Cuiabá, 17/09/2026

Woven city

Arte Rdnews

 

Aos pés do Monte Fuji, onde o silêncio das neves encontra a vertigem da modernidade japonesa, a Toyota está construindo algo que os urbanistas jamais imaginaram de uma montadora: uma cidade. Não um bairro corporativo, não um campus tecnológico. Uma cidade de verdade, com casas, ruas, sistemas de energia, comércio e, desde setembro de 2025, seus primeiros moradores.

A Woven City, como foi batizada, ocupa 175 acres no sítio de uma antiga fábrica da própria Toyota em Susono. Foi anunciada em 2020, na Consumer Electronics Show, em Las Vegas, como um “laboratório vivo”: um espaço para testar veículos autônomos, robótica, inteligência artificial, casas inteligentes e matrizes de energia limpa à base de hidrogênio. Hoje, é uma realidade operacional.

A Fase 1 já acomoda cerca de 300 moradores, a maioria funcionários da Toyota e suas famílias, com previsão de chegar a 2 mil “tecelões”, como a empresa chama seus habitantes, nas fases seguintes. O custo estimado do projeto é de US$ 10 bilhões.

O potencial científico da iniciativa é inegável. Há algo genuinamente fascinante na ideia de uma cidade projetada como ambiente de pesquisa e desenvolvimento em escala real. Diferentemente dos laboratórios controlados, isolados do mundo, a Woven City permite que tecnologias sejam testadas na fricção autêntica da vida cotidiana: o café da manhã, a ida à escola, o idoso que precisa de assistência, a chuva inesperada que desafia o drone de entregas.

Diferentemente dos laboratórios controlados, isolados do mundo, a Woven City permite que tecnologias sejam testadas na fricção autêntica da vida cotidiana: o café da manhã, a ida à escola, o idoso que precisa de assistência, a chuva inesperada que desafia o drone de entregas

Universidades, startups e pesquisadores externos já foram convidados a participar por meio de um programa acelerador. É, sem exagero, um dos experimentos urbanos mais ambiciosos do século.

Mas é exatamente aqui que a reflexão precisa parar e perguntar o que os releases corporativos não respondem:

Quem governa essa cidade?

Numa democracia, a cidade é o espaço político por excelência. É o lugar onde o contrato social ganha endereço, onde o cidadão vota no prefeito, recorre ao juiz, protesta na praça. Na Woven City, o prefeito tem logotipo.

A infraestrutura, a energia, os dados gerados por sensores em cada esquina, a moradia, o transporte e o sistema de saúde: tudo pertence, direta ou indiretamente, à mesma corporação. Não há separação de poderes que se sustente quando o único poder é acionário.

O morador da Woven City não é exatamente um cidadão. É também um dado. Cada passo registrado, cada padrão de consumo, cada interação com os sistemas da cidade alimenta uma base de informações de valor incalculável para a empresa que, não por acaso, é também sua locadora, sua empregadora e sua provedora de serviços.

O monopólio não é apenas econômico. É existencial.

A história ensina a desconfiar de utopias de papel. As company towns do século XIX, cidades construídas por mineradoras e indústrias têxteis nos Estados Unidos e na Europa, prometiam ordem, eficiência e bem-estar. Entregaram controle, dependência e silêncio sindical.

A diferença é que a Toyota tem câmeras, algoritmos e conectividade que Henry Ford jamais sonhou.

Isso não significa que a Woven City seja má. Significa que ela é uma pergunta em forma de cidade. E a resposta que dermos, por meio de regulação, marcos jurídicos internacionais e pressão da sociedade civil, definirá se o futuro das cidades inteligentes será um avanço civilizatório ou a versão sofisticada de um grilhão com Wi-Fi.

O futuro, como sempre, não é o que se projeta. É o que se escolhe.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia