Sou professor a alguns anos já, sempre inicio minhas aulas com a protocolar chamada, os “presentes” vêm, como sempre, com os olhos ainda presos ao celular. E, como sempre, me emociono um pouco. Cada “presente” é uma aposta silenciosa que alguém fez no futuro.
Essa semana foi dia do professor no Brasil. A data remonta a 15 de outubro de 1827, quando Dom Pedro I mandou criar escolas de primeiras letras nas cidades e vilas do Império. Quase dois séculos depois, a pergunta continua escrita na lousa: o Brasil decidiu, de fato, levar a escola a sério?
Os números respondem, e incomodam. O Ideb de 2025 trouxe o melhor resultado da série histórica do país, mas o ensino médio ficou em 4,5, longe da meta de 5,2. Em Mato Grosso, o ensino fundamental avançou: de 6 para 6,3 nos anos iniciais e de 4,9 para 5,1 nos anos finais. O ensino médio, não. Ficou parado em 4,4. Justamente a etapa sob responsabilidade do Estado. Justamente a porta de saída para o trabalho e para a universidade.
Como economista, aprendi a desconfiar de quem trata educação como despesa. É investimento: o de retorno mais lento e, ao mesmo tempo, o mais seguro que conheço. Como professor, aprendi algo mais difícil de colocar numa planilha: esse retorno quase sempre chega quando ninguém está olhando. No ex-aluno que abriu um negócio em Sinop. Na ex-aluna que hoje confere as contas de um município. No jovem que foi o primeiro da família a pendurar um diploma na parede.
E é aqui que mora o paradoxo de Mato Grosso. Somos um estado que planta guiado por satélite, colhe com piloto automático e negocia a safra em bolsas do outro lado do mundo. A colheitadeira de milhões precisa de quem saiba ler dados. A agroindústria precisa de técnicos. As prefeituras do interior precisam de gestores. Que sentido faz uma economia do século XXI apoiada num ensino médio que não sai do lugar?
Como economista, aprendi a desconfiar de quem trata educação como despesa. É investimento: o de retorno mais lento e, ao mesmo tempo, o mais seguro que conheço.
Não falta diagnóstico. Falta prioridade. E a campanha deixou isso claro. No primeiro debate presidencial, a educação apareceu mais como acusação do que como projeto, mais como arma do que como plano.
Entendo a lógica, ainda que não a aceite. Educação não rende voto rápido. Uma escola bem cuidada hoje entrega cidadãos daqui a quinze anos, três mandatos depois. Nenhum governante inaugura um aluno alfabetizado. Não há placa, nem fita, nem foto.
Mas há consequência. A prioridade que falta hoje vira a mão de obra que vai faltar amanhã, a renda que não vai crescer depois de amanhã e a desigualdade que se repete na geração seguinte. A economia cobra caro de quem faz pouco caso da sala de aula.
No domingo, dia 25, o país volta às urnas. Em Mato Grosso, os eleitos já são conhecidos. A todos eles, e a nós, que votamos, deixo uma tarefa simples: antes de aplaudir qualquer promessa, perguntar o que será feito da escola.
Todo professor sabe, por experiência: lição de casa que ninguém cobra, ninguém faz.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro.
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia







