de Sinop. E, mais uma vez, o IBGE registrou o mesmo movimento silencioso: menos moradores do que no ano anterior.
Setecentos quilômetros ao norte, em Campo Verde, o sinal é o inverso. O município cresceu 5,94% em doze meses, a maior taxa do estado, seguido por Vale de São Domingos (5,22%), Querência (4,08%), Lucas do Rio Verde (3,65%) e Nova Mutum (3,48%). São dois Mato Grossos dentro da mesma unidade federativa.
Os números divulgados no fim de agosto confirmam o vigor do estado. Mato Grosso chegou a 3.950.330 habitantes e registrou o terceiro maior crescimento populacional do país, 1,46%, quase quatro vezes a média nacional de 0,37%. Mas a expansão não é homogênea. Dos 142 municípios, 90 cresceram, dois ficaram estáveis e 50 encolheram; perdendo, somados, 4.580 habitantes. Um terço do território estadual está se esvaziando enquanto o estado bate recorde.
Em reportagem publicada na última segunda-feira (31.08), o G1 me procurou para explicar por que isso acontece. Vale insistir no ponto, porque a imagem equivocada persiste.
Um município que perde gente não perde estrutura. Continua com prefeitura, câmara, secretarias, folha, obrigações de saúde e educação, prestação de contas. O custo fixo da máquina é rígido; a base que a sustenta, não. E população, no arranjo brasileiro, não é apenas gente: é moeda
O crescimento dos polos do agro não leva gente para a lavoura. A agricultura moderna é intensiva em capital e em máquina, não em braço. Quem chega vai para a cidade: transportadora, armazém, indústria de esmagamento, revenda de insumos, escritório de crédito, escola particular, hospital. O agronegócio, paradoxalmente, é uma máquina de urbanização. E os polos que ele cria drenam moradores dos municípios vizinhos. Cáceres, sétima cidade mais populosa em 2022, caiu para a nona posição em 2026.
Aqui a conversa deixa de ser demográfica e passa a ser federativa.
Um município que perde gente não perde estrutura. Continua com prefeitura, câmara, secretarias, folha, obrigações de saúde e educação, prestação de contas. O custo fixo da máquina é rígido; a base que a sustenta, não. E população, no arranjo brasileiro, não é apenas gente: é moeda. O coeficiente do Fundo de Participação dos Municípios é calculado por faixas populacionais, revistas anualmente com os dados do IBGE. Cair de faixa significa arrecadar menos, exatamente no momento em que a cidade fica mais velha, mais dependente e menos capaz de gerar receita própria.
O Congresso criou amortecedores para essa queda, escalonando a perda ao longo de anos. Amortecedor, porém, não é solução: apenas distribui o impacto no tempo. E o quadro nacional já era frágil antes disso. O estudo Multicidades da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos apontou que o FPM respondia, em média, por 18,5% das receitas correntes dos municípios brasileiros em 2022, e o Índice Firjan de Gestão Fiscal classificou 55,5% das cidades analisadas em situação crítica de autonomia financeira.
Mato Grosso foi construído por ondas de migração. Nos anos 1970, a BR-163 trouxe gaúchos e paranaenses para um cerrado que ninguém queria. Meio século depois, a migração continua; só que agora é interna, e o mapa que ela desenha tem centro e periferia.
A pergunta que os dados devolvem não é sobre quem cresce. É sobre o que se administra numa cidade que encolhe. Um município não desaparece do mapa por perder moradores. Ele permanece ali, com bandeira, brasão e orçamento, sustentando uma estrutura desenhada para uma população que já foi embora.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia