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Mauricio Munhoz Sábado, 31 de Outubro de 2026, 00:10 - A | A

Sábado, 31 de Outubro de 2026, 00h:10 - A | A

Mauricio Munhoz

Circuit Breaker

Mauricio Munhoz

Arte Rdnews

Maurício Munhoz colunista sábado vale esta agosto de 2026

 

Segunda-feira, 26 de outubro. Ainda pela manhã, a bolsa de São Paulo fez algo raro: desligou-se. O circuit breaker, o disjuntor que suspende os negócios quando a queda ultrapassa o razoável, foi acionado. Ao fim do dia, o Ibovespa tinha perdido 13,88%. O dólar subiu 8,21% e fechou a R$ 5,40. Foi o pior pregão em mais de seis anos.

Na véspera, o país tinha ido às urnas. E o mercado, que havia apostado num resultado, acordou com outro.

A democracia brasileira funcionou no domingo. O mercado se assustou na segunda. Cabe agora às instituições, e não ao humor dos pregões, religar a energia com previsibilidade

Vale lembrar o caminho até ali. Depois do primeiro turno, a Bolsa subiu 7,7% num único dia, e o dólar chegou a ser negociado abaixo de cinco reais. Foram três semanas de euforia apoiadas numa previsão. Bastou uma noite de apuração para desfazê-las.

O que isso nos ensina? Que o mercado é feito de expectativas, e expectativas não votam. Que preço é opinião com dinheiro em jogo e, como toda opinião, pode estar errada. O tombo não mediu a economia brasileira de domingo para segunda. Mediu a distância entre o que se apostou e o que aconteceu. Nada mudou no campo, nas fábricas ou nos portos naquela noite. Mudou a aposta.

Isso não quer dizer que o recado deva ser ignorado. Por trás do susto há uma pergunta legítima, que vai acompanhar todo o próximo mandato: qual será o compromisso com as contas públicas? Nenhum governo, de qualquer cor, pode deixá-la sem resposta. Juros, câmbio e crédito dependem dela.

Para Mato Grosso, porém, a segunda-feira teve dois lados. O produtor que vende soja, milho, algodão e carne recebe em dólar. Para ele, cada centavo a mais na cotação engorda a receita convertida em reais. É o lado que costuma aparecer nas manchetes.

O outro lado chega de caminhão. O fertilizante que aduba as lavouras mato-grossenses é, em grande parte, importado e cotado em dólar. O diesel que move colheitadeiras e carretas pela BR-163 acompanha a moeda. Defensivos, máquinas e peças também trazem o dólar embutido. E essa conta chega justamente quando se planeja a próxima safra.

Há ainda o crédito. No mesmo pregão, as ações do Banco do Brasil, maior agente de crédito rural do país, caíram 29,33%. Quando os juros futuros sobem e os bancos ficam cautelosos, quem sente primeiro é quem precisa financiar o plantio.

Câmbio alto, portanto, não é presente. É uma troca de pesos na balança: favorece a venda e encarece a produção. Quem olha só a receita esquece o custo. Para um estado que exporta muito, mas depende de insumos importados, a própria volatilidade já é o problema. Ninguém planta bem sem saber quanto vai pagar.

Já na terça-feira, o mercado ensaiava recuperar parte das perdas. É provável que os números se acomodem, como costumam se acomodar. A lição, porém, fica.

Um disjuntor existe para proteger o circuito de uma sobrecarga. Desarma, a luz se apaga por um instante e depois alguém o religa. A democracia brasileira funcionou no domingo. O mercado se assustou na segunda. Cabe agora às instituições, e não ao humor dos pregões, religar a energia com previsibilidade. Em Mato Grosso, onde a safra não espera, é isso que se pede.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do Governador de Mato Grosso e professor de economia

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